«Pedir que» ‘vs.’ «pedir para»

Será mesmo assim?

Vejamos o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a questão. «Se o povo diz pedir para, e se eu vejo que Herculano escreveu no Eurico — “pediu para falar a sós” — que me importa a mim que se critique a construção pedir para?
E que assim não lêssemos em Mestres da Língua?... Nunca se ouviu o povo dizer portuguêsmente pedir para ir e de modo semelhante?
Ocorre-me que alguém, algo pesaroso, me escreveu por eu ter defendido a construção pedir para seguida de infinitivo. Tal construção foi muito criticada por Cândido de Figueiredo e outros autores têm ido atrás da sentença do benemérito purista.
A verdade, porém, manda aconselhar paciência aos puritanos demasiado lógicos.
À minha análise lógica não repugna o dizer ou escrever peço-te para vires cá hoje, consoante já mostrei no Dicionário de Dificuldades.
Os gramáticos o que têm é de registar a dicção popular, pois já está apadrinhada pelas melhores penas da arte de escrever» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 275-76).

A diferença entre «oh» e «ó»

Ó rapaz!

Escreveu o Prof. Carmo Vaz sobre a matéria: «Deve ainda acrescentar-se que, por tradição ou convenção de escrita, mas como consoante morta, usamos o “h” em poucas palavras como hã! hem! ah, oh, puh! (Note-se que, enquanto o “oh” exemplifica a função fática e emotiva da linguagem, o “ó” é geralmente seguido de outra palavra e exemplifica a função apelativa; ex.: “Ó João…”) (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

Verbo «haver»

Tudo na mesma

      O que me diz, cara Luísa Pinto — um professor a usar a forma hadem — deixa-me muito triste. Em 18 de Março de 1958, há cinquenta anos, dizia o padre Raul Machado no seu programa Charlas Linguísticas (na 10.ª): «Hadem. É a forma hadem do verbo haver. “Eles hadem cá vir.”
      É uma forma mal feita e incorrecta. Peço que notem exactamente o vigor desta minha anotação. Parece que, uma vez ou outra, quando falo um pouco mais baixo, as minhas palavras são levemente transformadas, deturpadas… Portanto, aquela forma é errónea, é falsa, por agora; mas se ela se introduzir na linguagem… Ai de mim!... será correctíssima.
      Actualmente é falsa, é errónea; se daqui a cinquenta anos todos nós… (Se eu lá chegasse, é claro) a empregássemos, essa forma seria forma correcta, perfeita, porquê?
Porque os fenómenos da linguagem não caminham por processos lógicos; vão pelo aspecto usual, por hábitos…
      Ora bem; aquela forma, escrita no quadro, hadem, “eles hadem fazer”, é péssima dentro das normas gramaticais; é péssima, mas há tanta gente já que diz “eles hadem fazer”, “eles hadem vir”, que até, às vezes, eu próprio tenho receio de a empregar descuidadamente; infiltra-se nos ouvidos, e como se infiltra nos ouvidos e na subconsciência, habituamo-nos. E se nos habituamos, já nada se pode fazer para que a forma desapareça; é errónea, é falsa, mas se vier a introduzir-se será magnífica, perfeita.
      Peço o favor de atentarem bem no que acabo de dizer; não afirmo que esta forma é boa, nem digo que vamos admiti-la; digo que é falsa e é errónea. Mas que já muita gente a emprega; e se todos a empregarem, pertencerá correctissimamente à língua portuguesa» (Raul Machado, Charlas Linguísticas na RTP. Lisboa: Sociedade da Língua Portuguesa, [s/d, mas de 1998], pp. 139-40).

Elemento de composição «recém» (II)

Um penso nisso, já

      O Panda Profissões debruçou-se ontem sobre a profissão de enfermeiro. Para isso, muniu-se de uma quase enfermeira (na verdade nem soubemos se estava no 1.º ano se no 4.º ano; de qualquer modo, a legenda dava-a erroneamente como enfermeira), aluna na Escola Superior de Enfermagem de Francisco Gentil, e pô-la a falar. Às tantas, ensinou às criancinhas que uma das «actividades» dos enfermeiros é a de ajudar as «recém-mães». Claro, a língua evolui, blá-blá-blá.
      Já o escrevi aqui por duas vezes: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. A estudante deveria, dando outra redacção à frase, ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

Infinitivo não flexionado


Experimente assim

«“Temos a obrigação de fazermos um investimento rápido na língua portuguesa”, disse José Sócrates na declaração final da IX Cimeira Brasil-Portugal, que decorreu no Museu Santa Casa de Misericórdia, em Salvador da Baía», escreve na edição de hoje o Meia Hora. Disse, e disse mal. Deveria ter dito: «Temos a obrigação de fazer um investimento rápido na língua portuguesa.» Nesta frase, devemos empregar o infinitivo não flexionado ou impessoal, porque ele não tem sujeito próprio: o sujeito de fazer é também o sujeito de ter.
Quanto à necessidade de fazer um investimento rápido na língua portuguesa, concordo.

Por que razão


Simples, mas…

É espantoso que um jornalista, alguém cuja ferramenta de trabalho é a língua, erre em algo tão simples. Erro, de resto, que vejo todos os dias em traduções e artigos jornalísticos. Cara Rute Coelho, as orações interrogativas directas e indirectas com nomes expressos como motivo, causa, razão, diabo, diacho, carga de água são introduzidas pela preposição por seguida do determinante interrogativo que. Logo, deveria ter escrito: «Adelina — Ele disse-me que vinha a tribunal e depois disse-me que tinha sido detido [na primeira sessão, em Dezembro de 2006). Até Janeiro [de 2007] não soube por que razão tinha sido preso.» E o revisor, está lá a fazer o quê?

Passar a tocha?


Passar-se

«We’re not going to let George Bush pass the torch to John McCain», disse Barack Obama num comício anteontem em Denver, Colorado. Toda a imprensa de língua portuguesa traduziu aquele «pass the torch» como «passar o testemunho». Bem, não foi toda. No 24 Horas, podia ler-se: «Falando a 150 mil apoiantes, em Denver, Colorado, Obama incitou-os a não permitirem que Bush “passe a tocha” a McCain» («É um clone de Bush…», 28.10.2008, p. 23).
Na Grécia antiga, uma prova de atletismo incluía a lampadodromia ou corrida das tochas. Cada equipa, formada por quarenta atletas, passava de mão em mão uma tocha acesa, vencendo a equipa que conseguisse acender uma fogueira na chegada. Nas universidades norte-americanas disputa-se ainda hoje uma prova em tudo igual. Quanto a torch, tem como étimo o latim vulgar torca, alteração de torques, exactamente o mesmo do vocábulo português «tocha».
A expressão «passar o testemunho», que pertence à linguagem desportiva, é correntemente usada em sentido figurado, especialmente no domínio da política. Talvez nem todos os leitores percebam a expressão «passar a tocha».

Prefixo neo-


Neografia, hein?

Como me dizia uma aluna, lá por serem gratuitos não estão isentos de respeitar a ortografia. O prefixo neo- só conserva o hífen quando o segundo elemento da palavra tem vida à parte e começa por h, r, s ou vogal. Quando lêem as notícias em língua inglesa, têm de adaptar um pouco, não desconhecem isso, espero. Leram, por exemplo, no Washington Post: «In court records unsealed Monday, federal agents said they disrupted plans to rob a gun store and target a predominantly African-American high school by two neo-Nazi skinheads» («Assassination plot targeting Obama disrupted», Lara Jakes Jordan, 27.10.2008). Neo-Nazi. São as regras do inglês. Em português é neonazi.

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