Gentílico: argelino

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Alegria no trabalho

O repórter da TSF presente no estádio Stamford Bridge, em Londres, estava radiante, esfuziante, eléctrico. A acompanhar os jogos do Chelsea, afirma, «há sempre pessoas de todas as variedades». Entrevista uma inglesa que veio de York, que pelos guinchos parece ser fã incondicional de José Mourinho. Mas esperem, o nosso repórter, também ele quase aos guinchos, encontrou alguém, no meio de tamanha «variedade», ainda mais fantástico. Ouçamo-lo: «Até aqui está um argeliano!» Isto é o que se pode designar, com toda a propriedade, variações sobre um erro: é relativamente comum dizer-se e escrever-se «algerino» e «algeriano», mas «argeliano» derrota todas as nossas esperanças de os jornalistas, cuja ferramenta de trabalho é a língua, respeitarem o português e os Portugueses, seus concidadãos.

Léxico: «odorifumante»


É uma coisa em forma de assim


      Não me vem nunca o agradável aroma de um cachimbo em plena laboração que não me lembre, num reflexo pavloviano, da exótica palavra «odorifumante». Somos feitos não de carne e osso, mas de palavras.
Odorifumante, adj. Que espalha fumo odorante.



Etimologia: tangerina

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Sumarentas


Quem não gosta de tangerinas? De uma forma geral, aliás, todos os Marroquinos são simpáticos. Agora a sério: já se lembra que o gentílico relativo a Tânger é tangerino? Pois o fruto designado tangerina tem tudo que ver com o caso. Inicialmente, esta variedade de laranja era apenas produzida no Norte de África, de onde era exportada para a Europa a partir do porto marroquino de Tânger. Por isso, de início ficou conhecida como «laranja tangerina», isto é, «tangerina» era então um adjectivo. Mais tarde, omitiu-se o vocábulo «laranja», bastando o gentílico para designar este belo citrino. O termo «tangerina» é, pois, um epónimo — vocábulo que surgiu a partir de um nome próprio. Também noutras línguas ocorreu a mesma evolução: em inglês, primeiro, tangerine orange, e depois apenas tangerine; em espanhol, primeiro, naranja tangerina, e depois somente tangerina.

Ortografia: «campainha»


Soam campainhas…

      
Quantas criancinhas não estarão agora a escrever incorrectamente a palavra «campainha», e tudo por causa do Público? Este também é um erro de acentuação comum, e por sorte consegui encontrar uma tira do Calvin & Hobbes para o mostrar. Ora, a palavra «campainha» não precisa de acento gráfico, pois a semivogal i, ao ser anasalada pelo dígrafo nh, é como que autonomizada, destacada como sílaba, desfazendo assim o ditongo. Nas mesmas circunstâncias, bainha, biscainho, Fontainhas, grainha, ladainha, Maçainhas, moinho, rainha, redemoinho, remoinho, tainha, ventoinha, etc. Não faço agora nenhum comentário ao «bora».


Léxico: gerlanda

Do Alentejo

A leitora Luísa Coelho diz-me que costumava, quando era pequena, ir visitar uma avó ao Alentejo e que em casa dessa avó havia «ressaltos ou prateleiras de alvenaria a três quartos da altura das paredes onde se punham vários objectos». «Ainda me recordo», diz, «de a minha avó lá ter garrafas de vidro transparente cheias de água colorida, para embelezar a cozinha.» Pergunta-me se conheço o nome que se dava a essas prateleiras. O Alentejo é grande, e poderá ter também outros nomes, mas creio que é gerlanda.

Sinónimos de exequível

O fusível

Caro Luís Costa: poder, pode, mas repare que «exequível» é o termo mais comum. Contudo, quando entender, pode cobrar a aposta, já que «factível» e mesmo «fazível» existem igualmente. Convenhamos que este último, «fazível», faz lembrar «fusível», sendo por isso de evitar. Pelo menos junto de electricistas.

Conjugação


Convites

Chegou-me por correio electrónico um convite para o lançamento de um site. Nem quero saber do que se trata, mas diz, como se pode ver na imagem: «Se fores ao RS plaza ou ao Remédio Santo bar e obteres um carimbo, quando chegares ao RS Klub ganhas 1 brinde e 1 bebida!» «Se fores e obteres»? Acham mesmo bem — e isto não é discriminação — porem o segurança, moldavo, a redigir o convite? Ah, não foi o segurança moldavo, foi a stripper russa? Pois não se nota a diferença!
«Fores» é a 2.ª pessoa do singular do futuro do conjuntivo. Logo, também a forma do verbo obter deverá estar conjugada no mesmo modo e tempo: obtiveres. Ora, obteres é uma forma do infinitivo pessoal. Se fores e obtiveres…

Cornaca, elefantário, naire

Da Índia

Um leitor pergunta-me se pode traduzir o inglês mahout por «elefantário». De facto, pode, mas não deve. «Elefantário» vem directamente do latim e significa condutor de elefantes. Mahout tem como étimo um vocábulo do sânscrito, que nós não temos. Mas temos o vocábulo «cornaca», do cingalês, que tem o mesmo significado. José Pedro Machado, em nota a este verbete, regista que os escritores portugueses antigos preferiam usar o termo «naire», do malaiala.
Coisas minhas: a palavra «elefantário» lembra-me «infantário», e esta, agora, traz-me sempre à memória a resposta de uma amiga minha à pergunta sobre como estava o filho. «Está no infantário?», pergunto. «No infectário, queres tu dizer.»

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