O Público errou

Colonia e colónia

      «Um erro na revisão final do texto “O poder de Alberto João Jardim à lupa”, publicado ontem, levou à colocação de um acento na palavra “colonia”, transformando esta em “colónia” e deturpando as duas referências feitas nesse texto ao “regime de colonia” que, segundo um dicionário, foi “um contrato entre o colono e o proprietário, na Madeira, pelo qual o colono perdia o direito às benfeitorias prediais”. As nossas desculpas aos leitores e ao advogado Cabral Fernandes» («O Público errou», Público, 3.10.2011, p. 30).
      Não corrigem as «exonerações da culpa», mas atrevem-se a pôr acento onde não devem. A ignorância dá nisto. Claro que o vocábulo não estar registado em alguns dos dicionários mais usados também contribui, e de que maneira, para estes disparates. E aquele «segundo um dicionário» também tem muito que se lhe diga. A citação é do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — e deviam tê-lo referido.

[Texto 543]

Tradução: «exoneration»

E ainda falam

      «Há quatro desfechos possíveis para o caso de Amanda Knox, uma estudante norte-americana condenada pelo assassínio da sua colega de quarto na cidade italiana de Perugia, em Novembro de 2007. Mas só um é aquele [sic] que Amanda espera ouvir hoje, quando o tribunal de recurso anunciar a sua decisão: a exoneração das queixas, que lhe permitirá sair em liberdade» («Amanda Knox sabe hoje se sai em liberdade ou fica presa», Rita Siza, Público, 3.10.2011, p. 11).
      A falta de ponderação quando se está perante um falso cognato leva a estes disparates. Rita Siza e os copidesques do Público acham que em português é assim que se diz? Então, traduzam também esta frase: «The accused was exonerated by the Grand Jury.»
[Texto 542]

«Alma mater»

De alma penada

      Se alguém apresenta certa característica peculiar, dizemos que é a sua marca de água (ou marca d’água, como decerto os Brasileiros preferirão) ou a sua marca registada? Pois é, consultem um dicionário, por exemplo, o da Porto Editora, e depois dizem-me. Ah, as expressões... No Império dos Sentidos, da Antena 2, Paulo Alves Guerra volta não volta refere-se à pessoa que criou ou dinamiza um determinado acontecimento cultural (festival de música, por exemplo), agrupamento (Shostakovich Ensemble, por exemplo), etc., como a alma mater do referido acontecimento ou agrupamento. Caro Paulo Alves Guerra, então a expressão latina não é usada hoje em dia exclusivamente para designar a universidade que nos formou? A mãe que nos alimentou ou nutriu. A expressão começou a ser usada na língua inglesa logo no início do século XVII, ao que parece. A propósito, vale a pena lembrar que alumnus (alumni) em inglês, não é aluno — mas ex-aluno. Mais um falso amigo a fazer escorregar em falsas traduções.
[Texto 541]

«Deprimido/depressivo»

Antidepressivos e ansiolíticos

      No Telejornal de hoje: «No corre-corre da incerteza, mais de 700 mil portugueses sofrem da doença. O País regista assim a maior taxa da Europa, e no mundo, só mesmo os Americanos andam mais depressivos.» São sinónimos, «deprimido» e «depressivo»? Parece que sim. Pelo menos é o que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «indivíduo com tendência para a depressão».

[Texto 540]

Redundâncias

Caladinho era melhor

      «Eu vou ler-vos uma declaração», disse Isaltino Morais junto de sua casa, em Miraflores. E leu. «Provavelmente, ao longo da minha vida, tomei algumas decisões erradas. Não sou o único.» Etc. Para meu espanto, o repórter da RTP José Manuel Levy, muito mais nervoso do que o autarca, repetiu quase tudo o que Isaltino Morais tinha dito. Isto é jornalismo? Para que servem estes comentários, quase paráfrases? E ainda dizem que o tempo em televisão é precioso...

[Texto 539]

Nomenclatura científica

Afinal, pouco mudou

      «Aparentemente inofensiva, a espécie Achatina Fulica transporta ocasionalmente um parasita que causa meningite nos humanos» («Miami luta contra praga de caracóis africanos gigantes», C. R. F., Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 26).
      Voltamos aos erros de sempre. E ainda eu escrevia no Assim Mesmo, em Março deste ano, que a «nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas». É Achatina fulica que se escreve, caro C. R. F. A razão, se quiser sabê-la, encontra-a naquele blogue ou noutro sítio.
[Texto 500]

Erros

Nem vamos ver nem obrigado

      «O degelo e consequente perda da cobertura gelada da Groenlândia não são afinal tão drásticos como se pensava e, por isso, o mais recente Atlas do Mundo, publicado pela Times Book e considerado uma referência a nível mundial, dá uma visão incorrecta daquela região» («Erro no ‘Atlas do Mundo’ da Times Book», Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 30).
      Isto é pasmoso: quanto mais tecnologia, mais erros. E o atlas só custa cerca de 200 euros. Julian Dowdeswell e um grupo de cientistas do Scott Polar Research Institute, da Grã-Bretanha, enviaram uma carta à editora em que afirmaram, pois é o que se pode ver em imagens de satélite recentes, que a diminuição da cobertura gelada não foi tão acentuada, mas a editora desculpou-se: os dados a que recorreu são os do National Snow and Ice Data Center (NSIDC) norte-americano.
      (É uma curiosidade que sinto há muito: será que quem opta por escrever Groenlândia também diz Groenlândia? Algo me diz que não.)

[Texto 499]

Como se escreve nos jornais

Meteorologia popular e dicionário

      «O relâmpago, afinal, caiu duas vezes no mesmo sítio» («Pearl Jam e o ‘grunge’ em filme vinte anos depois», Rui Pedro Tendinha, Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 47).
      Depois do relâmpago de Filomena Naves, o relâmpago de Rui Pedro Tendinha. Como é que se pode confundir raio com relâmpago? Este é apenas o clarão vivo e rápido que acompanha a descarga eléctrica — o raio propriamente dito. Difícil? A deturpação de Rui Pedro Tendinha alude à crendice popular de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
[Texto 498]

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