Colocação do pronome

Fase pré-gramatical

      «In fact the argument was largely accepted by the major philosophers who succeded Anselm, so it counts as one of the most influential philosophical arguments in history.» «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que o sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.» Ora, vamos lá ver: o pronome pessoal «o» não é a forma pronominal do complemento directo? E neste caso o verbo «suceder» não pede complemento introduzido pela preposição «a» («Filósofos que sucederam a Anselmo»)? E este complemento não se substitui pronominalmente pelo pronome pessoal forma de complemento indirecto «lhe»? Ou é tudo intuitivo? Deveria ter sido escrito: «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que lhe sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.»

Filosofia da linguagem

Desconversas

      Munido da Teoria Inferencial das Implicaturas, de H. P. Grice, as conversas com os vizinhos são muito mais filosóficas. Um dos condóminos pergunta-me: «O que acha da nova administração cá do prédio?» Respondo: «Não está mal, para o início. Ouvi dizer que uma junta médica psiquiátrica reformou o administrador.» Com a minha resposta, um pouco como no exemplo clássico que ilustra a teoria, mostro ao meu interlocutor que estou indeciso sobre as qualidades do administrador e, sobretudo, sugiro ou insinuo que a administração poderá descambar até ao fim do mandato, pois o indivíduo sobre quem falamos é maluco. Mas esta última informação será o meu interlocutor a inferi-la das minhas palavras. É o método preferido dos políticos, para mais facilmente terem uma escapatória. Mais tarde, sempre poderão dizer: «Bem, eu não queria dizer isso que está a afirmar: estimo muito o meu adversário.»

Colocação do pronome

Pense bem

     Pois é, cara Luísa Pinto, mas escrever «Ao ler Chomsky de novo apercebi-me…» é diferente de «Ao ler Chomsky de novo me apercebi…», ou não percebeu? Com a primeira frase, quem escreve está a dizer que ao ler mais uma vez a obra de Chomsky se apercebeu de algo; com a segunda, pretende afirmar que ao ler a obra de Chomsky, pela primeira, pela segunda ou pela vigésima vez, se apercebeu novamente de algo. Logo, estão ambas correctíssimas, mas têm significados substancialmente diferentes.

A moral e o moral

Até os melhores

      Como é que tradutores de alto coturno (mesmo que estejam de chinelas) ainda confundem a moral com o moral? Não é de espantar que tenham uma licenciatura; espantoso é que tenham passado da 4.ª classe. «Morale was therefore low.» «A moral estava, pois, em baixo.» Claro, bem sei, este é daqueles erros comezinhos, mas veja-se como escorregam nele os mais sabedores. Já Rodrigo de Sá Nogueira se vira obrigado a distinguir: «Moral (a) Moral (o) — Este termo emprega-se nos dois géneros: no feminino e no masculino, com as seguintes diferenças: no feminino, diz-nos o Dic. Contemporâneo: “a parte da philosofia que trata dos costumes, deveres e modo de proceder dos homens para com os outros homens”; no masculino, diz-nos o mesmo Contemporâneo: “Tudo o que diz respeito à inteligência ou espírito por oposição ao que é material”. — Dizemos com propriedade em português: “F... tem uma moral detestável”, isto é, “um sentimento e um procedimento contrários aos bons costumes”; “F... está com um moral desgraçado”, isto é, “num estado de espírito de desalento, de derrotismo”» (Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 4.ª edição, 1995, p. 298).

Rodapé

Assédio a sério

      Uma leitora pede-me duas coisas: que explique quem (diacho?) foi Fr. António Taveira, que cito no rodapé do blogue, e que divulgue aqui o meu número de telemóvel.
      Claro que muito me separa de Camilo, e não são só as bexigas. Mas estou a ver que qualquer dia também me pedem uma colectânea de apotegmas, como Camilo temia que certo sujeito, «teimoso como um burro... literato, vá lá», ousasse fazer. Acedo. Frei António Taveira foi um frade dominicano que andou por Timor e arredores, por volta da segunda metade do século XVI, e por lá baptizou umas cinco mil almas. É obra. O meu número de telemóvel é o 966 _ _ _ 073. Agora veja lá o que faz com a informação...

Glossário: palavras timorenses

Palavras timorenses no português

Baiqueno m. Língua, falada principalmente na Província do Servião, a que os Holandeses chamaram timoreesch.
Batanda f. Dança de Timor.
Bataúda f. Batuque de Timor.
Calado m. Dialecto falado nas montanhas vizinhas de Díli, em Timor.
Carosol m. Arbusto amomáceo de Timor.
Cascado m. Em Timor, doença da pele, peculiar aos indígenas.
Champló m. Árvore de Timor.
Coilão m. Pântano, paul; ribeiro que não chega às praias, escoando-se nas areias ou formando pântanos.
Cole m. Em Timor, folha de palmeira, com que se fazem esteiras, cestos e sacos.
Crubula f. Certa árvore de Timor.
Dagadá m. Língua gentílica de Timor, falada nos reinos de Faturó e Sarau, na ex-parte portuguesa.
Dasserai m. Axorcas que os Timorenses trazem nos artelhos.
Dató m. Chefe de uma aldeia (suco) ou de uma reunião de aldeias em Timor, pertencente à primeira classe social, dita mesmo dos datós.
Firaco m. Homem rude, montanhês, indígena do Leste do território.
Gabuta f. Planta de Timor.
Gonilha m. pl. Tabuões de bambu justapostos, com buracos redondos, que se colocavam nas pernas dos encarcerados.
Hacpólique m. Nome que em Timor se dá à tanga usada pelos indígenas.
Haiçá m. Árvore de Timor.
Haissuaque m. Instrumento de madeira pontiagudo com que os Timorenses amanham e revolvem a terra, em vez de arado ou de enxada.
Idate m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lacalei m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lamaquito m. Tribo indígena de Timor.│Indivíduo desta nação.
Lamuca f. Em Timor, espécie de rola.
Lantém m. Tarimba, mesa, estante ou banco de bambu ou hastes da palapa (espécie de palmeira da região), em Timor.
Lepalepa f. Canoa de Timor, curta e larga.
Liurai m. Em Timor, título do rei ou do régulo.
Lorçá m. Hino guerreiro e patriótico, em Timor.
Lorico m. Espécie de periquito de Timor.
Mambai m. Idioma indígena de Timor.
Manatuto m. Língua de Timor, na
região do mesmo nome.
Nauete m. Dialecto indígena de Timor.
Naumique m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Pagar m. Em Timor, o m. q. casa.
Palapeira f. Bot. Árvore de Timor de cujas fibras as mulheres tecem panos.
Parão m. Arma usada pelos Timores, espécie de foice roçadoura, com a ponta levemente curva.
Parapa f. Bot. Certa árvore de Timor.
Pardau m. Em Timor, medida de comprimento, apenas empregada na medição dos chifres dos búfalos.
Posual m. Em Timor, lugar onde se guardam as coisas sagradas, louças, pedras, azagaias, amuletos, etc.
Salenda f. Espécie de xaile das mulheres malaias e usado igualmente pelos homens em Timor.
Suangue m. Nome que em Timor se dava ao feiticeiro.
Tabedaí m. Dança timorense.
Tais m. Pano de algodão com que os guerreiros de Timor cobrem o corpo, da cintura ao joelho.
Tamugões m. pl. Segunda classe de indígenas de Timor.
Tanleom m. Bot. Árvore de Timor, espécie de sândalo.
Tarão m. O m. q. anileira, em Timor.
Teto m. Uma das línguas faladas em Timor; o m. q. manatuto e tétum.
Tétum m. O m. q. teto.
Timungões ou tumungos m. pl. Classe dos chefes, espécie de baixa nobreza, de povoação em Timor.
Uiamá ou uimaa m. Língua de Timor-Leste falada nas áreas administrativas de Atsabe, Calicai, Laleia, Venilale e Vila Salazar (Baucau).
Valuiú f. Bot. Palmeira silvestre de Timor.


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