Pronúncia: «para»


Quosque tandem abutere, Petre, patientia nostra?

      Já começa a irritar-me o facto de Pedro Bicudo, o correspondente da RTP em Washington (o posto mais importante das representações estrangeiras da RTP), dizer sempre «pera» em vez de «para». Claro que tem, longe de mim a ingratidão, as suas vantagens: nas aulas, é mais fácil pôr as criancinhas a ler Gil Vicente, por exemplo:

Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant’eu por mui necia sento
a que o contrário fizer.


      Conheço alguns açorianos, e tanto quanto posso avaliar, eles não falam assim. Se fosse o Evgueni Mouravitch ou a Katarzyna Potoczec (a miúda do gás), por exemplo, era desculpável, pois são estrangeiros. Um português, jornalista, que fala para milhões de portugueses, não pode falar assim. Só a nefanda moda do politicamente correcto é que impede a maioria de expressar esta opinião, mas a mim só me fica bem cortar a direito.

Pera, prep. (do lat. per ad). Ant. O m. q. para.║ Obs. Esta palavra, ao contrário do que pode parecer, não se pronuncia pêra, mas p’ra.
In Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. José Pedro Machado


Topónimos: Toscana


Imagem: http://www.florence.ala.it

É tudo em Itália

      «Ainda num registo musical, surge Sting. “Foi o convidado do HermanSic que mais me marcou”, diz e explica que passaram o fatídico 11 de Setembro juntos, na casa da Toscânia do cantor» («Vai ser difícil contentá-lo», 24 Horas, 16.3.2006, p. 51). Tem a certeza do que escreve, Vânia Custódio? A Toscânia é uma cidadezinha etrusca, que no século XIV se chamou Toscanella. A região onde Sting tem uma casa chama-se Toscana — em italiano e em português. A Toscana, na Itália Central, é uma das maiores regiões italianas, tendo como capital Florença. Sobretudo nas traduções de obras de língua inglesa, é um erro muito comum. Claro, está logo a ver-se: Tuscany → Toscânia.
Ora veja:

«Infatti in varie pergamene dei secoli VIII e IX, appartenute alla badia Amiatina, è rammentato Viterbo niente più che un semplice castello compreso nel contado e nell’ecclesiastica giurisdizione della città di Tuscania, o Toscanella. –(ARCH. DIPL. FIOR. loc.cit.).» (In Dizionario Geografico Fisico Storico della Toscana, compilado por Emanuele Repetti, de 1839, que pode descarregar aqui.)

      Só por curiosidade, a Toscana também tem uma área insular, no mar Tirreno, da qual fazem parte as seguintes ilhas: Capraia, Elba (a maior), Giannutri, Giglio, Gorgona (a mais pequena), Monte Cristo e Pianosa.

Ortografia: cãibra

Azar
 
     O jornalista tinha diversas variantes à disposição, mas resolveu logo inventar uma quarta: «cãimbra» (jornal 24 Horas, 24.2.2006, p. 12). Por pouco e acertava: o dicionário Aurélio regista «câimbra» como variante. Como formas antigas, temos ainda «cambra» e «quembra»; de uso popular temos «câmara» e «câmbria», esta última provavelmente a mais difundida.

Léxico: gêiser/gêiseres

Pérolas a proboscídeos…

      «Encelado faz parte da curta lista de corpos com vulcanismo activo: além da Terra, os outros são Io, uma lua de Júpiter, e Tritão, uma lua de Neptuno com geisers.» O texto é de Teresa Firmino no Público de 10.3.2006, p. 28. Porquê «geisers»? Se conseguir encontrar algum dicionário de língua portuguesa, publicado recentemente, que não registe «géiser» ou «gêiser», avise-me.

Léxico: caixoto

Povo que lavas no rio

      À luz vespertina coada pelo vitral, pude vislumbrar algumas pessoas a orar na Igreja de Nossa Senhora do Amparo. A atitude de genuflectir, contudo, transportou-me para outras memórias. Naquela ribeira, as mulheres do povo lavavam a roupa antes de o lavadouro municipal, um edifício a lembrar a arquitectura das escolas do Plano do Centenário, ter sido construído na vila, no final dos anos 40. Também ali as mulheres se ajoelhavam, mas para lavar a roupa da família ou de alguma patroa rica. E onde se ajoelhavam elas? Pois num pedaço de cortiça ou numa joelheira, também por vezes chamada caixoto. Este não passava de um caixote a que se retirava uma das tábuas do comprimento, forrando-o por dentro com uma esponja ou uma almofada.

Topónimos: Antuérpia

Venham de lá os xeques do Dubai!

      Num mapa-múndi — «infografia Impala», atenção! — publicado na revista Focus (n.º 335, 15 a 21 de Março de 2006, pp. 108-109), a ilustrar o artigo «Caça aos portos do Ocidente», pode ler-se «Shangai» e «Amberes». O primeiro, «Sanghai», todos perceberão de que cidade se trata, embora em português se deva escrever Xangai. Sim, porque se nos querem impingir esta mexurufada meio inglesa meio portuguesa prefiro revistas em inglês, de longe melhores. Quanto a «Amberes», o melhor é esquecer qualquer tentativa de desculpar a jornalista, Carla Jesus. Amberes em espanhol; Antwerp em inglês; Antwerpen em holandês, finlandês, alemão, norueguês e sueco; Anvers em francês; Anversa em italiano — mas Antuérpia em português!
      Diz o texto do Acordo Ortográfico de 1990, ainda não ratificado: «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. Exemplo: Anvers, substituído por Antuérpia; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Genève, por Genebra; Justland, por Jutlândia; Milano, por Milão; München, por Munique; Torino, por Turim; Zürich, por Zurique, etc.» (Base I, 6.º)

Rádio

Em dia de Benfica-Barcelona…

      A repórter da Antena 1 Rita Colaço foi fazer uma (irrelevantíssima) reportagem ao Instituto Cervantes a propósito do jogo. No fim, pergunta ao director do instituto como se diz «bola» em espanhol. Ramiro Fonte, poeta e por isso paciente, diz-lhe que é «balón». No estúdio, empolgadíssimo, António Macedo interrompe para perguntar se não é «pelota». A língua espanhola, lembra a colega repórter, também é traiçoeira. Perante esta afirmação demolidora, António Macedo conclui, pesaroso: «”Pelota” é mais o esférico.» São factos como este que me levam a ter a certeza de que nunca os Espanhóis desejariam uma união ibérica...

Os Shilluk

E o Sudão fica longe?

      Leio na revista Além-Mar que entre os Shilluk, um povo nilótico que vive no Sul do Sudão, antigamente o rei era eliminado ritualmente se contraía uma doença, se era ferido ou se caía em grande debilidade física. Cruel, não é? Mas ainda mais cruel era os candidatos não eleitos para suceder ao rei serem mortos ou desterrados para que não pusessem obstáculos à actuação real. Em tempo de transição presidencial, dá que pensar.

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