Roubo e furto

Mais rigor

      Ana Catarina Santos, no noticiário das 5 da tarde na TSF: «Em silêncio, sem fazer disparar alarmes, pela madrugada, conseguiu entrar no edifício da PJ, vasculhou, roubou à vontade.» Os jornalistas são assim, de extremos: ora se encantam a lançar termos técnicos para cima do público, ouvintes, telespectadores, leitores, ora caem na mais rasteira imprecisão popular. O presidente da ASFIC, Carlos Anjos, bem usou o verbo furtar, mas não foi suficiente para a repórter.
      O furto, estabelece o artigo 203.º do Código Penal, consiste em «subtrair coisa móvel alheia», ao passo que o roubo, de acordo com o artigo 210.º do mesmo código, consiste na apropriação de coisa móvel alheia, sim, mas «por meio de violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo iminente para a vida ou integridade física». Nada, segundo as insistentes notícias sobre o caso, do que sucedeu esta noite no edifício da Av. José Malhoa.

Frases parentéticas

Morde aqui

Talvez se recordem de um leitor, convenientemente anónimo, que me apontou o uso supostamente agramatical de períodos inteiros dentro de parênteses. Lembram-se? Pois bem, na altura, consultei a Academia Brasileira de Letras (ABL). A resposta desta denota um subtil traço de menosprezo, que remeti por inteiro, como era justo, para o leitor, que estava pela segunda vez a fazer o mesmo comentário. Disse a ABL: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.»
Ando a ler o romance Adolescente Agrilhoado, de José Marmelo e Silva (1911-1991), escritor que tem agora a obra completa, não muito extensa mas altamente recomendável, publicada pela Campo das Letras. Há ali larguíssimas dezenas de frases parentéticas. E não se trata de modernices, não: a obra é de 1958, e a edição que estou a ler e vou citar, a 3.ª, de 1967.
«O cunhado, esforçando-se por reter as lágrimas, respirou, baixou as pálpebras. (Tinham ficado ambos ofegantes.) Decidiu-se, momentos depois, a encará-la severamente» (p. 131).

Construções anafóricas

Mais variedade

Vejo agora muito usada esta construção anafórica (e a pontuação está correcta!): «Foi um jogo interessante, aquele que ontem marcou a visita do Monsanto ao terreno do Nelas.» Bom é variar a forma como escrevemos, lançar mão de outras maneiras de expressão. O árbitro, esse… O jogador, este… O jogo, aquele… não convém usar em todos os textos.

Como se escreve nos jornais

Nada exemplar


      «“Um exemplo”. O adjectivo utilizado aquando da visita da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, à Escola Básica Integrada da Malagueira, em Évora, referia-se à forma estratégica como a escola tem integrado crianças com necessidades educativas especiais, que estavam, até ao início do passado ano lectivo, colocadas em instituições unicamente dedicadas ao ensino especial» («O exemplo integrado da Escola da Malagueira», Pedro Coimbra do Amaral, Diário de Notícias, 29.09.2008, p. 3).
      Vou ser brando: esta parvoíce só tem a seu favor o não ser inédita, escasso consolo para o leitor. Havia mil e uma formas de redigir correctamente a frase, mas o jornalista foi por ali. Além disso, a segunda frase, pela sua extensão, vai contra tudo o que recomendam os manuais de jornalismo.

Recursos

Bons ventos

Com interesse sobretudo para tradutores, eis a Biblioteca Digital Hispânica, um projecto da Biblioteca Nacional de Espanha, com 10 mil obras para consulta e descarregamento. (Já alguém perderá tempo a escrever-me: «Não é “Hispânica”, rapaz, mas “Hispánica”.» Obrigado por partilhar a sua sapiência connosco.)

Basónimos, outra vez

Pragas ameaçam jornais

Nos jornais, os basónimos continuam a ser mal grafados, provando que revisores, jornalistas e editores não lêem ou que estão fechados às críticas. É pena, pois os leitores merecem o melhor. «A Estação de Avisos do Baixo Alentejo (EABA), organismo dependente da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo, emitiu no dia 23 de Setembro uma circular onde alertava para os perigos resultantes da subida nas capturas de adultos da mosca da azeitona (bactricera oleae), no seu posto de observação biológica instalado na Vidigueira» («Pragas ameaçam olivais e pomares de citrinos», Carlos Dias, Público, 26.09.2008, p. 24). Na verdade, escreve-se, e já aqui expliquei mais de uma vez porquê, Bactricera oleae.

«Glamouroso»?

Enganos

      «Para os moradores de Suruí, o passado glamouroso da sua vizinha não passava de fantasia» («Namorada brasileira de McCain», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias/DN Gente, 27.09.2008, p. 16).
      A jornalista havia de experimentar dar a ler a palavra a uma criança ou mesmo a uma qualquer pessoa. Sim, saia à rua, ponha-se com um cartão com a palavra nele inscrita à boca do metro ali no Marquês de Pombal. Depois de comprovar que poucas a sabiam ler, decerto que usaria outra — portuguesa e afeiçoada ao nosso modo de dizer.
      Interessante, é verdade, é a etimologia e a semântica do termo: foram os Escoceses, ao que consta, que cunharam o vocábulo glamour a partir do inglês grammar, o que decorreu da associação popular da erudição com práticas ocultas. (Ver aqui o que escrevi sobre o vocábulo «grimório».) Nós é que não nos devemos deixar embair: temos vocábulos correspondentes em português, basta usá-los.

Ortografia: «Sol Nascente»

E o dicionário?

«Sobrevivente da lendária batalha da II Guerra Mundial, o japonês Tsuruji Akikusa espreita Iwo Jima da perspectiva que tiveram, em 1945, os pais dos americanos que agora o levam à ilha num avião militar quando então se aproximaram daquele bastião da resistência dos militares do Império do Sol-Nascente» («Ao longe», Diário de Notícias/DN Gente, 27.09.2008, p. 24). Há-de ser confusão com sol-pôr e sol-posto, estes sim com hífen. Quanto ao resto, está correcto: já aqui vimos que os prosónimos se escrevem com maiúscula inicial. Àqueles, podemos juntar este e Império do Meio, por exemplo.

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