Regência nominal

Relações fortes     

      «Logo depois, a mulher do médico (Carla Chambel), provocadora, recria Ele e Ela de Madalena Iglésias, abrindo primeiras feridas numa noite que será cortada por um violento ataque inimigo, assassinatos acompanhados por obscuras frases tiradas da Bíblia (sem quaisquer relações aos “códigos” e “mistérios” que hoje inundam as livrarias, sublinhe-se), medos e outras revelações» («A morte saiu à rua», DN/6.ª, NG, 22.12.2006, p. 40).
      A regência nominal é a relação existente entre um nome e os termos regidos por esse nome. Neste campo, não há, propriamente, regras, mas sim usos consagrados. Quando pensamos no substantivo «relação», vêm-nos imediatamente à mente as preposições de (relação disto com aquilo) e entre (relação entre isto e aquilo). Logo, esperávamos ler algo como «sem quaisquer relações com os “códigos” e “mistérios” que hoje inundam as livrarias».

Numerais por extenso

É só ler

      «O dia para esta manifestação não foi escolhido ao acaso. 22 de Dezembro é a data do solstício de Inverno e, de acordo com os dois activistas, representa o “recomeço” no calendário Maia [sic]» («Orgasmo colectivo a favor da paz mundial», Tânia Caria, Diário de Notícias, 22.12.2006, p. 22). Erro da jornalista e dos revisores. Se tivessem lido, entre outros, Daniel Ricardo, já saberiam, se o simples senso comum não lhes dissesse, que «os numerais cardinais que iniciam ou fecham períodos ou citações entre aspas e antecedidas de dois pontos» (Ainda Bem Que Me Pergunta — Manual de Escrita Jornalística, Lisboa, Editorial Notícias, 2003, p. 214) se escrevem por extenso. Só me estou a lembrar de uma excepção: se se tratar da transcrição de um diário, os numerais não se deverão escrever por extenso. Neste caso, bastava reformular a frase: «O dia 22 de Dezembro é a data do solstício de Inverno e, de acordo com os dois activistas, representa o “recomeço” no calendário maia.» Ou, entre outras: «O solstício de Inverno ocorre a 22 de Dezembro e, de acordo com os dois activistas, a data representa o “recomeço” no calendário maia.» Não é difícil encontrar numa mesma edição o mesmo erro: «2006 foi ano de novo disco, Masquerade, as canções com a marca Legendary Tiger-Man acompanhadas por curtas-metragens, as histórias imaginadas por quem trabalhou de perto com Paulo Furtado» («Natal em 12 compassos», DN/6.ª, Tiago Pereira, 22.12.2006, p. 44).


Filme

20,13

      Fui à ante-estreia do filme 20,13, de Joaquim Leitão. Embora se passe num cenário de guerra, no Norte de Moçambique, na véspera de Natal de 1969, o cerne da história tem muito mais que ver com amor, ciúmes e conflitos de natureza humana. Os efeitos especiais estão muito bem conseguidos, semelhantes ao que de melhor vemos em filmes estrangeiros. Não me escapou, na ficha técnica, que se devem a um estrangeiro
      Cada espectador, suponho, estará preparado para dar atenção a diferentes pormenores. No meu caso, tocou-me especialmente a cena em que um soldado fica eufórico no momento de receber uma carta, isolando-se para a ler. Na verdade, vemo-lo pelos olhos do capelão e do alferes, o soldado não sabe ler, limita-se a olhar para a carta. (Segundo o censo de 1970, convém lembrar, 31% das mulheres portuguesas não sabiam ler nem escrever, e 19,7% dos homens eram analfabetos. Mesmo actualmente, temos quase um milhão de analfabetos!) É um retrato do Portugal dos anos 60 e da fungibilidade humana em períodos de guerra: todos servem e todos são dispensáveis, e o dever sobrepõe-se (mas o filme também mostra até que ponto os princípios podem permanecer intactos mesmo nestas circunstâncias) a tudo o mais.
      Curiosamente, é o conhecimento da Bíblia que ajuda a resolver os dois homicídios que ocorrem. O título, já todos sabem, refere-se ao Levítico, 20,13, um dos muitos passos bíblicos que condenam a homossexualidade, que diz: «Se um homem coabitar sexualmente com um varão, cometeram ambos um acto abominável; serão os dois punidos com a morte; o seu sangue cairá sobre eles» (Levítico, 20,13). Na versão da Vulgata: «Qui dormierit cum masculo coitu femineo, uterque operatus est nefas: morte moriantur: sit sanguis eorum super eos.» Na verdade, é referido outro versículo bíblico, Génesis, 19,24: «Então, o Senhor fez cair do céu, sobre Sodoma e Gomorra, uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo Senhor.» Na Vulgata: «Igitur Dominus pluit super Sodomam et Gomorrham sulphur et ignem a Domino de cælo.» Ambos os livros fazem parte do Pentateuco (em grego, «cinco rolos»), e a versão que usei foi a Bíblia dos Capuchinhos.
      Algumas palavras, na confusão do ataque ao aquartelamento, da fuzilaria e da morteirada, não se percebem — o que vem, ironicamente, reforçar a sensação de verosimilhança das cenas. Suponho que num contexto real semelhante também não perceberia tudo o que se dissesse. Pode ser que Joaquim Leitão me mande o guião, para colmatar esta falha.
     Em suma e numa palavra: recomendo.

Uso da vírgula

A escolinha da JSD

      Seja publicidade ou propaganda, estamos sempre a encontrar cartazes com erros de português. É ou não é triste que distribuam as tarefas pelas pessoas erradas? Só devia escrever, pelo menos para o público, quem sabe escrever. Os outros, a maioria, podiam limitar-se a colar os cartazes ou a fazer a cola de farinha.
     Os advérbios sim e não são seguidos de vírgula quando começam uma oração e se referem à oração anterior. Assim, deveriam ter escrito: «Geração recibo verde? Não, obrigado!»
      Chegará o autor da frase a ministro da Educação? Um dia talvez saibamos.

Itálico e verbo gostar

O Rei Sol

      Se percebo o que pode levar o Sol a grafar o nome das estações de televisão em itálico, já não entendo porque o faz com nomes de empresas, como se vê neste exemplo de uma crónica de Paulo Portas: «Durante anos, frequentei salas mais pequenas, incómodas e com ‘identidade’ alternativa. Havia um cinema que eu gostava muito mas feneceu: o Mundial» («18 amores no King», Sol/Tabu, 16.12.2006, p. 98). Suponho, a avaliar por outros exemplos de que já aqui falei, que é regra da «casa» e não de quem escreve, mas ao arrepio das normas ortotipográficas das editoras portuguesas de referência. O erro de regência do verbo gostar há-de ser de Paulo Portas.

Verbo cair e pisca-pisca

Os génios e os outros

      Atendendo ao impacto que tem no nosso quotidiano e à presença na paisagem urbana, excessiva, a meu ver, constituindo uma fonte de poluição, a publicidade deveria, no que se refere à língua portuguesa, ter um organismo regulador. Se vejo numa montra de uma loja de preços baixos cartazes com erros gramaticais, incomodo-me, mas não tanto, que a culpa também tem graus, como quando os anunciantes são grandes empresas e a publicidade de agências publicitárias. A ideia, que ainda persiste mesmo em pessoas cultas, de que os publicitários são sempre génios da língua é tão risível que nem me merece qualquer comentário.
      Apenas dois exemplos. A Opel tem agora uma campanha em que apresenta o novo Opel Zafira Active Select Edition. E como os vendedores sabem sempre o que nos convém, avisa: «Aproveite, oportunidades destas não caiem do céu todos os dias.» Felizmente não caiem, caem. A Red Bull também anda a fazer estragos na língua. Vejamos: «Desliga o pisca pisca dos teus olhos.» Claro que o Red Bull nos dá asas, mas é preciso ter os pés assentes na ortografia.

Verbos abundantes

Ter ou ser, eis a questão

      «MP pede 13 anos de prisão para suspeita de ter morto filho à fome» (Helena Silva, Jornal de Notícias, 1.12.2006, p. 12).
      Tem-se vindo a perder a noção de que as formas regulares dos particípios dos verbos abundantes (os que têm dois ou mais particípios) se usam, essencialmente por razões de eufonia, com os auxiliares ter e haver, ao passo que as formas irregulares se usam com os auxiliares ser e estar. O particípio regular é sempre o maior e terminado em -ado ou -ido, e o irregular, menor e de terminação variada. Há verbos, porém, que tendencialmente se têm vindo a usar apenas com os particípios irregulares, como é o caso dos verbos ganhar, gastar e pagar, pelo que se dirá: «eu tinha ganho», «eu tinha gasto», «eu tinha pago».
     Embora já aqui tenha deixado uma pequena lista, queria ampliá-la:

aceitar: aceitado/aceito;
acender: acendido/aceso;
afligir: afligido/aflito;
agradecer: agradecido/grato;
assentar: assentado/assente;
atender: atendido/atento;
benzer: benzido/bento;
cativar: cativado/cativo;
cegar: cegado/cego;
cobrir: cobrido/coberto;
completar: completado/completo;
concluir: concluído/concluso;
confundir: confundido/confuso;
convencer: convencido/convicto;
corromper: corrompido/corrupto;
defender: defendido/defeso;
descalçar: descalçado/descalço;
dispersar: dispersado/disperso;
dissolver: dissolvido/dissoluto;
eleger: elegido/eleito;
empregar: empregado/empregue;
encarregar: encarregado/encarregue;
entregar: entregado/entregue;
envolver: envolvido/envolto;
enxugar: enxugado/enxuto;
erigir: erigido/erecto;
expressar: expressado/expresso;
expulsar: expulsado/expulso;
extinguir: extinguido/extinto;
fartar: fartado/farto;
findar: findado/findo;
fixar: fixado/fixo;
frigir: frigido/frito;
ganhar: ganhado/ganho;
imergir: imergido/imerso;
imprimir: imprimido/impresso;
incluir: incluído/incluso;
inserir: inserido/inserto;
isentar: isentado/isento;
juntar: juntado/junto;
libertar: libertado/liberto;
limpar: limpado/limpo
matar: matado/morto;
morrer: morrido/morto;
omitir: omitido/omisso;
pagar: pagado/pago;
prender: prendido/preso;
repelir: repelido/repulso;
revolver: revolvido/revolto;
romper: rompido/roto;
salvar: salvado/salvo;
secar: secado/seco;
situar: situado/sito;
soltar: soltado/solto;
submergir: submergido/submerso;
sujeitar: sujeitado/sujeito;
surpreender: surpreendido/surpreso;
surgir: surgido/surto;
suspeitar: suspeitado/suspeito;
suspender: suspendido/suspenso;
tingir: tingido/tinto;
torcer: torcido/torto;
vagar: vagado/vago.


Léxico: «ornamentista»

Imagem: www.atl-turismolisboa.pt/
De pedra e cal

      O leitor Luís C. Martins pergunta-me que nome se dava ao operário que trabalhava somente em ornamentos arquitectónicos, como nos estaleiros das grandes igrejas. Era o ornatista ou ornamentista (este do francês ornementiste: «Artiste concevant une ornementation ou réalisant des ornements, notamment en architecture, sculpture, typographie.») A propósito, ao artista que trabalhava a pedra, não necessariamente com lavores ou para ornamento, dava-se o nome de lapicida, este directamente do latim. Como se sabe, algumas das peças arquitectónicas, como no Mosteiro da Batalha, por exemplo, exibem siglas de pedreiro ou siglária, alvo da curiosidade dos visitantes e de estudo de uma disciplina específica, a gliptografia. Entendidas durante séculos como sinais secretos, julga-se actualmente que são prosaicamente marcas para contabilizar o que fora feito por cada pedreiro.
[Ver também aqui.]

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