Léxico: «paleoecólogo»

Avancemos mais um pouco


      «“Esta investigação mostra que a imagem que a muitos de nós temos em mente de um símio, passando por um neandertal, até chegar ao humano moderno, não está correcta – a evolução não funciona assim”, destaca, citada num comunicado divulgado pela Universidade do Estado do Arizona (ASU, na sigla em inglês), a paleoecóloga Kaye Reed, autora correspondente do estudo, que é professora emérita na ASU e co-directora do Projecto de Investigação de Ledi-Geraru desde 2002» («Cientistas anunciam descoberta de autrolopiteco na Etiópia», Filipa Almeida Mendes, Público, 14.08.2025, p. 40).

[Texto 22 266]


Definição: «biciclo»

Acabamos assim


      Só na semana passada é que, graças a um excelente programa no Conta Lá, fiquei a saber que a tradução de penny-farthing é «biciclo». Até entrevistaram um viajante inglês, Joff Summerfield, que se tornou construtor deste tipo de bicicleta e que já viajou numa por todo o mundo. Também entrevistaram vários participantes da fantástica Tweed Run, onde se viam alguns biciclos. A Porto Editora define-o assim: «veículo com duas rodas de diâmetro diferente, sendo a da frente maior, actualmente em desuso». Podemos melhorar quer a definição quer a etimologia, pelo que proponho ➔ biciclo TRANSPORTES veículo de duas rodas de diâmetros desiguais, com a dianteira significativamente maior do que a traseira, geralmente responsável tanto pela propulsão como pela direcção; de uso corrente na segunda metade do século XIX, conserva‑se hoje sobretudo em contextos históricos, turísticos ou recreativos. 

      Quanto à etimologia, vem do inglês bicycle (1868), pelo francês bicycle (1855), de bi- + cycle, este do grego kýklos, «roda, círculo».

[Texto 22 265]

Definição: «barrocal»

Menos pobre do que isso


      Na semana passada, vi um documentário na televisão em que se falava do Barrocal algarvio. O que posso afirmar é que o termo está muito mal definido nos dicionários. Sim, porque afirmar-se simplesmente que é o lugar onde há barrocas ou barrocos é quase nada. Assim, proponho ➔ barrocal GEOGRAFIA faixa de transição entre o litoral e a serra, característica do Sul de Portugal (em especial do Algarve), constituída por terrenos de relevo suavemente ondulado ou acidentado, com solos calcários, afloramentos rochosos (barrocas) e vegetação mediterrânica adaptada à secura; zona tradicionalmente agrícola, onde predominam culturas de sequeiro como a figueira, a amendoeira, a oliveira e a alfarrobeira.

[Texto 22 264]

Definição: «gripe»

Muito a propósito


      A minha filha está com gripe A. Pelo menos inicialmente, entre os sintomas não estava a febre. Tudo normal. A Porto Editora define a gripe como «doença febril», o que é clinicamente incorrecto: a febre é comum, mas não obrigatória, e há muitos casos de gripe sem febre, incluindo gripe A. Logo, pode estar entre os sintomas, mas não é definidora. Está na altura de rever a definição. Assim, proponho ➔ gripe MEDICINA doença respiratória aguda e muito contagiosa, causada por vírus do género Influenzavirus, transmitida por gotículas ou contacto com superfícies contaminadas, com início súbito e sintomas variados, como mal-estar ou abatimento geral, dores musculares, cefaleias, tosse seca e inflamação das vias respiratórias; a febre é frequente, mas pode não estar presente, sobretudo em crianças, idosos ou casos de gripe A.

[Texto 22 263]

Léxico: «rinoceronte-lanudo»

Já temos a sequência genómica


      «O genoma de um rinoceronte-lanudo com 14.400 anos foi recuperado a partir de uma amostra de tecido muscular encontrada no estômago de uma cria de lobo da Idade do Gelo, cujos restos mortais se encontravam preservados numa camada de solo rochoso congelado na Sibéria» («Genoma do rinoceronte-lanudo recuperado a partir do estômago de um lobo da Idade do Gelo», Filipa Almeida Mendes, Público, 15.01.2026, p. 27).

      Vamos lá ressuscitá-lo para os dicionários, tanto mais que o encontramos num texto de apoio da Infopédia, mas não, como devia, no dicionário. Assim, proponho ➔ rinoceronte lanudo PALEONTOLOGIA (Coelodonta antiquitatis) rinoceronte extinto que habitou as regiões frias da Eurásia durante o Pleistocénico Superior (até cerca de 14 000 anos atrás), de grande porte (cerca de 4 metros de comprimento, 2 de altura e mais de 3 toneladas), membro da megafauna adaptada às estepes geladas da Idade do Gelo, semelhante ao rinoceronte‑branco (Ceratotherium simum), caracterizado por adaptações ao frio como pelagem espessa, chifres desenvolvidos e camada subcutânea de gordura.

[Texto 22 262]

Léxico: «neotemperança»

Coisas novas


      «Andrew Langer, director do Centro para a Liberdade Regulatória da Fundação da Conferência Política Conservadora, classificou as novas directrizes como uma “posição de compromisso” entre “o movimento neo-temperança, que diz que as pessoas não devem beber nada, e outro grupo, que diz que o Governo dos EUA não deve fazer declarações sobre o álcool”» («Administração Trump elimina proposta para introduzir limites ao consumo de álcool em directrizes», Público, 9.01.2026, 14h56). 

      Já anda por aí desde a década de 1980, pelo que proponho  neotemperança SOCIOLOGIA atitude ou movimento contemporâneo que defende a abstenção total de bebidas alcoólicas, retomando princípios do movimento da temperança do século XIX mas enquadrando-os em preocupações actuais com a saúde pública, os riscos do álcool e o papel do Estado na regulação de comportamentos individuais; distingue-se da temperança histórica pelo afastamento de fundamentos religiosos ou morais e pela ênfase em evidência científica e políticas de saúde.

[Texto 22 261]

Léxico: «merogueiro | merogo»

Dicionários fora dos dicionários


      Não estão nos dicionários, mas depois o país real conhece-as e usa-as diariamente, essa é que é essa: «É que numa das bancas da feira Isaltino [Morais] encontrou a fórmula para a vitória do candidato nestas presidenciais: “Merogueiro ‘prà’ próstata.” Porque se a coisa não vai lá com ervas medicinais, então não vai com nada. Mas se der resultado, daqui para a frente é sempre a subir!» («Gouviagra e Melo», Sónia Dias, Correio da Manhã, 14.01.2026, p. 22).

[Texto 22 260]


Léxico: «cereulide»

Recomecemos aqui


      «Nestlé est retombé dans des eaux très agitées depuis une semaine. A la suite d'une anomalie dans plus de dix de ses usines, notamment aux Pays-Bas et en Allemagne, liée à un problème de qualité sur un ingrédient d’un de ses fournisseurs, le géant suisse de l’agroalimentaire a procédé tout début janvier à un rappel volontaire de certains de ses laits pour nourrissons. La raison? La présence potentielle d’une substance d’origine bactérienne : la céréulide. Celle-ci est susceptible de provoquer chez les bébés des troubles digestifs, comme des diarrhées et vomissements» («Chez Nestlé, les rappels de laits infantiles virent au cauchemar», Olivia Détroyat, Le Figaro, 13.01.2026, p. 23).

      Apareceu, logo proponho  cereulide BIOQUÍMICA toxina peptídica termoestável produzida por certas estirpes da bactéria Bacillus cereus, responsável por intoxicações alimentares do tipo emético (com vómitos) associadas sobretudo ao consumo de arroz, massas ou leite contaminados; actua como ionóforo de potássio nas mitocôndrias, induzindo disfunções metabólicas e distúrbios gastrointestinais agudos, incluindo náuseas, vómitos e, em casos graves, danos hepáticos. 

      Quanto à etimologia, vem do latim científico [Bacillus] cereus, nome da bactéria em que a substância foi identificada, com o sufixo ‑ide usado para compostos químicos e bioquímicos.

[Texto 22 259]


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