Nova ortografia

Protesto? Não parece.



      O semanário Independente de Cantanhede decidiu comemorar o seu 14.º aniversário com uma edição, a de 28 de Maio, totalmente redigida segundo o Acordo Ortográfico de 1990. «Com base nas regras», avisam, «apresentadas no livro “Atual — O novo acordo ortográfico”, de João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia, publicado pela Texto Editora.» Se é assim, o jornal poderá ter reproduzido alguns erros.
      É uma forma bonita de dar as boas-vindas às novas regras. Ah, não? Afinal, é um protesto: «A equipa redactorial teve a feliz ideia de apresentar a primeira edição de aniversário (a segundo será na próxima semana) com os textos escritos de acordo com as futuras regras de ortografia, saídas de um acordo que ocupou os tempos livres de muitos dos nossos agentes culturais e que, à luz do nosso entendimento, era de todo desnecessário. E se por acaso o não fosse, não consigo entender porque há-de ser a língua mãe a aproximar-se dos facilitismos brasileiros, afastando-se da sua própria raiz latina que lhe deu vida, a suportou e cultivou durante séculos. Não virão longe os tempos em que, escreva-se como se escreva, está tudo certo. É a própria Cultura a ceder aos interesses», escreve o director-adjunto do semanário, Lino Vinhal, no editorial. Como protesto não se percebe, pois o jornal continua, pese embora a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, legível. Como suspeitávamos…
      Nesta mesma edição, o Independente de Cantanhede decidiu também divulgar o seu «Pequeno Livro de Estilo», que contém regras que tomaram todos os jornais. Cito somente, pelo interesse que pode ter para os meus leitores, os «Princípios e regras gerais»:
      «Os textos do Independente de Cantanhede têm habitualmente antetítulo, título, entrada, “lead” e subtítulo. Um ou mais destes elementos podem, no entanto, ser omitidos voluntariamente, até porque, por página, apenas um texto apresenta entrada.
      Todos os textos, sem exceção, devem ser redigidos com clareza, simplicidade e exatidão, respeitando escrupulosamente as regras da Língua Portuguesa.
      Os textos de opinião devem ser bem identificados como tal.
      São assinados todos os textos que resultem do trabalho de recolha dos seus autores.
      Não são assinados os textos comerciais, nem os que resultem de comunicados de imprensa enviados à redação.
      Os números até nove deverão ser grafados por extenso e só a partir de 10 se usarão algarismos.
      As horas devem ser grafadas segundo a norma 15H30 e não 15.30h, 15.30 ou 15h30m.
      As datas são escritas por extenso. Hoje, por exemplo, é dia 28 de maio de 2008.
      Os cargos políticos ou administrativos são grafados com iniciais em caixa baixa, com exceção do Presidente da República.
      “Governo” escreve-se com maiúscula, mas “primeiro-ministro”, “ministro”, “secretário de Estado”, “presidente da Câmara” e as demais formas de tratamento escrevem-se com minúscula.
      As citações de declarações ou de documentos são grafadas entre aspas.»

Vocativo e pontuação

A Lagoa de Sherman, de Jim Toomey, in Metro

Elementar




      Parece e é, de facto, elementar: o vocativo é isolado por vírgulas. Contudo, vejam como é de todos os dias o erro de faltar a pontuação. A indiciar que a pessoa que traduziu não sabe, eis que logo na primeira vinheta aos dois vocativos, em dois balões, falta a vírgula: «Que fazem no meu navio seus cães tinhosos?» «Aaaah! Não nos mate senhor pirata!» Grave, grave é a mesma deficiência encontrar-se em livros revistos. Alguns exemplos ao acaso:

«— Pronto Cat, agora podes trazer-nos umas cervejinhas “apimentadas”, se fazes favor» (Anjos em Sarilhos, de Annie Dalton. Difel, Lisboa, 2.ª ed., 2005. Tradução de Maria Amélia Santos Silva e revisão tipográfica de Sofia Graça Moura, p. 50). «— Porque não te sentas aqui um bocadinho Cat, ainda por cima hoje estás especialmente bonita… — disse Nick, em tom malandro» (idem, ibidem, p. 51).
«— Tu fizeste alguma coisa terrível, não foi Henrique? — perguntou o pai» (Henrique, o Terrível, Francesca Simon, tradução de Rómina Laranjeira. Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007, p. 17).

Júri e jurado, de novo

Ler e pensar, e vice-versa

Por vezes, tenho a ingénua pretensão (só para mim, contudo, o que é uma forte atenuante) de que, depois de falar de determinado erro, já ninguém o dará. Ainda ontem, no programa Megaphone, da Sic Radical, ao falar de um novo reality show da BBC2, Maestro, a apresentadora, Sílvia Mendes, disse que «os concorrentes serão todas as semanas avaliados por um painel de júris». Ainda que, como apresentadora, se limite a ler o teleponto, não pode corrigir? E não tem, como comunicadora, obrigação de saber uma coisa tão simples? Se quiserem, digam-lhe como é: silviamendes.cc@kanguru.pt.

O novo jornalismo

O resto é paisagem

      Na Antena 1, a concisão jornalística, para não lhe chamar outra coisa, está a atingir limites intoleráveis. António Macedo disse que se podia ir hoje ouvir a «escritora Lídia Jorge falar sobre Faulkner, William Faulkner, na FLAD». Não faltam aqui elementos essenciais à notícia? E que dizer de usar um acrónimo sem o desdobrar? Agora parte-se do princípio de que todos os ouvintes sabem que FLAD é o acrónimo de Fundação Luso-Americana? E nem se diz que a instituição fica em Lisboa? E a que horas se realiza a iniciativa? Ou é como no Cinema Olímpia, em sessão contínua? Ou, mais absurdo ainda, de cada vez que entrar uma pessoa na sala, Lídia Jorge reiniciará a palestra, correndo o risco de nunca a acabar? Valha-me Deus!
      A escritora Lídia Jorge irá proferir hoje, às 18.30, no auditório da Fundação Luso-Americana, em Lisboa (Rua do Sacramento à Lapa, 21), uma palestra dedicada à obra de William Faulkner, inserida no ciclo de conferências «Asas sobre a América/Wings over America», destinado a promover o encontro das literaturas portuguesa e americana. A palestra terá uma introdução feita por Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. A entrada é livre, mas, devido à capacidade limitada do auditório, convém fazer uma inscrição prévia por correio electrónico: fladport@flad.pt.

Publicidade e gramática


Revisor, precisa-se

Quase nunca é por bons motivos que aqui falo de publicidade. O último anúncio a merecer reparos é dos CTT Expresso. Quem escreveu a frase? Foi o cliente? Foi a agência Strat? Ainda que tenha sido o cliente, já aqui expressei esta opinião, é obrigação da agência corrigir. «Se é importante conte com a nossa entrega.» A frase é bonita, sim, senhor. Mas a pontuação está errada. Estando a oração subordinada condicional («Se é importante») anteposta à subordinante («conte com a nossa entrega»), a vírgula antes da oração subordinante é obrigatória: «Se é importante, conte com a nossa entrega.» Quando falo destas questões, é vê-los de cenho carregadíssimo, como quem diz: «Vem para aqui este tipo ensinar isto que todos sabemos.» Pois é, mas quando se trata de escrever ou rever, esquecem-se da vírgula… Quanto às agências de publicidade, vê-se outra coisa: prescindem sempre de revisor, até que um dia o cliente prescinda delas.

Topónimo: «Indocuche»

Não, não sou o único


      Sim, já tive oportunidade de escrever mais de uma vez «Indocuche». Estou, assim, a contribuir para a tradição. Rejeito, por isso, a forma Hindu Kush. «Escavou tesouros na Pérsia. Venceu o rio Congo e os picos do Hindu Kush» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, p. 6). Mas há mais alguém em Portugal, pergunta o leitor malévolo, a escrever como você escreve? Ah, sim, algumas. Clara Ferreira Alves, por exemplo: «O romance de Khaled Hosseini, O Menino de Cabul, descreve a atracção do país e da sua luz, da beleza selvagem da terra e da gente, com os rios límpidos onde dormem esqueletos de tanques russos, os desertos de vento e o perfil puro da neve no Indocuche» («A traição do Afeganistão», Clara Ferreira Alves, Expresso, 24.3.2008). Claro que algum leitor se irá dar ao trabalho de me dizer que Indocuche é menos exótico…

O «p» de «abrupto»

Embrulha


      Já tem quase 15 dias, mas não quero deixar de falar na lição de Rui Tavares. «Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do “p” pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o “p” em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita» («Uma boa decisão», Rui Tavares, Público, 14.5.2008, p. 47).

Neologismo: «botnet»

Muito bem

O bom senso vai imperando e a boa prática estende-se: os jornais já vão explicando os termos técnicos, estrangeirismos habitualmente, que usam: «A estes problemas juntam-se seis milhões de computadores infectados por botnets (códigos que permitem controlar os computadores, que são utilizados por redes criminosas para reenviar mensagens não solicitadas e cometer fraudes electrónicas), disse ainda [o director da Agência Europeia de Redes e Sistemas de Informação, Andrea Pirotti]» («UE teme terrorismo electrónico», Global, 28.5.2008, p. 3).

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