Léxico contrastivo: «propinoduto»

Mãos untadas

«Uma quadrilha de empresários, contadores e fiscais de renda foi presa ontem na Operação Propina S. A., desencadeada pelo governo estadual e pelo Ministério Público (MP) do Estado. Estima-se que a lavagem de dinheiro patrocinada pelo grupo tenha provocado um rombo de R$ 1 bilhão na arrecadação tributária. A verba é três vezes maior do que a movimentada até 2003 pelo fiscal Rodrigo Silveirinha no escândalo do propinoduto. Os investigadores, que ainda ignoram quando o novo bando começou a atuar, suspeitam da ligação entre os dois episódios» («De Rodrigo Silveirinha ao Propinoduto II», Renato Grandelle, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A8). Na definição do dicionário Aulete Digital, é termo jocoso que se refere a um «possível canal de transferência de propinas de fontes corruptoras para destinatários, geralmente políticos. [Termo criado no decorrer de um escândalo político-administrativo surgido no Brasil no final de 2005, quando foi revelada a suposta compra dos votos de alguns deputados por meio de propinas oriundas de fontes não identificadas, como, p. ex., contas bancárias de certas empresas].» No contexto, «propina» designa, como está bem de ver, as nossas «luvas», «suborno».

Léxico contrastivo: «decolar»

Cola da gravidade

«Um avião bimotor com quatro pessoas a bordo caiu ontem, cinco minutos depois de decolar, sobre uma área residencial de Manaus, destruindo seis casas» («Bimotor cai sobre seis casas depois de decolar», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6). Do francês décoller*. Os nossos aviões descolam.

* Língua em que se registou pela primeira vez em 1931, na obra Vol de nuit, de Saint-Exupéry: «Les secrétaires, convoqués pour une heure du matin, avaient regagné leurs bureaux. Ils apprenaient là, mystérieusement, que, peut-être, on suspendrait les vols de nuit, et que le courrier d’Europe lui-même ne décollerait plus qu’au jour.»

Pronome porque


Aleluia!

Conheço relativamente bem as gramáticas escolares dos últimos dez anos, o que me permite afirmar que, no que toca às formas do pronome interrogativo, a maioria destas obras prefere, prudentemente, omitir o «porque», prestando assim um mau serviço à língua e ao ensino. Agora, a Gramática da Língua Portuguesa, da autoria de Clara Amorim e Catarina Sousa, publicada pela Areal Editores, na página 190, regista na secção relativa aos pronomes interrogativos: «Porque não tiraste a fotografia?» Algo pode estar a mudar.

Léxico contrastivo: «surtar»

Surtos

«Começou ontem o julgamento de Juarez José de Souza, acusado de matar e esquartejar, em agosto do ano passado, a empresária Edna Tosta Gadelha, 52, em uma clínica veterinária em Botafogo. Se condenado pelo homicídio triplamente qualificado com ocultação de cadáver, ele pode pegar até 33 anos de prisão. […] Alegou ter “surtado” na hora do assassinato e disse ter dividido o corpo de Edna em apenas dois sacos, e não em seis como constava na denúncia do Ministério Público» («Ao júri, esquartejador de Botafogo diz que “surtou”», Jornal do Brasil, 28.11.2007, p. A12). Surtar é termo familiar recente (foi registado na língua já na década de 1990) e significa entrar em surto psicótico ou em crise psicológica. Tem como étimo o substantivo «surto», na acepção médica de «crise psicótica caracterizada por maior ou menor grau de desintegração da personalidade e incapacidade de avaliar a realidade externa», na definição do Dicionário Houaiss.

O moral e a moral

Outra triste vez


      Estive tentado a não referir este erro, tanto mais que já falei dele aqui. Contudo, o facto de ter sido, mais uma vez, uma jornalista a dá-lo e ser, vendo bem, imperdoável persuadiram-me do contrário. A cobrir o jogo Boavista-V. Guimarães, na segunda, dia 26, a jornalista da Antena 1 Cláudia Martins, no noticiário, às 20.12, disse que uma das equipas estava a «levantar a moral». Na acepção de «estado de espírito, ânimo», deviam sabê-lo, este substantivo é do género masculino: o moral.

Responsabilidade social

Aprender a dizer não

Depois de ter encontrado o jogo Aprender a Lêr, nova incursão a um hipermercado Feira Nova revelou mais jogos com erros da mesma empresa. Desta vez, o jogo — todos, num excesso imaginativo, são da marca «Toi» — chama-se Apanha Côcos. Dois erros: não apenas o vocábulo «coco» não tem acento circunflexo, como faz falta um hífen a ligar as duas palavras: apanha-cocos. Agora, a reclamação deve seguir não somente para a provedora do hipermercado Feira Nova, mas também para a própria empresa, a Pinto Guimarães & Barros, Lda.: jogostoipintogb@mail.telepac.pt. Queremos dar aos nossos filhos jogos, vendidos como didácticos, com erros?

Responsabilidade social

Aprender a denunciar

Na secção de brinquedos de um hipermercado, e concretamente nas prateleiras dos jogos didácticos, encontrei, oh horror!, um jogo com o nome, escrito em várias partes da caixa, Aprender a Lêr. A empresa fabricante do jogo é a Pinto Guimarães & Barros, Lda., que não se envergonha de comercializar um produto com tão grave defeito. Como também não se envergonha o hipermercado, o Feira Nova. Ainda têm a pretensão de nos ensinarem a ler. É, não tenho dúvidas em dizê-lo, um caso de grave irresponsabilidade social. É pena que entre as atribuições da ASAE não esteja a fiscalização destes casos. Denunciemo-lo, ao menos, à provedora deste hipermercado, pedindo que mande retirar das prateleiras aquele produto.

Léxico contrastivo: «malsucedido»

Tristes sucessos

Cá, temos muito receio de escrever «bem-sucedido», sentindo-nos, e com razão, à deriva, pois os dicionários ou são omissos em relação a este termo ou indiciam ter adoptado critérios crípticos. Já no Brasil, escrever «bem-sucedido» e «malsucedido» é corrente, já que ambos os adjectivos estão sancionados pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. «Um criminoso tentou roubar um carro onde estava uma família, obrigou o pai a sair do veículo, tentou fugir, perdeu o controle, capotou e caiu em um canal no Recife. O ladrão acabou sendo preso em flagrante após a fuga malsucedida» («Roubou carro e capotou», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6).

Arquivo do blogue