Plural de lugar-tenente

Realmente…

      «But I did not have a fearsome mace in my hands, and two of my lieutenants pinning Vassos to the wall.» Traduzir de forma incontroversa? Só para espanhol. «Pero yo no tenía una maza terrorífica en las manos ni a dos de mis lugartenientes incrustando a Vassos en la pared.» Para português: o tradutor A, munido do Dicionário da Academia, afiança que é: «Mas não tinha uma maça nas minhas mãos, nem dois dos meus lugar-tenentes a bloquear Vassos contra a parede.» O tradutor B, com o Dicionário Aurélio nas mãos, fá-lo aproximadamente da mesma forma, e sobretudo faz fé no plural do vocábulo «lugar-tenente» que vê registado neste dicionário: lugar-tenentes. A maioria dos dicionários e prontuários guarda um silêncio prudente (ou displicente) sobre a questão, pelo que do tradutor C ao tradutor X tudo é feito com muita fé nesse silêncio e alguma no revisor. Chega o tradutor Z, possuidor do Dicionário Houaiss, e escreve: «Mas não tinha uma clava nas minhas mãos nem dois dos meus lugares-tenentes a cravar Vassos contra a parede.» Quem tem razão? Atendendo à etimologia — locum tenens —, diria que é quem opta pelo plural «lugar-tenente». Todavia, face às regras, de resto também controversas, do plural dos nomes compostos, parece ser «lugares-tenentes», pois que estamos perante dois substantivos e claramente não se trata de uma excepção (como os casos em que a segunda palavra denota uma ideia de fim, função ou semelhança, de que já aqui falei), e aí temos o plural de lugar-comum: lugares-comuns. Em que é que estes lugares, de resto pouco amenos, diferem entre si? Por fim: na verdade, há uma forma incontroversa de traduzirmos lieutenants, que é locotenentes. Só com ela podemos enfrentar a simplicidade do espanhol.

Léxico: murco

Bons genes

      Os mancebos romanos que não queriam cumprir o serviço militar obrigatório — algo mais longo do que alguma vez foi em Portugal, mesmo em tempos da guerra colonial —, e não seriam poucos, decepavam o dedo polegar. Para estes mancebos, que não seriam, aposto, vistos com bons olhos pelos demais cidadãos nem considerados heróis, havia uma designação: murcos. Termo que, por extensão de sentido, passou a designar qualquer cobarde. Curiosamente, é a este comportamento que se deve também a origem do nosso termo poltrão (e do francês poltron, com o mesmo significado, tal como do italiano poltrone), hoje em dia pouco usado, que provém de pollice trunco (pólex truncado, ou, num português mais moderno, polegar truncado, cortado). Não é impossível que o nosso morcão tenha aqui o seu étimo, mas disso falarei noutro dia.

Ortografia: bel-prazer

Belo serviço…

      Esta noite sonhei que toda a gente sabia escrever correctamente a palavra «bel-prazer». Sonhos… A verdade é que, já acordado, me contentava se todos os tradutores a soubessem escrever. Modesto, nem me importo que eles não saibam que «bel» é a forma apocopada de «belo» — mas que ainda assim o escrevam e saibam que é uma palavra composta. Escreverem uma vida inteira «a seu belo prazer» não abona nada a favor da sua cultura. E assim, sem tir-te nem guar-te, o que era sonho poderá tornar-se realidade.

Género de sentinela


Alerta!

      Desta vez não se trata das legendas de qualquer filme, matéria inesgotável, mas tão-somente do título. Não tinha, quem o traduziu, pensar-se-ia, muito por onde errar. E, no entanto, errou. O vocábulo «sentinela» não é um nome comum de dois, como, por exemplo, artista (o artista/a artista; o jornalista/a jornalista; o jurista/a jurista; o turista/a turista…), mas sim sobrecomum, como a criança, o cônjuge, o indivíduo, a testemunha, etc. Logo, correctamente seria «A Sentinela», pois é do género feminino. Se, por algum preconceito inominável, o responsável pela tradução queria um sinónimo do género masculino, tinha esculca. É um erro muito comum, em especial nas traduções.
 

Tradução: «stepping-stone»

Imagem: http://www.amblesideprimary.com/

De um lado para o outro


      A leitora Isabel Martins pergunta-me como traduzir a palavra inglesa «stepping-stone» (A stone to raise the feet above the surface of water or mud in walking). Nada mais simples: alpondras. Ou pondras: pedras colocadas de margem a margem numa ribeira, riacho ou lameiro, para dar passagem a pé enxuto. As alpondras estão sempre num vau, isto é, num trecho pouco fundo da corrente. Camilo nas Novelas do Minho: «Ao repontar da manhã, atravessámos o Vizela por umas alpondras sobre as quais se encurvam hoje os arcos da Ponte Nova» («Gracejos que matam», prefácio e fixação de texto de J. Cândido Martins, Edições Caixotim, 1.ª ed., 2006, p. 51).

Actualização em 2.5.2010

      Por vezes, vê-se em traduções: «E embora no mundo da carne tivesse falhado, no mundo das mentes voei, talvez não como um pássaro voa, mas como um homem a avançar rapidamente por cima de uma infinidade de alpondras, cada nova pedra fornecendo uma plataforma da qual saltar para muitas outras» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 144).

Farmacopeia antiga

Rua Marechal Saldanha, 1, 1249-069 Lisboa

Na botica


      Ainda não tive oportunidade de visitar o Museu da Farmácia, o que é pena, pois sempre tive um grande fascínio por aqueles boiões de vidro coalhado (alguns da Real Fábrica de Coina, sei agora) e de porcelana branca e azul, almofarizes, etc. Tanto mais que lhe foi atribuído o prémio de Melhor Museu Português 1996\97\98 e Melhor Projecto Farmacêutico 99. Entretanto, aqui ficam alguns termos da farmacopeia antiga.

Diacímino m. Velha droga citada nas farmacopeias e cuja base eram os cominhos.
Diagrídio m. Nome que se dava à escamónea nas antigas farmacopeias.
Duela f. Peso antigo das farmácias, equivalente a um terço da onça.
Egozeron m. Farinha de alforvas, nos velhos livros de Farmácia.
Encardia f. Segundo as velhas farmacopeias, era determinada pedra em que se via uma figura de coração e que tinha aplicação terapêutica.
Forsina f. Designação dada na Farmácia antiga ao excremento das pombas.
Galen f. Na antiga Farmácia chamava-se assim à carne de raposa, seca.
Gali m. Farm. Ant. Antiga designação do anil.
Gecazum m. Nome dado nos velhos livros de terapêutica à rã.
Lirino adj. Ant. Dizia-se de certo unguento feito com folhas de lírio.
Orviatão m. Farm. Ant. Medicamento eficaz para todas as espécies de dores de barriga.
Petálio m. Na farmacopeia antiga, unguento de folhas de nardo.
Rasina f. Ant. Pez que se reduzia a pó e se empregava em Farmácia.

Constar

Não me consta

      A revista VIP decidiu auscultar «O último suspiro dos Beatles» (texto de José Carlos Cruz, VIP n.º 479, 20.09.2006). «O mais multifacetado músico [George Harrison] da banda (consta-se que tocava mais de 20 instrumentos) assinou apenas uma música neste álbum: Here Comes The Sun, composta num lindo dia de sol, como confessou o músico.» Há-de ser tudo verdade, mas o certo é que o verbo constar não é reflexivo, nem eu tenho a culpa disso. É em vão que consultamos a melhor obra no género — o Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes — em busca da forma reflexiva deste verbo. Há-de ser confusão.

Ratisbona

Coisa de brichotes

      Qual Regensburg, qual quê! Leia-se Vasco Graça Moura: «Quem se tenha dado ao trabalho de ler o texto da intervenção do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, sabe que as suas palavras, no tocante ao ponto que recentemente se tornou tão controverso, foram as seguintes: […]» («O terrorismo do alvoroço hipócrita», Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 8). Se há vocábulo correspondente em português, não temos de usar os topónimos na sua ortografia e pronúncia estrangeiras. No caso, «Ratisbona» vem do francês «Ratisbone», é bem verdade, mas está conforme com a nossa língua.

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