Uso do itálico

Ah, isso…

      Decerto que há aspectos bem mais graves nos jornais — a começar na pontuação, desleixada ou ignorante. Hoje, porém, quero abordar o uso do itálico. Os casos que apresento são diferentes: no primeiro, o jornalista (ou o revisor) poderia ter usado a palavra portuguesa, evitando assim o itálico. Embora seja uma forma de destaque, perturba a leitura. No segundo caso, o jornalista (ou o revisor) não deveriam usar o itálico.

O caso. «A colecção, que abrange brinquedos das mais variadas origens, materiais e temas da última metade do século XIX e do século XX, tem como ex-libris um triciclo em ferro, madeira e couro», «Museu de (a)brincar de Arronches candidato a prémio europeu», Hugo Teixeira, Diário de Notícias, 13.05.2006, p. 44.

A solução. ex-líbris s.m.2n. vinheta desenhada ou gravada que os bibliófilos colam ger. na contracapa de um livro, da qual consta o nome deles ou a sua divisa, e que serve para indicar a posse. (Dicionário Houaiss)

O caso. «Apesar de ter conseguido o tempo mais rápido nos treinos disputados ontem, o piloto da Ferrari foi considerado culpado por ter atrasado deliberadamente os adversários», «Schumacher é o último no Mónaco», 28.05.2006, p. 48.

A solução. De facto, Schumacher conduz um Ferrari, mas a equipa é a Ferrari, isto é, só as marcas é que são destacadas a itálico. É uma boa prática, mas não é seguida por todos os jornais.

Tradução de «polipasto»

Imagem: http://www.proyectosfindecarrera.com/
Desunião ibérica

      Não duvido, caro Luís Ramos, que tenha lido num dicionário que a tradução do espanhol «polipasto» é… «polipasto». Não apenas não conhecia a palavra como portuguesa como confirmei em todos os dicionários que tenho *. Pelo que posso ver no Diccionario de la Real Academia Española, «polipasto» ou «polispasto» provém do latim polyspaston, e este do grego πολúσπαστον. Pela definição — «aparejo de dos grupos de poleas uno fijo y otro móvil», o que corresponderá à imagem —, creio que se pode traduzir por guincho ou cadernal.

* No Brasil sim, usam a palavra, mas só a vejo na Internet. Em inglês, existe o vocábulo polyspaston, que provém do mesmo étimo: «Weight-lifting machine typically composed of a pair of pulley-blocks (one fixed, one mobile) housing sheaves, with a rope running in their grooves. The polyspaston performs the same function as the tackle, but the sheaves are arranged end-to-end in two parallel rows instead of rotating on a common axle as in a standard block.»

Expressão: «cutelo da mão»

Se não sabe, invente

      Recentemente, um consulente do Ciberdúvidas perguntava como se designa a parte carnuda da mão, acrescentando que em inglês é heel *, pelo que em português poderia ser «calcanhar da mão». Isto fez-me lembrar outra coisa relativa à mão. Embora a primeira vez que vi a expressão tenha sido numa tradução, não consigo localizá-la, mas em meu auxílio vem uma anotação que fiz a Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho, em que se pode ler: «com o cutelo da mão». É com o cutelo da mão, por exemplo, que se mata um coelho. Trata-se de uma muito engenhosa e perspicaz catacrese, como asa do nariz, perna da mesa, nariz do avião e de outras. Catacrese que já devia estar dicionarizada. Na língua, a analogia é um filão inexaurível.

* Por exemplo, na frase «Place heel of hand nearer victim’s head on breastbone next to index finger of hand used to find notch».

Locução «a sério»

À parva

      Ultimamente, entrou em voga a locução «à séria», usada e difundida por gente snobe (e snobe, etimologicamente, significa «sine nobilitate» [sem nobreza], não esqueçamos). Entre as pessoas simples — excepto as mais permeáveis à mediocridade exibida nos reality shows —, o despautério não criou raízes, felizmente.
      Felizmente também, alguma imprensa vai denunciando a snobeira, ainda que de forma demasiado subtil: «Passemos, então, a M.R.P. [Margarida Rebelo Pinto]. Não vejo como possamos acusá-la de fraude. Fraude, metaforicamente falando, significa vender gato por lebre. É verdade que tem mostrado desejo de ser reconhecida como escritora “séria” (ou será à séria?). […] Mas o que interessa é saber se, apesar das pretensões da autora, a devemos levar a sério (ou será à séria?)» («A falta que faz o “je ne sais quoi”», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, 20.05.2006, p. 58).

Léxico: xauter

Como as palmas das mãos

      Se numa cidade precisamos de guias, com maior e diversa razão precisamos deles num deserto. O vocabulário da língua portuguesa inclui uma palavra que designa o muçulmano que guia os viandantes nos desertos da Arábia — xauter (do árabe xater, homem perfeito).
      Curiosamente, o profeta nomeado por Deus para guiar aqueles que viviam a leste do monte Sinai, o povo de Mudyan e Aykah, chamava-se Xuaib, que significa «aquele que mostra o caminho certo».

Abuso do elemento mega-

Mania das grandezas

      Nos tempos que correm, já nada é grande ou muito grande ou mesmo enorme: agora, tudo é mega-qualquer-coisa. Venha lá de onde vier a mania, o certo é que são os jornalistas que a estão a difundir. Só temos de esperar, com paciência, que passe. Vejamos alguns exemplos.

«Para trás, ficam 13 anos de trabalhos de construção — a barragem arrancou em 1993 —, muita polémica e algumas pressões internacionais, devido aos estragos ambientais e ao impacto humano da megabarragem denunciados ao longo da última década e meia por inúmeras organizações ambientais e por múltiplos observadores (ver texto em baixo)», «Maior barragem do mundo já está construída», Diário de Notícias, 20.05.2006, p. 24.

«Megarrebelião de criminosos já matou 52 pessoas em São Paulo», Diário de Notícias, 15.5.206, p. 23.

«É que, depois da megaoperação de fiscalização lançada pela autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) na última semana de Abril, que levou à apreensão de mais de 800 mil litros de combustível, oito bombas de gasolina, na maioria em Lisboa, foram encerradas entre sábado e quarta-feira», «Meia centena de postos de combustível fechados em Lisboa», Francisco Neves, Público, 5.5.2006, p. 57.

«Megachurrasco e exposição sobre a Ota na feira de Alenquer», Público, 26.05.2006, p. 65.

Figura de retórica: paralipse

Não dizer dizendo

     Uma vizinha minha (não, não é a do «estendedal») usa, inconscientemente, uma figura de retórica de magnífico efeito, que é a paralipse. Esta figura consiste em fingir-se querer omitir o que todavia se vai dizendo. Como fala pelos cotovelos, diz-nos amiúde (isto não é um plural majestático: é, mais precisamente, no sentido de dizer a todos os presentes) «não querendo interromper, mas já o fiz…», o que irrita um pouco toda a gente. Nem quero falar, porque é mais privado, da mania que esta senhora tem de se pretender colega de faculdade de vários ministros, de gerações muito distantes entre si… Viram? Comecei por escrever «nem quero falar», mas falei: isto é uma paralipse.
      Também referida nos antigos manuais de retórica como paraleipsis, paralepsis, preterition e occupatio, a palavra chegou-nos através do latim paralipsis, mas o étimo é grego, de para, «lado», e leipein, «deixar». Entre nós é também conhecida como preterição.

Elemento pseudo-

Erros populares

      Ainda a propósito do vocábulo «jacobino», no site do CDS-PP fui encontrar a transcrição do que o deputado Nuno Melo afirmou na Assembleia da República sobre a proposta de alteração socialista do protocolo de Estado: «É um diploma que resulta de um impulso socialista nascido do pseudo laicismo jacobino.» Ora, como quase toda a gente sabe, unem-se por hífen os compostos formados com os elementos de origem grega auto, neo, proto e pseudo, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s. Logo, pseudo-aleatório, pseudo-epígrafe, pseudo-randómico, pseudo-sábio; contrario sensu: pseudolaicismo.

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