Hipérbole

Oooops!

      No último Herman Sic, Herman José disse, duas vezes e de forma enfática, «hipérbola». As Produções Fictícias têm de começar a escrever os «improvisos» do mestre, sob pena de o programa descambar ainda mais.


Iliteracias

Jovens passam o Rubicão?

      Eu não queria falar aqui dessa coisa assaz vulgar que é o dinheiro, mas não posso deixar de me espantar com o custo da campanha da Danone, a tal do «testemunho Actimel»: 5,5 milhões de euros! Toda a campanha esteve a cargo da agência Young & Rubicam, com os resultados que se podem ver. Estou mesmo a ver: os criativos são demasiado novos para conhecerem a frase de Roger Ascham, tutor régio inglês, que disse: «Quem quer escrever bem deve falar como as pessoas comuns e pensar como as sábias.» Tiveram logo de usar o tabeliónico «testemunho», confundindo, de forma inepta, a coisa criada com o criador.

Estrangeirismo: «portfolio»

Teima mas não apostes

      Agora os professores têm de fazer umas fichas para os alunos escreverem nelas vários textos ao longo do ano. O conjunto irá constituir o chamado «portfolio». Assim mesmo, à inglesa, que é mais sofisticado. O Grande Dicionário de Língua Portuguesa regista apenas «porta-fólio», enquanto o magnífico Dicionário Houaiss regista o par «porta-fólio» e «portefólio». O Dicionário da Academia, por sua vez, ignora completamente o vocábulo. Ora, podendo o Ministério da Educação ter escolhido entre porta-fólio e portefólio, e este último apresenta a vantagem de ser a forma como normalmente se pronuncia, recaiu logo a escolha num estrangeirismo. E lá estão as criancinhas deste país a escrever e a ler «portfolio». A quem incumbe então a defesa da língua?
      A verdade é que eu não sabia se a palavra assim escrita tinha origem no Ministério da Educação. Era um argumento indutivo, o que não passava de uma generalização construída a partir de uma determinada amostra: comprovei que a palavra fora usada por três professores de três localidades diferentes. Para não correr o risco de a minha afirmação ser uma falácia da estatística insuficiente, resolvi contactar a Associação de Professores de Português (APP). Que sim, responderam-me, o Ministério da Educação escreveu e «mandou» escrever desta maneira.


Provérbio

As minhas palavras

      Gostei muito de ouvir a jornalista Maria Flor Pedroso, na última edição do programa Clube de Jornalistas, na 2:, usar o provérbio «Elogio em boca própria é vitupério», a que lanço mão de vez em quando e que nunca ouvira ninguém usar. «Vitupério», só por si, é uma palavra magnífica, plena de ressonâncias terríveis. Lembro-a do episódio de D. Inês de Castro, d’Os Lusíadas, onde pode ler-se esta estância, em que se justifica o cognome atribuído a D. Pedro:

  • Este, castigador foi rigoroso
    De latrocínios, mortes e adultérios;
    Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
    Eram os seus mais certos refrigérios.
    As cidades guardando, justiçoso,
    De todos os soberbos vitupérios,
    Mais ladrões, castigando, à morte deu,
    Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

Plural de vaivém

O desafio da gramática
      
      No Jornal Nacional da TVI, ontem, a propósito dos vinte anos da explosão do Challenger, a pivô lembrou-nos que «os Estados Unidos já perderam três vaivém». Tal dislate só seria admissível se a jornalista estivesse a falar de improviso; mas não é assim: as notícias estão escritas. O plural de «vaivém» é «vaivéns».

Paralisar/milhares/mozartiano

Três erros no DN (28.1.2006)

      «Paralizar». Texto de Susana Salvador, «Republicanos catalães retiram apoio a Zapatero», p. 14. Se o substantivo tem s, nunca o verbo poderia ter um z, ou não? Erro comum, mas imperdoável num jornalista.

      «Dezenas de milhar». Texto de Luís Naves, «Funeral de Rugova lança transição política complexa», p. 16. Alguém diz ou escreve «dezenas de milhão» ou «dezenas de homem»? Então porque se continua a dizer e a escrever «dezenas de milhar»? Tem dúvidas? Consulte as páginas 164 e 165 do Dicionário de Erros e Problemas da Linguagem, de Rodrigo de Sá Nogueira, Clássica Editora.

      «Mozarteano». Texto de Isabel Lucas, «Hoje todos os sinos tocam em Salzburgo», p. 29. Embora se escreva «comtiano», de Conte, «dantiano», de Dante, e «nietzschiano», de Nietzsche, a verdade é que em relação a Mozart o adjectivo dicionarizado é «mozartiano», tal como «freudiano» para Freud.

Pronúncia: equidade e equitativo

Última lição presidencial

      No discurso de abertura do ano judicial, o Presidente da República cessante usou as palavras «equidade» e «equitativas», não pronunciando o u. Tal pronúncia é, ao contrário da que se ouve habitualmente, a correcta, pois estes vocábulos enquadram-se na regra de não se pronunciar o u quando a este se segue um e ou um i. A maioria dos dicionários de língua portuguesa da actualidade — a começar pelo Dicionário da Academia e passando pelo Dicionário Houaiss — porém, indica uma pronúncia incorrecta. Já o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, nas suas 5.ª e 6.ª edições, as que tenho à mão, indicam a pronúncia correcta. O Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (Imprensa Nacional, 1947), que fixa a ortografia aprovada pelo acordo ortográfico de 1945, na página 185, regista a pronúncia correcta destes dois vocábulos.
      A meio do discurso, Jorge Sampaio disse «perca de qualidade». Deveria ter dito «perda», já que «perca» é a forma popular (embora seja correcta). Para mim, percas só as do Nilo (Lates niloticus). Cozidas em água e um pouco de vinho branco, uma pitada de sal e umas ervas aromáticas, servem-se com um fio de azeite genuíno.
 

Léxico: gergelim

Abre-te, sésamo!

Posso estar enganado, mas julgo que a palavra portuguesa «gergelim», semente mais conhecido por sésamo, é a que tem mais variantes. Vejamos:
— gerzeli
— gerzelim
— gergelim
— zirzelim
— jorgelim.

Arquivo do blogue