Léxico: «cabanil»

Basta!

«Bem-aventurados os pobres de léxico, porque deles é o reino da glória!»
Carlos Fradique Mendes

      Repare, caro L. T., que o vocábulo «grade» é polissémico. Grades há muitas: de cerveja ou de fruta; tabique ou vedação; palratório em conventos ou prisões; caixilho de quadro, porta ou janela; esqueleto de armação de certos móveis; molde para fabricar telha ou tijolo; reservatório de ração em cavalariça; máquina agrícola; armação de bastidores, etc. À armação protectora em volta de alguma planta, para que o gado, pessoas ou veículos a não danifiquem dá-se o nome de cabanil. Não devemos passar a vida a invejar, genuflectos e servis, o vastíssimo léxico do inglês e, ao mesmo tempo, desconhecermos e desprezarmos a riqueza do nosso. Se queremos que as coisas mudem, contribuamos activamente para isso, com estudo ponderado e muita leitura.


Colocação do pronome átono

Isto me parece

      O leitor J (e não seria melhor «J.»?) pede a minha opinião acerca da colocação do pronome átono na seguinte frase: «Ficou sentado, para que ela não fosse levantar-se.» Se se tratasse de um infinitivo solto, como defende a Nova Gramática do Português Contemporâneo, mesmo quando modificado por negação, como é o caso, seria lícita a próclise e a ênclise, «embora haja acentuada tendência para esta última colocação pronominal» (p. 312 da 3.ª edição, 1986). Tratando-se de uma locução verbal, a mesma gramática defende a ênclise ao infinitivo e ao gerúndio, e a próclise ao verbo auxiliar «quando ocorrem as condições exigidas para a anteposição do pronome a um só verbo» (p. 315). Ora, no caso, estas condições não impõem taxativamente a anteposição do pronome, pelo que é indiferente usar a próclise ou a ênclise. Assim, podemos escrever: «Ficou sentado, para que ela não se fosse levantar»; «Ficou sentado, para que ela se não fosse levantar»; «Ficou sentado, para que ela não fosse levantar-se».


Tradução: «gutter»

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Para quem é…

      É muito estranho ver confundir o inconfundível, mas há tradutores que chegam lá: «Ed notices the odd wooden gutters that jut way out from the house and pour into the yard.» O nosso tradutor achou que seria algo como: «Ed repara nas estranhas sarjetas de madeira que se projectam da casa e escoam para o pátio.» Como é que uma sarjeta se projectaria de uma casa? Sim, a água de um algeroz, de uma caleira ou de uma goteira («gutter: etymology: Middle English goter, from Anglo-French gutere, goter, from gute drop, from Latin gutta», in Merriam-Webster) irá, possível mas não necessariamente, desaguar numa sarjeta, mas não o contrário. É preciso algum discernimento. Exemplos comezinhos, sim, mas que farão um leitor mais exigente desprezar o livro que adquiriu — ou não o comprar se calhou ver o dislate na livraria onde o folheou.

Léxico: «topiaria»

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Eis que surge

      Confesso: andava há muito tempo a pensar no facto de certas palavras nunca as usarmos nem as vermos usadas em toda a nossa vida. Uma destas era a palavra «topiaria», que sempre me ocorria de cada vez que passava por determinado jardim numa vila alentejana, mas que nunca se proporcionou o ensejo de a transmitir a outra pessoa. Eis que surge numa tradução. «A stone walk lined with rose topiaries leads to the door, as it does in thousands of gardens where no Jane [refere-se a Jane Burden, mulher de William Morris. O outro ludibriado era Dante Gabriel Rossetti] ever juggled two men.» Ainda assim, o tradutor errou no acento: «Um passeio de pedra com uma fila de topiárias de roseiras conduz à porta, como em milhares de jardins onde nenhuma Jane intrujou dois homens.» Na verdade, topiaria: arte de arranjar os jardins, dando a grupos de plantas configurações diversas, especialmente em arbustos como o buxo, por exemplo. E, é claro, o topiário é o jardineiro que pratica a topiaria, a quintessência da natureza domesticada pelo Homem.

Léxico: pangau

Continua, que vais bem

      É dos filmes: um nababo está repoltreado entre coxins e ricos adornos e um escravo puxa uma corda presa a um abano rectangular de tecido dependurado do tecto, para que o vaivém refresque o seu senhor. A leques com estas características dá-se o nome de pangau.

Conjugação perifrástica

Pode repetir?

      «We’re supposed to be afraid?», perguntava-se candidamente no original. O tradutor percebeu como todos nós percebemos, mas a gramática claudicou. Escreveu, pois, o tradutor: «Deveremos termos medo?» Como estamos perante uma construção perifrástica, o verbo modal dever (os verbos auxiliares mais frequentes da conjugação perifrástica são ir, vir, andar, dever, deixar, ter, estar, haver, começar ou continuar) funciona como auxiliar (para alguns, semiauxiliar) e, por isso, é o verbo flexionável, isto é, é o verbo que indicará a pessoa, o tempo e o modo. O verbo ter, principal ou regente, ficará no infinitivo impessoal, visto que a marca da pessoa já foi referida no verbo auxiliar.

Letra e grafia

Ai sim? Então…

      F. V. P. da Fonseca tem razão: é um contra-senso dizer-se ou escrever-se que alguém tem «péssima caligrafia». Como também não faz sentido dizer-se «ortografia correcta». Contudo, no texto de opinião «O ensino da gramática e a terminologia», publicado originalmente no jornal Público no dia 13 de Dezembro de 2006 e reproduzido no dia seguinte no Ciberdúvidas, a Prof.ª Maria Helena Mira Mateus escreveu: «Ora, se pensarmos na importância social e linguística que tem a ortografia, percebemos a utilidade de classificar uma palavra como “esdrúxula”, pois nesse caso o aluno sabe que ela se escreve com um acento gráfico indicativo do lugar da vogal tónica; igualmente, ao classificar certas palavras como “agudas” porque terminam numa vogal como a de café, o aluno sabe que a ortografia correcta deste tipo de palavras exige um acento gráfico indicativo da pronúncia da vogal final da palavra.» Grafia correcta ou ortografia oficial deveria ter sido escrito.


Semântica: «montepio»

Tontinas

      Agora que o Montepio Geral está a fazer uma grande campanha publicitária, na qual mostra em que difere de um banco tradicional, surge a oportunidade de analisar o vocábulo «montepio». Parece ser composto por aglutinação — será? Segundo consta, foi Francisco de Assis que, corria o ano de 1674, fundou a primeira casa que concedia empréstimos aos pobres com garantia de roupas, móveis e outros objectos de casa, que em italiano adquiriu o nome de monte di pietà — monte de piedade. Claro que este monte não é como o monte Santo, Monsanto, mas um monte de dinheiro, disponível para emprestar aos pobres. A ideia foi copiada em toda a Itália e até noutros países da Europa. Em França deu-se-lhe o nome de mont-de-piété; em Espanha, monte pío ou montepío; em Portugal, montepio. Há igualmente uma outra espécie de associação mútua com alguma semelhança (e que nos modernos dicionários constitui uma segunda acepção do vocábulo), que são as tontinas, concebidas pelo banqueiro napolitano Lorenzo de Tonti, nas quais cada sócio deposita certa quantia, para constituir uma renda vitalícia que, em data determinada, deverá ser repartida pelos sócios sobreviventes. A demonstrar que não é um conceito ultrapassado, vejo que no Decreto-Lei n.º 28/2000, de 28 de Dezembro, publicado no Diário da República de… São Tomé e Príncipe, foi regulamentada uma tabela de ramos de seguro em que figura o seguro de tontina.



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