Léxico: «telha lusa» e outras

Temos de falar


      «A Câmara de Famalicão vai enviar, na terça-feira, para os distritos de Leiria e Santarém, mais de oito mil telhas para a reconstrução das habitações afetadas na última semana pela tempestade Kristin, foi hoje divulgado. [...] Posto isto, a Câmara avançou para a aquisição do material – 26 paletes de telha lusa F3 – para a doação» («Famalicão oferece 8.000 telhas aos distritos de Leiria e Santarém», Pedro Gonçalo Costa, O Minho, 2.02.2026, 18h13). 

      Os nossos dicionários estão claramente falhos quanto a tipos de telhas. Há mais, mas vamos concentrar-nos em três: telha lusa, telha de canudo e telha marselhesa (neste caso, a sugestão é apenas de melhoria, dado que a Porto Editora já a acolhe). Assim, proponho ➜ telha lusa s. f. constr. telha cerâmica de origem portuguesa, de perfil recto e pouco ondulado, dotada de sistema de encaixe lateral e longitudinal que assegura o encaixe entre peças, garantindo estanquidade e eficaz escoamento da água; peça robusta, com relevos de vedação nas zonas de engate, destina-se a coberturas com inclinação moderada a acentuada, sendo emblemática da construção tradicional portuguesa. | ➜ telha de canudo, telha mourisca ou telha árabe s. f. constr. telha cerâmica tradicional de forma semicilíndrica, composta por peças curvas justapostas em pares alternados, uma com a concavidade voltada para cima (canal) e outra sobreposta com a concavidade para baixo (cobertura), formando linhas de escoamento; usada em coberturas inclinadas de edifícios históricos ou de arquitectura vernacular, sobretudo no Sul de Portugal, requer fixação com argamassa ou sistema equivalente para garantir estanquidade e resistência ao vento. | ➜ telha marselhesa s. f. constr. telha cerâmica plana e rectangular, dotada de sistema de encaixe lateral e superior que permite o travamento sequencial das peças e a sua fixação directa ao ripado; apresenta perfil com reentrâncias e saliências para condução da água e reforço da estanquidade, sendo leve, de aplicação rápida e produzida industrialmente em vários acabamentos; amplamente usada em coberturas modernas ou reabilitadas, adapta-se bem a telhados de inclinação média a acentuada.

[Texto 22 355]

Extras! Extras! Extras!

Isto está a melhorar


      «Diretiva de 2016 torna horas extras em trabalho escravo na PSP» (João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 3.02.2026, p. 18).

[Texto 22 354]

Léxico: «ficar mal na fotografia»

Para os estrangeiros e para nós


      Estou para ver quando levam isto para os dicionários: «Nos casos relatados ontem na imprensa britânica, de mortes que ocorreram no final do ano passado, são os hotéis do grupo Riu na ilha do Sal que ficam mal na fotografia» («Famílias de turistas britânicos mortos por infecção em Cabo Verde recorrem à justiça», Ana Brito, Público, 2.02.2026, p. 39). Agora imaginem um estrangeiro só com umas luzes da nossa língua — daqueles que confundem cozinha com cuzinho — a traduzir a expressão. Mas, quem sabe, talvez nos perguntasse. Teríamos de explicar. You may not have done the crime, but you showed up in the frame, and now you’re the face of the scandal.

[Texto 22 353]

Definição: «prussianismo»

Mais rigor


      Ainda bem que esta prefaciadora usou, e definiu, a palavra «prussianismo». Aproveitemos nós a lição propondo ➜ prussianismo 1. condição ou característica do que é prussiano; 2. doutrina, atitude ou sistema de valores associados à cultura ou mentalidade prussiana, especialmente no que respeita à disciplina rígida, ao autoritarismo, ao militarismo e à valorização do dever, da ordem, da coragem, do zelo e do trabalho árduo; 3. [por extensão] qualquer forma de organização ou ideologia marcada por autoritarismo, militarismo e culto da autoridade.

[Texto 22 352]

Fases intermédias (ou de transição) da Lua

Depois das crianças, nós  🌖


      Ontem à tarde, ao ver no meu relógio Huawei que estávamos na fase de minguante convexa (não é a nossa nomenclatura), fui ver como estavam as fases intermédias ou de transição no dicionário da Porto Editora. Não estavam. E não terá sido o vento que as levou, nunca lá estiveram. E, contudo, até em programas infantis da RTP e da SIC se fala nestas fases. Assim, proponho ➜ lua crescente côncava ASTRONOMIA fase entre a lua nova e o quarto crescente, com menos de metade do disco lunar visível iluminado; lua crescente gibosa ASTRONOMIA fase entre o quarto crescente e a lua cheia, com mais de metade do disco lunar visível iluminado. | lua minguante gibosa ASTRONOMIA fase entre a lua cheia e o quarto minguante, com mais de metade do disco lunar visível iluminado; lua minguante côncava ASTRONOMIA fase entre o quarto minguante e a lua nova, com menos de metade do disco lunar visível iluminado.

[Texto 22 351]

Definição: «bug»

Ai sim? Então toma um contra-exemplo


      Acabei de reportar à Apple um erro muito estúpido — um bug — do iOS. Veremos se o corrigem. Nem precisam de me agradecer. De caminho, tratemos de outro caso: a definição de bug no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como é meu timbre, não vou limitar-me a dizer que está errada, mas propor a correcção. Está assim: «INFORMÁTICA erro ou falha na execução de um programa, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento». Vamos lá ver, um bug não é apenas na execução. Um bug pode estar no código mesmo que nunca seja executado, ou pode manifestar-se apenas em condições específicas (como era o caso daquele que reportei). Assim, proponho ➜ bug INFORMÁTICA defeito ou erro no código de um programa que resulta em comportamento não intencional, incorrecto ou inesperado, independentemente da sua gravidade ou impacto no funcionamento geral do sistema.

[Texto 22 350]

Definição: «gorila-das-montanhas»

Só que pode estar melhor


      «The mountain gorillas were already restricted to a handful of forest fragments. Hunting alone caused the Virunga gorilla population to drop from 400-500 individuals in 1960 to 260-290 during Amin's regime» («Gorillas are what we want to be, says Gladys Kalema-Zikusoka», M. Nobinraja, The Hindu, 3.02.2026, p. II). 

      Só esta informação, entre outros dados do artigo, já contribuirá para melhorar a definição de ➜ gorila-das-montanhas ZOOLOGIA (Gorilla beringei beringei) subespécie do gorila-do-oriente que habita florestas montanhosas entre 2200 e 3900 metros de altitude, nas regiões de Ruanda, Uganda e República Democrática do Congo; distingue-se pela pelagem espessa, negra e comprida, e por viver em grupos familiares coesos; é a mais rara das subespécies de gorila, com uma população inferior a mil indivíduos.

[Texto 22 349]

AOLP90 ainda por assimilar

Oh, Luís, que desilusão


      «Foi no gabinete de José Guerreiro que alguém abriu a boca e propôs o nome que agora é maldito. Parecia inofensivo, era internacional e ninguém se chatearia. Ao presidente do IPMA pareceu-lhe bem. Ligou aos colegas europeus e todos aprovaram que seria menina a tempestade que os meteorologistas do sul da Europa previram que chegaria mais pujante a Portugal do que a qualquer outro lugar. O “K” não é letra do alfabeto que conheçamos, mas é rabisco obrigatório em quase todo o lado e funcionou como álibi, assim ninguém se chatearia por ter o seu nome associado a uma vingança... mesmo que da natureza» («O pai de Kristin é português», Luís Osório, Diário de Notícias, 3.02.2026, p. 4).

      E é logo um adepto desta ortografia avariada que vem dizer isto, que o k (porquê a maiúscula?) não faz parte do nosso alfabeto. Estude lá bem isto. Não por causa da mudança da grafia, mas da imigração, é ver agora a lista de nomes permitidos do Instituto dos Registos e do Notariado começados por k

[Texto 22 348]

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