Cacófato

Lisboa-Dacar

      Noticiário da Antena 1: «Carlos Sousa à frente nos carros.» E quem ganhará na modalidade das cuspidelas para o ar? Dicionário: «Cacófato: efeito desagradável que resulta da combinação dos sons finais de uma palavra com outros iniciais da palavra seguinte.»

Ansiolítico

Mao Maria!

      Num conhecido restaurante vegetariano lisboeta. Entra um homem jovem, com um acentuado ar de intelectual, o que é reforçado por trazer dois ou três livros nas mãos, entre os quais a flamejante biografia de Mao. Põe os livros sobre uma mesa, olha detidamente para o depósito que mantém sempre quentes duas variedades de chá (que estão identificadas com uma etiqueta, que refere também as propriedades: calmante, digestivo, etc.) e, perplexo, pergunta à empregada da caixa, que está próxima e com ar solícito: «O que é isto, “ansiolítico”?»
      Mentes brilhantes! Mas é natural: como se sabe, é muito mais provável conhecer-se os meandros da Revolução Cultural ― que digo? É até mais provável conhecer-se ao pormenor todas as circunvoluções cerebrais de Mao Tsé-tung ― do que saber o que é uma substância ansiolítica.

Descontracção

À prova de tudo

      Assim se apresenta o novo Volkswagen Polo. De tudo, menos dos erros. Diz-se no anúncio: «No Novo Polo tudo contribui para a sua descontração.» «Por amor ao automóvel.» Por amor de Deus, comprem um dicionário! Menos descontracção!


Verbo haver, de novo

Será que ouvi bem?...

      Quem estava ao meu lado assegurou-me que ouviu o mesmo: numa emissão do programa televisivo Portugal no Coração, a fadista Ana Moura cantava «nos meus versos poderão haver medidas». Ora, já é tempo de se ir sabendo que o verbo «haver» é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.:
      Nos meus versos poderá haver medidas.
      O erro é tanto mais grave quanto se sabe que a fadista, à semelhança de outros fadistas, actua nas comunidades lusófonas dispersas pelo mundo, que, de maneira geral, estão mais afastadas da língua materna, apresentando por isso mais vulnerabilidade a estes erros.
      Reitero: talvez eu não tenha ouvido bem, e se assim for peço desculpa a Ana Moura, cujo talento muito aprecio. Até desejo ― isto é que é humildade* ― estar enganado. Pelo menos num caso como este.

* Deve ser porque «a humildade precede a glória», como se lê na Bíblia (Provérbios, 18,12).

Léxico

Línguas da Etiópia

      Numa reportagem sobre a Etiópia publicada na revista Pública, em 11 de Dezembro, ilustrada com excelentes fotos do padre comboniano José Vieira e texto de Fernando Sousa, pode ler-se que «na Etiópia, o nome dos dialectos acabam em “inha” para distinguir o povo da língua. Os gumuz falam guminha». Outras línguas da Etiópia: amarinha, orominha, tigrinha, somalinha, entre outras. Pena é que os dicionários de língua portuguesa registem poucos ou nenhuns destes termos. O escritor, o jornalista, o tradutor, o revisor que lá se avenham.


Meio isto, meio aquilo

Os erros de Marcelo

      Ouvi dizer que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa criticou uma vez alguns políticos pelo uso incorrecto da língua. Para quem tem telhados de vidro como ele, devia comedir-se mais nessas críticas. Na última edição do programa As Escolhas de Marcelo, disse que a empresa para onde Schroeder foi trabalhar é «meia russa, meia alemã». Não é: na verdade, é meio russa, meio alemã. «Meio», nesta construção, é advérbio, e os advérbios são invariáveis. Dou-lhe 7 (sete) valores.
      Já Ana Sousa Dias esteve muito bem, pois disse «o bebé de Viseu», e o vocábulo «bebé», como sabemos, é do género masculino. Muitos jornalistas dão o erro elementar de considerá-lo de ambos os géneros. Ah, já me esquecia que os mais recentes dicionários de língua portuguesa não me dão razão. Pormenores...

Léxico: «alfil»

Alfil

      Na revista Actual, do Expresso, na edição de 23 de Dezembro, a propósito de antiguidades, o jornalista José Norton assina um artigo («Xeque-mate») em que afirma que a peça conhecida entre nós como bispo em Espanha tem a mesma forma e se chama «alfil», «palavra que só existe no vocabulário espanhol para designar aquela peça do jogo». Olhe que não. No Grande Dicionário de Língua Portuguesa pode ler-se: Alfil, alfim, s. m. (do ár. al-fil). Peça de jogo de xadrez que representava o elefante e correspondente ao bispo.
      O facto de José Pedro Machado, que foi o competentíssimo coordenador do referido dicionário, usar o verbo no pretérito imperfeito do conjuntivo («representava»), remete-nos para o desuso da palavra, não, obviamente, para a sua inexistência. Prova disso é ter o respectivo verbete. De resto, há mais de vinte anos que eu conheço o vocábulo como sendo português. Também o Dicionário Houaiss, bem mais recente, regista o vocábulo, acrescentando apenas tratar-se de um termo antigo e da área do enxadrismo. Já que pergunta, não, o Dicionário da Academia ignora este vocábulo, mas esse não é certamente o pior dos seus defeitos. E não, não considero que isto seja trabalhar para o bispo.

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