Tradução: «marronage»

Serve

      «E assim a marronagem histórica...» É cópia do francês marronage, que designa o acto de os escravos se evadirem (a que, actualmente, se acrescentou a acepção de resistência à cultura dominante). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora dá como tradução de marronage «exercício ilegal de uma profissão», «fuga, evasão de escravos». Marron é, em francês, castanho, como sabem, mas pelo mesmo vocábulo também se designava o fugitivo, o gentio, o ilegal e o clandestino. Ora, não é raro ver, em especial em autores brasileiros, para referir a mesma realidade, a palavra, que a maioria dos dicionários não regista, «quilombolismo».
[Texto 385]

Como se fala na televisão

É da pura emoção

      Nos tumultos na Grã-Bretanha, disse a jornalista Margarida Neves de Sousa, que estava ontem em Croydon, a sul de Londres, morreu um homem de 26 anos. «Mas há uma segunda pessoa, que está neste momento em perigo de vida no hospital, eu falo do homem na casa dos seus 60 anos, com graves lesões na cabeça por ter sido, digamos assim, batido com um bastão de metal quando tentava proteger também a sua loja.»
      Agora todos sofrem: as crianças abusadas e os homens batidos. E sofre a gramática, como escreveu Monteiro Lobato nas Cidades Mortas, umas tantas marradas.
       Vejam se vislumbram alguma semelhança com este «batido»: «Era ministro do Interior um militar, homem façanhudo, que, por hábito profissional e ainda por ter sido batido na guerra de Marrocos, só na fôrça acreditava» (A Curva da Estrada, Ferreira de Castro. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960, 1960, p. 90).
[Texto 384]

Linguagem

Essa é boa

      Disse-lhe que Úrano (ou Urano, como alguns querem) tem 27 luas, todas com nomes retirados da obra de Shakespeare, como Cordélia, Ofélia, Bianca, Puck, Rosalinda, Desdémona, etc. Surpresa e pergunta: «E Shakespeare foi buscar esses nomes às luas?» E aqui alguém, traduzindo, escreveu: «Charon era o barqueiro que transportava as almas através do rio Styx

[Texto 383]

Acordo Ortográfico

Pois parece

      Fernando dos Santos Neves, criador da primeira licenciatura portuguesa de Ciência Política, tem na edição de hoje do Público as «Onze Teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico». Eis a segunda «tese»: «O “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” quer ser isso mesmo e nada mais: um acordo sobre a ortografia e não um acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto (que é, indubitavelmente, o mais importante) que constitui uma língua viva e, ainda por cima, uma língua potencialmente universal como a língua portuguesa e até uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI, como já Fernando Pessoa anteviu nos princípios do século XX.»
      Parece mentira, mas há quem — mesmo professores, a um mês de terem de ensinar a nova ortografia — não saiba isto. Claro que, ao contrário do que parece decorrer do texto, não é isso, ser «meramente» um acordo ortográfico, que o torna inócuo. E por mentiras: afirmar-se que vai contribuir para a unificação da língua portuguesa é uma grande mentira, que só o tempo, e não será decerto o nosso, vai desmascarar.

[Texto 382]

Ortografia: «binariedade»

Também falta

      «La binarité n’est pas...» «A binaridade não é...» Pois não, a «binaridade» não é, ou seja, não existe. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, decerto que o mais usado entre nós, não regista o termo, o que explica, pelo menos em parte, que mesmo profissionais da palavra, como um tradutor, vão atrás do francês.
      Já tinha proposto a mnemónica no Assim Mesmo: se o adjectivo do qual deriva o substantivo abstracto (isto é, os que designam acções, noções, estados e qualidades) termina em -io (tais como -ário, -ório ou -úrio), o substantivo terá um e entre o i e o d, regra que já vem do latim. Assim, será binariedade.

[Texto 381]

Ensino

O sujeito foi-se

      «O grupo cicatrizava-se depressa, mas o garoto, com a alma pesada, andava quilómetros para tornar a ver os seus amigos, os lugares felizes, e de cada vez era mais difícil reconstituir a antiga comunhão, até que vinham a indiferença e a hostilidade e o rapaz desaparecia definitivamente, talvez ajudado por amizades novas e novas terras.»
      É um excerto da obra A Bagagem do Viajante, de José Saramago (Lisboa: Editorial Caminho, 2.ª ed., 1986). Constava na prova escrita de Português do 12.º ano realizada em Junho. À pergunta em que se pedia que se identificasse a função sintáctica desempenhada pela expressão «a indiferença e a hostilidade», só 20 % dos alunos responderam bem. Para João Costa, um dos autores da revisão da TLEBS, este descalabro veio precisamente mostrar que não é a mudança da terminologia que está em causa pois o termo «sujeito» «está inalterado desde Aristóteles e devia ser conhecido dos alunos desde o 3.º ou 4.º ano de escolaridade». Eu vejo as coisas de forma diferente: se os alunos não dominam matéria tão elementar agora, muito pior será com a alteração da terminologia. Só numa frase como «O sujeito foi-se» é que a situação se invertia. Invertia, reparem: ainda assim, 20 % dos alunos não saberiam que «sujeito» era sujeito.
[Texto 380]

Revisão

Há sempre uma primeira

      Com os anos que já levo de revisor, nunca tinha sido referido, num contrato (das raríssimas vezes em que há contrato) por «criador intelectual». E também nunca me tinha acontecido que, numa tradução, uma personagem secundária aparecesse no início como radiologista e mais para o fim como psiquiatra. Autor, revisor e tradutor não viram o erro. Tenho outras histórias bem interessantes (algumas só posso contar nas minhas memórias), mas esta talvez as supere na cegueira que revela.
[Texto 379]

Linguagem

Ainda bem que fala nisso

      «Das coisas que mais custa ver é uma pessoa inteligente e criativa, quando nos está a contar uma opinião ou um acontecimento, ser diminuída pela falta de vocabulário — ou de outra coisa facilmente aprendida pela educação. A distribuição humana de inteligência, graça, sensibilidade, sentido de humor, originalidade de pensamento e capacidade de expressão é independente da educação ou do grau de instrução. Em Portugal e, ainda mais, no mundo, onde as oportunidades de educação são muito mais desiguais, logo injustamente, distribuídas, é não só uma tragédia como um roubo» («A devida educação», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.08.2011, p. 33).
      «Uma das que mais custa»? E o vocabulário aprende-se através da educação ou da instrução?

[Texto 378]

Arquivo do blogue