Dar ou fazer erros

Erro seu

Desta vez, caro A. M. L., discordamos: «fazemos» ou «damos» erros. Cometer, só pecados. Quando contactei de perto com a comunidade goense em Lisboa, reparei, com agrado, que todos, mais ou menos instruídos, diziam «fazer um erro». Vasco Botelho de Amaral também escreveu sobre este erro, mas não tenho à mão a obra. Valha outro Vasco: «O dr. Vasco Graça Moura e outras pessoas sensatas fizeram o erro de atacar o acordo ortográfico luso-brasileiro em pormenor. A essência dessa monstruosidade acabou por se perder numa discussão técnica por que ninguém se interessa e que ninguém consegue seguir» («Muito barulho para nada», Vasco Pulido Valente, Público, 21.3.2008, p. 52).

Revisão

Pior que gralhas

Dois aspectos a reter na recensão que Pedro Aires Oliveira faz, na Ípsilon (4.4.2008), da obra Massacres em África, da jornalista Felícia Cabrita (edição de A Esfera dos Livros): «O estilo adjectivado que a autora cultiva está nos antípodas do registo sóbrio e rigoroso que associamos ao “reporting” anglo-saxónico. […] Finalmente, um trabalho de revisão mais atento poderia ter corrigido algumas inconsistências, como o facto de num capítulo o assalto às cadeias de Luanda em Fevereiro de 1961 ser atribuído a simpatizantes da UPA, e noutros a mesma acção ser imputada ao MPLA» (pp. 52-53). A cada um o seu: o estilo fica para a autora, mas as incongruências devem ser assinaladas pelo revisor.

Léxico: «junket»

Promotores de jogo

«À margem da conferência de imprensa, o vice-presidente executivo do City of Dreams, Simon Dewhurst, salientou que a empresa tem vindo a conquistar uma maior quota de mercado no sector do jogo porque “os junkets (angariadores de grandes jogadores) fixam-se no local onde têm acesso a liquidez para conceder crédito”» («Novo grande empreendimento cria mais um casino em Macau», Global, 2.4.2008, p. 15).

Acordo Ortográfico

É bom lembrar

«O escritor Vasco Graça Moura disse ontem [na Livraria Byblos em Lisboa a convite da Associação Portuguesa de Editores (APEL) e Livreiros e da União de Editores Portugueses (UEP)] que “é um acto cívico batermo-nos contra o Acordo Ortográfico”, que qualificou de “inconstitucional”. Segundo o escritor e eurodeputado, “o acordo não leva a unidade nenhuma” e antes de qualquer ratificação havia que chegar a um vocabulário técnico-científico comum» («Vasco Graça Moura diz que Acordo é “inconstitucional”», Meia Hora, 4.4.2008, p. 6).
Concordo: antes da ratificação, tínhamos de ter um vocabulário técnico-científico comum. Aliás, nos próprios termos da lei que aprovou o texto do Acordo Ortográfico de 1990: «Os Estados signatários tomarão, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração, até 1 de Janeiro de 1993, de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas» (art. 2.º).
Ainda segundo o mesmo jornal, «a Assembleia da República vai promover segunda-feira uma conferência internacional e uma audição parlamentar para “dinamizar” o debate sobre o acordo ortográfico, com a presença de académicos, professores, escritores e outros intelectuais».

«Rails»?

Barra de protecção na ladeira do Trainel * © http://www.padrejulio.net/

Barras de protecção


«Três trabalhadores morreram e um ficou ligeiramente ferido, ontem de manhã, após terem sido colhidos por um automóvel, quando procediam à instalação de rails de protecção na A41, junto ao nó de Alfena» («Três trabalhadores mortos num acidente em nó da A41», Global/Jornal de Notícias, 2.4.2008, p. 11). E porque não «barras de protecção»? Só tem mais uma letra e é português.


* Trainel é o termo técnico para troço de estrada com inclinação longitudinal constante. De regionalismo beirão, o termo passou a ser usado de forma mais alargada. Assim, o Diário da República, a propósito das características técnicas das estradas regionais principais e das estradas regionais complementares, regista: «a) Em perfil longitudinal, as inclinações dos trainéis não deverão exceder, em regra, 9%» (art. 12.º do Decreto Legislativo Regional n.º 15/2005/M, Classificação das estradas da rede viária regional).

De novo o hífen nas águias

Escolham o melhor

Lembra-se da questão do uso do hífen nas palavras compostas, aqui recentemente tratado? Leiam esta notícia em dois jornais diferentes:

«O risco de extinção da águia-imperial levou a organização internacional de conservação da Natureza World Wide Fund for Nature (WWF) e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no próximo jogo entre Benfica e Académica, a 11 de Abril. Segundo a WWF esta é uma “acção de alerta” para o perigo de extinção da águia-imperial em Portugal» («Dia da Águia contra a extinção», Metro, 3.4.2008, p. 4).

«O risco de extinção da Águia Imperial levou a organização internacional de conservação da natureza WWF e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no Benfica-Académica. A WWF diz tratar-se de “acção de alerta” para o perigo de extinção da Águia Imperial em Portugal» («Perigo de extinção mobiliza ‘Águias’», Global, 3.4.2008, p. 6).

E então? O leitor apressado ficar-se-ia pelo óbvio e anunciado pelos outros: que o Global afirma que é «o diário de maior tiragem em Portugal», enquanto o Metro reclama ser «líder absoluto com 774 mil leitores diários». Isso não interessa para aqui.
Muito havia a dizer. Desde logo, que perigo e risco, apesar de serem conceitos estreitamente relacionados, têm significados diferentes. Perigo é uma situação que ameaça a existência de uma pessoa ou coisa, ao passo que o risco é a possibilidade realização de um perigo.
Para estar perfeito, ao texto do Metro só faltava uma vírgula. A opção pelo hífen parece-me, pese embora aquilo que afirmei no texto para que remeti mais acima, acertada. Aliás, em termos jornalísticos, é muito mais correcta do que a do outro jornal. Quanto ao texto do Global, grafar «Águia Imperial» é imperdoável.

Ortografia: «anafiláctico»

Choque, disse ele

O Depuralina chegou também ao Assim Mesmo. «Em declarações ao DN, Francisco George explicou que se registaram dois casos de choque anafilático (reacção alérgica grave) e um de hepatoxicidade, que pode levar a que o fígado deixe de funcionar» («Distribuidor de dietético ameaça com processo», Carla Aguiar, Global/Diário de Notícias, 2.4.2008, p. 6). Analogia, é o que faz falta: de anafilaxia só podia derivar anafiláctico, à semelhança — porque foram forjadas a partir destas — de profilaxia e profiláctico. Como paralaxe e paraláctico. Perceberam agora?

Léxico: «downshifter»

As nossas revistas

Ainda não me tinha dado bem conta da sua existência. Mas eis que chega ao número 26 e me chega às mãos. Para um revisor, lê-la pode ser fatal. Mas como não tem revisor residente — e nisto não difere de jornais de «referência» —, só um descuidado ou suicida o fará. Com pinças e sem corrigir o que precisava de o ser, extraio o seguinte, que pode interessar. «É deste desconforto que surge uma nova tribo urbana: os downshifters. Quem são eles? Mulheres e homens entre os 30 e os 50 anos, para quem o tempo é muito mais importante do que o dinheiro. Trabalhar menos para ganhar menos e viver melhor é o princípio desta corrente que se apodera de milhões de pessoas nos EUA, norte da Europa e Austrália» («Downshifters, uma nova forma de vida», Ana Catarina Pereira, Happy Woman, Abril de 2008, p. 86).

Actualização em 16.4.2008


«Chamam-se “downshifters” e estão a crescer um pouco por todo o mundo. O termo foi apropriado da palavra “downshift”, que significa passar para uma mudança abaixo no carro ou na mota, ou seja, abrandar, desacelerar» («Abrandar o ritmo», Patrícia Lamúrias, Metro, 15.4.2008, p. 9)

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