Prefixo «anti»

O elemento da direita

      No fim de Setembro passado, uma consulente, Elisabete Cataluna, perguntou ao Ciberdúvidas: «À luz do novo acordo ortográfico, o prefixo anti une-se sempre à palavra que antecede, excepto se esta iniciar com h ou com a mesma letra com que acaba o prefixo. Contudo, segundo averiguei, a palavra anti-stress continua a escrever-se com hífen. Porquê? Compreendo que seria impensável, em português, aceitar “antisstress”, mas creio que poderia ser aceitável aceitável “antistress”.» Respondeu Sandra Duarte Tavares: «Segundo o novo Acordo Ortográfico, usa-se sempre hífen quando o elemento da direita é um estrangeirismo, pelo que anti-stress deve ser grafado com hífen.»
      Dito assim, tão peremptoriamente, até parece que o texto do Acordo Ortográfico de 1990 consigna esta regra ­— mas já aqui desafiei a jornalista Ana Sofia Rodrigues a dizer onde encontrou essa regra, mas não me respondeu. (Querem prescindir do hífen? Escrevam, se tiverem coragem, «antistresse».)

[Texto 564]

Jornais

Eventualmente

      «Vários leitores», escreve o provedor do leitor do Público na edição de hoje, «têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da “tradução” literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado “Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença” (edição on line, 6/9).
      A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: “Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra”. A leitora argumenta que “esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)”. Admite que a expressão “menos e menos” (em vez do português “cada vez menos”) tenha resultado do “less and less” inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase”, pois em bom português ter-se-ia escrito “há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas”. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de “traduzir” o vocábulo inglês “eventually” por “eventualmente”» («Traduções mal feitas e outros equívocos», p. 55).

[Texto 563]

«Info-excluído/infoexcluído»

Com ou sem

      «Eu ia dizer uma tolice, que era, se eu mandasse, as escolas abriam hoje a ouvir o discurso de Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford. É para ver como sou velhadas e tenho de pensar duas vezes para me dar conta que, ontem, os jovens foram ao YouTube ouvir esse discurso inspirador. Sendo que é melhor ter Jobs em pessoa, no meu ecrã, em vez de aula obrigatória. Eu, infoexcluído militante (desligar e voltar a ligar é o mais longe que vou na resolução dos problemas de computador), descubro na vida e obra de Steve Jobs o sentimento raro que já encontrei ouvindo – eu, ateu – uma missa de rito caldeu na Basílica de São Pedro» («O homem que cuidou dos pormenores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2011, p. 56).
      Nos dicionários da Porto Editora, a grafia registada é com hífen: info-exclusão. Neves Henriques chegou a sugerir que se preferisse inforexclusão para evitar o hiato.

[Texto 562]

Léxico: «cubre»

Ilha das Flores

      «Metrosídero», enfim, não me surpreende que não tenha sido até hoje acolhido pelos dicionários gerais da língua portuguesa — mas «cubre»? Meu Deus, até dá nome à fajã da Ribeira Seca. Fajã dos Cubres. O certo é que há termos bem mais exóticos, invulgares e usados com menos frequência nos dicionários.

[Texto 561]

«Não se o»

Olha, olha

      «La única excepción a este castigo por encubrimiento [...] en tal caso, si para acreditar la exceptio veritatis debe aportar documentos obtenidos mediante violación del secreto de la investigación, no se le persigue como encubridor». E os tradutores? «Não se o perseguirá pelo favorecimento pessoal». Onde é que eu já vi isto?

[Texto 560]

«Tranquilizador»/«tranquilizante»

Mas cada um

      «O primeiro-ministro, um ou outro ministro e vários comentadores voltaram a manifestar preocupação de que a crise pudesse degenerar em violência como na Grécia. Não há segurança nenhuma de que não degenere, mas talvez seja tranquilizante pensar que a Grécia é um país novo (até ao princípio do século XIX fazia parte do império turco), que recentemente sofreu uma invasão alemã (o que não o tornou muito germanófilo) e passou depois por uma resistência generalizada ao nazismo, por uma guerra civil e por uma ditadura militar» («Violência?», Vasco Pulido Valente, Público, 8.10.2011, p. 36).
      Há outros pares de adjectivos («contagioso»/«contagiante», v. g.) à primeira vista intermutáveis, mas depois verifica-se que cada um tem um uso mais específico. No caso, eu usaria «tranquilizador» e não «tranquilizante» (que, como substantivo, também é o medicamento de acção neurossedativa usado nas situações de ansiedade e de emotividade).
[Texto 559]

Garrett

Digam-lhe, que ela é nova

      «No Cartaxo, [o Presidente da República] citou uma conversa de Almeida Garrett com o dono do café da terra para deixar um aviso.» E a repórter da RTP, Daniela Santiago, quis que o nome do escritor rimasse com café: Garré. Este bem dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.

[Texto 558]

Tradução

Omissões e comissões

      Ne sutor ultra crepidam, claro, bem sei — mas o original não está igualmente mal escrito? Um exemplo: «la comisión de una conducta punible, etc.». «Comissão de uma conduta»? Não deveria antes ser «comisión de un hecho punible»? É que, assim, nem tradutores bons fazem obra razoável, quanto mais maus tradutores. E agora, corrijo o original (oh sacrilégio!) ou vou à praia?
[Texto 557]

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