Nomes de plantas

Na serra de Sintra, com o dicionário

Apesar de termos várias serras em Portugal, sempre achei espantoso, m’espanto às vezes, como os dicionários — não, certamente, o Dicionário da Academia, m’avergonho — registam o nome de espécies vegetais que são exclusivas da serra de Sintra. Abro o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, e é ver: arre-dom-macho, bom-pastor, casceta, laboreira, marcavala, morcos-diabo, nuticana, ourovale, opática, opitimo, roça-marinha, sataria, tauncho, turvi, zenepro…

Léxico: vestição religiosa

Olhai também, Senhor...

Um leitor pergunta-me o que significa o vocábulo «vestição» no âmbito da religião, pois não o encontra em nenhum dicionário. De facto, não está em qualquer dicionário, e naqueles em que está registado não é aparece referido à religião, como sucede com o Dicionário Houaiss. A vestição religiosa é uma cerimónia, também designada vestidura e tomada de hábito, em que o postulante (ou seja, aquele que deseja entrar em determinada ordem) veste o hábito que usará durante o seu noviciado, que é o período probatório antes de pronunciar os votos, simples ou solenes, religiosos. Aproveito para informar os meus leitores de que publicarei brevemente um glossário de termos relacionados com a religião com cerca de 500 entradas.

Etimologia: Benfica e malária

Anófeles fora de Benfica

Moro em Benfica, isso já toda a gente sabe. O que muitos desconhecerão é a etimologia deste topónimo. Ao que parece, vem de bem + fica, pois o território era antigamente um vale fértil atravessado por um curso de água. Era, pois, um local aprazível, onde se ficava bem. Os ares eram bons. Exactamente o contrário da malária. Até ao final do século XIX, acreditava-se que a malária era transmitida pelo ar, daí a designação, que provém do italiano mal aria, «mau ar». Aliás, outro nome da doença, paludismo, também dava a entender tratar-se de algo relacionado com o ar: palus significa, em latim, lagoa, pântano, e o termo referia-se ao ar miasmático que neles se respirava. Uma terceira designação, sezão, não está muito longe destas crenças: provém do vocábulo latino accessione, «acesso de febre intermitente», cruzado com sazão (satione-), «estação do ano».

As palavras e a lei

Isto e aquilo

Não é raro falar-se nas faculdades de Direito da deficiente técnica legislativa, censurando-se muitas vezes que a redacção das leis seja entregue a pessoas formadas, se formadas são, noutras áreas do saber. De facto, pôr engenheiros a fazer leis é tão mau e perigoso como pôr advogados a construir pontes. Infelizmente, esta comparação somente servirá de lição quando virmos pontes concebidas por advogados, o que até hoje ainda não aconteceu. A propósito de técnicas legislativas, trago hoje um exemplo de falta de clareza do texto da lei, mas aqui intencional, atribuível à pudicícia carminada dos tempos. Trata-se da Portaria n.º 69 035, datada de 1953, da Câmara Municipal de Lisboa, a propósito dos bons costumes em locais públicos. Eis o texto:
«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura n.º 69035, estabelece-se e determina-se que o art.º 48.º tenha o cumprimento seguinte:

1.º Mão na mão...............................2$50
2.º Mão naquilo..............................15$00
3.º Aquilo na mão...........................30$00
4.º Aquilo naquilo...........................50$00
5.º Aquilo atrás daquilo...................100$00

Parágrafo único
Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.»

Topónimo: Goreia

A ilha dos escravos

      Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever «Gorée», a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. De então para cá, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.

Pele e casca

Cascas de alhos

Há muito anos, vi o cozinheiro basco Karlos Arguiñano, o mais criativo que alguma vez conheci, explicar a diferença entre pele e casca nos alimentos. Uma amêndoa, por exemplo, tem casca; o pêssego, pele. Porquê? Bem, explicava ele, «casca»* tem origem onomatopaica: se faz cás, cás, o alimento tem casca e não pele. Na verdade, a casca da banana, por exemplo, não é suficientemente dura para produzir esse som. Nem a casca da laranja. Nem a da batata (aliás, as batatas também se depelam). Mas o ovo tem, em conformidade com a teoria e na prática, casca, como a têm os amendoins, o caju, as nozes, os pistácios… Os alhos e as cebolas também têm casca. Às línguas, é um facto consabido, falta lógica.


* Alguns dicionários indicam como presumível étimo o latino *quassicāre, de quassāre, golpear.

Léxico: engrotar

Imagem: http://static.flickr.com/

O nome e a coisa

Claro que não há uma correspondência perfeita entre coisa e nome, além de que existe uma interferência negativa que é a polissemia. Contudo, numa língua rica, a aproximação é maior. Pensemos numa ampulheta ou relógio de areia. Quando o monge Luitprand, seu suposto inventor, a concebeu no século VIII, decerto que não pensou — não era essa a sua preocupação — como designar o acto de o orifício de passagem da ampulheta se obstruir. A língua portuguesa, porém, regista esse vocábulo: engrotar. A ampulheta engrotou. Na realidade, nem sempre nas ampulhetas se usou areia, tendo-se recorrido a outros materiais como pó de mármore, cascas de ovo moídas, etc., o que a tornava mais susceptível de se obstruir.

Léxico: terródromo

Pistas

Não fora a acção da benemérita ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), que conhecemos sobretudo das fiscalizações espectaculares em que atemoriza ciganos e chineses, e muitos de nós não saberiam que existe a palavra «terródromo». Um terródromo é uma pista de terra. Esta em concreto, a fiscalizada pela ASAE, situa-se no concelho de Arraiolos e tem 13 quilómetros de extensão.

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