Léxico: «ceira»

Mas veio em boa hora


      Mas os erros também nos fazem avançar; pessoalmente, prefiro aprender com os erros dos outros, e neste aspecto tenho tido sorte. É verdade que «ceira» já foi sinónimo de «seira», mas apenas, como se lê, e bem, no Houaiss, até ao século XVIII. Mas há outra acepção de «ceira», e aquele dicionário também a acolhe, que importa continuar a estar registada nos dicionários (a Porto Editora diz estar brevemente disponível) de hoje em dia ➔ ceira METROLOGIA (Índia) unidade tradicional de massa usada no subcontinente indiano, correspondente ao termo inglês seer (do hindi sīr), com valor variável segundo a região e a época (cerca de 0,93 kg no período colonial britânico); encontra-se atestada com esta grafia no Glossário Luso-Asiático de Dalgado (1919), com a forma portuguesa arcaica cer.

[Texto 22 281]

Léxico: «seireiro»

Com dois, mais erros


      «A mudança desse método em meados do século passado levou a produção a cair, e fez os ceireiros [sic] — os artesãos da junça — sair da Beselga à procura de trabalho» («“Vale mais ganhar 800 euros aqui do que 2.000 em Lisboa”. Penedono pede empregos para não perder mais jovens», Beatriz Pereira e João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 14.01.2026, 6h30).

[Texto 22 280]

Léxico: «seta de Moylan»

E se aprendêssemos alguma coisa nova?


      Isto conta-se numa penada: certo dia, James N. Moylan (1944-2025), engenheiro da Ford, parou para abastecer e não sabia de que lado ficava o depósito. De volta ao trabalho, esboçou a solução: um pequeno símbolo no painel, junto ao ícone do combustível, que indicasse o lado certo. Propôs a ideia em Abril de 1986, primeiro com o desenho de um carro visto de cima, e a equipa transformou-o numa seta simples. Em 1989, os primeiros modelos com o novo sinal chegaram ao mercado. Assim, proponho ➔ seta de Moylan AUTOMOBILISMO pequeno triângulo ou seta junto ao ícone do depósito de combustível no painel de instrumentos de muitos automóveis modernos, indicando de que lado (esquerdo ou direito) se encontra o bocal de abastecimento; embora menos comum em veículos eléctricos, pode também surgir junto ao indicador de carga para assinalar o lado da porta de carregamento.

[Texto 22 279]

Extras! Extras! Extras!

Os primeiros nesta nova casa


      «Mais de um terço dos médicos com horas extras tinha atingido limite anual em Novembro» (Ana Maia, Público, 15.01.2026, 7h01).

[Texto 22 278]

Léxico: «fago | fagoterapia»

Estão desactualizados


      «El problema es real y el futuro, angustioso. ¿Qué hacer? Además de reducir la ingesta de antibióticos, prosiguen las investigaciones para hallar un arma contra estas superbacterias. Y aquí aparecen unos virus buenos, los fagos, que “destruyen” a las poderosas bacterias. ¿Cómo? Desde dentro, infectándolas. [...] Además, [María del Mar] Tomás [da Sociedad Española de Enfermedades Infecciosas y Microbiología Clínica (SEIMC)] señala que la fagoterapia presenta una baja toxicidad y que puede utilizarse como adyuvante del tratamiento antibiótico, pues los fagos tienen una acción sinérgica con los antibióticos» («Recuperan los fagos, virus descubiertos el siglo pasado, para matar superbacterias», Celeste Lopéz, La Vanguardia, 10.01.2026, p. 26). 

      Este excerto mostra bem como podemos enriquecer e descomplexificar a definição de ➔ fago BIOLOGIA vírus que infecta exclusivamente bactérias, introduzindo o seu genoma no interior da célula hospedeira e recorrendo aos mecanismos de transcrição e tradução bacterianos para produzir novas partículas virais; a infecção pode seguir um ciclo lítico (com lise celular) ou lisogénico (com integração do genoma viral no cromossoma bacteriano). E é evidente que se tem de registar uma primeira acepção, a moderna, de ➔ fagoterapia 1. MEDICINA tratamento de infecções bacterianas mediante a utilização de vírus bacteriófagos (ou fagos), seleccionados por atacarem especificamente a bactéria causadora da infecção.

[Texto 22 277]

Léxico: «beselguense»

Ninguém pensa neles


      «É tudo verdade. Em 1981, a Beselga tinha 556 habitantes, e a queda tem sido contínua. Os censos de 2021 registaram 270 beselguenses: dez crianças até aos 14 anos, e 11 vezes mais idosos. Desde então, até 2024, morreram 19 residentes. Nasceram dois» («“Vale mais ganhar 800 euros aqui do que 2.000 em Lisboa”. Penedono pede empregos para não perder mais jovens», Beatriz Pereira e João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 14.01.2026, 6h30).

[Texto 22 276]

Léxico: «hidromorfológico»

Só isto


      «Na mesma sessão, foi apresentado o relatório final do estudo técnico para avaliação de danos ambientais e medidas de mitigação, adjudicado pela AdCL ao Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Cesam) da Universidade de Aveiro. O documento propõe a redundância operacional de infra-estruturas, nomeadamente de drenagem e elevação, a requalificação hidromorfológica e ecológica do rio, a redução de pressões sobre a qualidade da água e a implementação de um plano de monitorização abrangente e mais vasto» («ETAR junto ao rio Lis recebe dois milhões de euros para melhorar tratamentos, mas problema está a montante», Público, 16.01.2026, 17h36).

[Texto 22 275]


Definição: «constipação»

Depois da gripe, constipação


      «Muitas pessoas de várias culturas crescem a ouvir que o frio nos deixa doentes. Sair de casa sem casaco, respirar ar frio, dormir num quarto frio, ser apanhado na chuva fria ou na neve, ou simplesmente sentir-se com frio são, frequentemente, responsabilizados por causar constipações ou gripe. [...] Constipações e gripes são causadas por vírus, não por ar frio. Vírus como os rinovírus, que causam o constipado comum, e os vírus da gripe transmitem-se de pessoa para pessoa através de gotículas respiratórias ou contacto físico, independentemente da temperatura exterior» («Por que é que há tantas infeções no inverno se o frio não provoca gripe?», Rádio Renascença, 17.01.2026, 10h00). 

      Temos de começar por tirar esta ideia errónea dos dicionários, o que também contribuirá, pouco que seja, para que acabe por sair da cabeça das pessoas. Assim, proponho ➔ constipação MEDICINA infecção viral benigna das vias respiratórias superiores, especialmente da mucosa nasal e faríngea, geralmente causada por rinovírus ou coronavírus sazonais, caracterizada por congestão nasal, espirros, corrimento e obstrução nasais, dor de garganta, tosse ligeira e sensação de mal-estar geral; tem duração limitada (3 a 10 dias), contágio elevado e ocorrência mais frequente nos meses frios, não por acção directa do frio, mas por factores comportamentais e imunológicos associados; resfriado comum.

[Texto 22 274]

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