Grafia dos nomes próprios

Ver em cada caso

Ao meu texto de ontem sobre o uso da barra deixou um leitor — Franco e Silva, que não conheço de mais lado nenhum que não dos comentários pertinentes e informados ao meu blogue e a outros — um comentário que interessa trazer para aqui. Escreve este leitor: «Se me é permitida a achega na correcção do texto transcrito, deveríamos ter MADAIL e não *“Madaíl”, não é verdade?» O texto é o que está mais abaixo, da autoria de João Villalobos: «[…] prometi ao Virgil Mihaiu do ICR grafar-lhe o nome como deve ser desta vez e troquei conversas com o casal de bloggers Eduardo Pitta/Jorge Neves, o Miguel Real, a Isabel Goulão, o Nuno Miguel Guedes, o Jorge Silva, os “nossos” Luís Naves e Fernando Madaíl, o Fernando Pinto do Amaral, o Fernando Sobral, eu sei lá.»
Seria preciso perguntar à pessoa visada, jornalista do Diário de Notícias, e, em todos os casos, a cada pessoa que tem esse apelido, porque a norma (Base L do Acordo Ortográfico de 1945) em vigor refere: «Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume, adopte na assinatura do seu nome.» Costume ou registo legal, na verdade. É o que me leva a grafar sempre o meu primeiro nome sem acento agudo: «Helder».
Não ignoro, naturalmente, que o apelido «Madail» ganhou grande visibilidade — e daí todas as elucubrações à volta dele — graças a Gilberto Madail, que ora se vê grafado com acento ora sem acento. Se alguma coisa me choca, é esta hesitação, nada mais. Para mim, a regra de que as palavras agudas terminadas em l não são graficamente acentuadas aplica-se somente aos nomes comuns. E será escusado lembrarem-me os nomes «Abigail», «Vermoil» e outros. Tão escusado, na verdade, como esgrimirem o argumento de que «Madail» está assim registado no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado. Em suma, a forma como cada um escreve o seu nome faz fé. Nisto, não estou com Cesare Pavese, que escreveu: Pensa mal, non ti sbaglierai. Se houver dúvidas ponderosas e em casos oficiais, peça-se ao visado prova do facto. Quanto ao resto, ocupemo-nos dos verdadeiros erros no uso da língua portuguesa, que não são poucos.

Erros e gralhas

Muito bem

Recentemente, o Público emendou uma simples e mísera aspa a mais. Para mim, e para qualquer leitor, suponho, foi um acontecimento memorável. Hoje, prosseguindo na mesma senda, vem corrigir a falta de propriedade no uso de um vocábulo. «Na notícia “Punição verbal para dois jornalistas do Expresso que puseram on-line falsa notícia sobre Pinto da Costa”, publicada na edição de sexta-feira (página 8), o título mais correcto seria “repreensão verbal” ou “admoestação” em vez da expressão “punição verbal”» («O Público errou», 29.4.2008, p. 42). De facto, apesar de o primeiro parágrafo da notícia em causa terminar com «concluiu-se com a decisão de admoestar verbalmente os dois jornalistas envolvidos no caso», a locução «punição verbal» não faz sentido, e o princípio de corrigir é bom. Se não revelasse, como suspeito, simples acatamento de um possível reparo dos envolvidos, revelava, pelo menos, respeito pelo leitor. E é isto que importa.

Uso da barra /


Verão/Inverno

      Ora aqui está um bom uso da barra. João Villalobos escreveu apenas «[…] prometi ao Virgil Mihaiu do ICR grafar-lhe o nome como deve ser desta vez e troquei conversas com o casal de bloggers Eduardo Pitta/Jorge Neves, o Miguel Real, a Isabel Goulão, o Nuno Miguel Guedes, o Jorge Silva, os “nossos” Luís Naves e Fernando Madaíl, o Fernando Pinto do Amaral, o Fernando Sobral, eu sei lá.» O paginador é que, ao ver que a barra coincidia com o fim da linha, a repetiu na linha seguinte — e muito bem. Hum… também poderia ter sido um revisor que, ao passar perto do posto de trabalho do colega paginador, indicou a forma correcta de o fazer. De resto, que mais se pode dizer da barra? Pois que em regra não há espaço nem antes nem depois dela e que para os íntimos tem nome estrangeiro: forward slash. Os Ingleses também a conhecem pelos nomes solidus, virgule e diagonal. Adaptando um texto de Jacci Howard Bear sobre o mesmo assunto, esquematizo de seguida os usos da barra em português, de resto quase inteiramente coincidentes com os da língua inglesa.

1. Como separador para datas: 29/04/2008; 2007/2008
2.
Como separador para citações de poesia: «Palavras que nos transportam/Aonde a noite é mais forte,/Ao silêncio dos amantes/Abraçados contra a morte.»
Note-se que, por vezes, nesta circunstância, algumas obras mostram um espaço depois, mas não antes, da barra, excepção que não contemplo no uso que faço da barra. O texto não deve ter mais de três ou quatro linhas de poesia.
3. Como substituto de uma palavra: 220 km/h (quilómetros por hora);
e/ou (e ou ou)
4. Como substituto de uma palavra (ou) para indicar escolha: Estudante/trabalhador; S/N; ele/ela
5. Informalmente como abreviatura: n/ (nossa); v/ (vossa); c/ (com); s/ (sem)
6. Como símbolo matemático, para separar o numerador do denominador e em fracções: ¼ (um quarto); 200/5 (200 a dividir por 5)
7. Nos endereços da Internet: http://letratura.blogspot.com.

Apelidos asiáticos

Sr. Lua


      Segundo a edição de hoje do Público («É Ban, senhor Ban, explica a ONU», D. F., 28.4.2008, p. 20), Vijay Nambiar, chefe de gabinete de Ban Ki-moon, anda «angustiado com todas as incertezas que ainda persistem sobre o nome do secretário-geral das Nações Unidas». Não é caso para menos. Depois de mais de um ano de mandato, «muitos líderes mundiais, alguns que conhecem bem o secretário-geral, ainda usam erradamente o nome próprio dele como se fosse o apelido, tratando-o por Sr. Ki-moon ou Sr. Moon». E esta é, escreve Vijay Nambiar, uma questão «algo delicada». De facto, quem é que, nesta altura, não sabe que na Coreia do Sul, Coreia do Norte, China e outros países da região o primeiro nome é o apelido? Pelos vistos, muita gente. «De maneira a garantir um melhor e mais rigoroso reconhecimento do nome do secretário-geral, sugiro que no futuro […] usem a expressão “secretário-geral BAN”». E mais: que os funcionários da ONU «ilustrem [aos interlocutores] que BAN se pronuncia Baahn». Ah, e mais uma coisinha: que passem também a escrever o apelido todo em letras maiúsculas. BAN. Bah!

Símbolos % e ºC, outra vez

Outrora


      Aí por volta do início da década de 1950, quem estudasse pelo Compêndio de Geografia, para o 2.º Ciclo dos Liceus, da autoria de Alves de Moura, Evaristo Vieira e Américo Palma (Livraria Didáctica, Lisboa, 6.ª ed., s/d), podia ler coisas como estas: «A humidade relativa é muito elevada (80 %) e quase constante durante o ano.» (p. 467) «Dos círculos menores há a considerar os paralelos, assim chamados por serem paralelos ao equador (Fig. 43). Os mais notáveis são os quatro seguintes: trópico de Câncer e trópico de Capricórnio, que distam do equador 23º 27’, para N e para S, respectivamente: círculo polar árctico e círculo polar antárctico, que distam dos respectivos pólos 23º 27’.» «Quando a temperatura desce além de , produz-se a solidificação do orvalho, cobrindo-se os corpos de uma camada branca de água solidificada a que se dá o nome de geada.» (p. 71). «No interior, o clima é frígido, e nas planícies do Sueste é temperado continental, com grandes amplitudes térmicas (–4º e +17º).» (p. 107).
      Meu caro Freire de Andrade: se tinha 14 anos em 1954, poderá ter estudado por este manual. Nesta altura, em que os livros eram impressos em tipografias — no caso deste manual, na Tipografia Silvas, no número 120 da Rua D. Pedro V, aqui em Lisboa —, as coisas não eram feitas por acaso, como agora mais frequentemente acontece. Era o tempo do chumbo, o dedo não escorregava no componedor, como agora escorrega nas teclas do computador.

Plágio

Nem os sermões escapam

Agora também os homiliastas saem prejudicados com a Internet: «Os 28.000 sacerdotes católicos que há na Polónia foram informados pela respectiva hierarquia de que poderão ser multados, se plagiarem os seus sermões a partir da Internet, podendo inclusive sujeitar-se a três anos de cadeia, noticiava ontem o jornal britânico The Guardian, numa correspondência de Berlim. A Igreja publicou um livro sobre como se devem escrever sermões, de modo a combater o hábito crescente de os padres se apropriarem das palavras alheias» («Quem plagiar sermões pode ir para a cadeia», Público, 27.4.2008, p. 21). O padre Wieslaw Przyczyna, co-autor da obra ŚCIĄGAĆ CZY NIE ŚCIĄGAĆ? (Plagiar ou não Plagiar), que tem 150 páginas e custa 29,90 zlotys, à volta de 9 euros, é especialista em sermões da Pontifícia Academia de Teologia de Cracóvia.

Léxico: «pickanini»

Pequenino

«A corrida prometia, com três excêntricas personagens. Os dois candidatos que dizem o que pensam sem papas na língua: Livingstone (uma vez chamou nazi a um jornalista judeu) e Johnson (usou um termo negativo, pickanini, para falar de africanos numa coluna de jornal). E ainda o liberal democrata Brian Paddick (o mais alto funcionário da polícia britânica a ter assumido a sua homossexualidade). Mas a campanha tornou-se num duelo entre Johnson e Livingstone» («Duelo de duas personalidades originais para a câmara de Londres», Maria João Guimarães, Público, 27.4.2008, p. 18). Aquele pickanini espicaça a curiosidade de qualquer pessoa. Não há praticamente nada sobre o vocábulo. Ainda assim, na Internet descobri isto: «Sabir actually survived until the nineteenth century and some of its words occur very regularly in almost all pidgins and creoles: sabi or savi ‘to know’ (from Spanish/Portuguese saber), pikin/pikinini/pickanini ‘small’/’child’ (from Portugueses pequenino), oporto ‘white man’ (from the Portuguese city of the same name), etc.» (Los estudios ingleses. Situación actual y perspectivas de futuro, «How and why do pidgin languages evolve?», Ana Fernández Guerra, Universidade de Valência, 1999, p. 122).

Actualização em 1.5.2008

«Johnson tem passado o tempo a defender-se de um comentário que escreveu sobre uma visita do então primeiro-ministro Tony Blair a África na Spectator (a revista conservadora que editou de 1999 a 2005), criticando-o por fugir de Londres para ser saudado pelos pickaninnies, um termo pejorativo. “Picaninny é um termo fora de moda para descrever uma criança negra e sim, usei-o, e é ofensivo, mas já pedi desculpa várias vezes”, disse num debate televisivo, adiantando à laia de desculpa que o usou num “contexto satírico”» («O conservador colorido acusado de fazer pouca campanha para evitar gaffes», Maria João Guimarães, Público, 1.5.2008, p. 17).

Numerais


Manda a tradição



      No programa Sociedade das Nações de ontem, na Sic Notícias, Nuno Rogeiro, a propósito de um disco, falou nas Cantigas de Santa Maria, uma colecção, uma compilação de 419 cantigas, escritas em galego-português, dedicadas à Virgem, da autoria de Afonso X. E este numeral leu-o Nuno Rogeiro como cardinal: Afonso Dez. Ora, a verdade é que na designação de papas, soberanos, séculos e partes de uma obra se usam os ordinais até décimo quando o substantivo antecede o numeral. Logo, deveria ter dito Afonso Décimo. Se há alguma coisa facultativa é o uso dos cardinais quando o número é superior a dez, isso sim. É para prevenir estas confusões e trapalhadas que algumas revistas e jornais brasileiros usam, nestas circunstâncias, algarismos arábicos, como podem ver na imagem acima: João Paulo 2.º e Bento 16. Muito inventivos e práticos, os Brasileiros. Cada vez gosto mais deles. E é um amor recíproco, sei-o, porque 50 % dos meus leitores são brasileiros.


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