«Mau como as cobras»

É sempre bom ver

      Mais uma daquelas expressões que se repetem em diversas línguas: «He was brilliant in battle and mean as a snake to everyone around him.» «Era um guerreiro brilhante, e mau como as cobras para todos os que o rodeavam.»
      «Fartavam-se, por exemplo, de esperar aqueles monarcas antigos, maus como as cobras, mas que deixaram tantas rasas de dobrões à Igreja que fechar-lhes a porta equivaleria a deitar abaixo todos os estatutos do penitológio romano» (Humildade Gloriosa, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1954, p. 307). (Ah, sim, e «penitológio», que os dicionários também não registam, é termo muito da predilecção de mestre Aquilino, ou não fosse ele ex-seminarista.)

[Texto 377]

Tradução: «mantelpiece»

[Mantelpiece.jpg]

Outra solução

      «On the mantelpiece is a photograph in Lucite of two old people I don’t know.» «Por cima da lareira...», verteu o tradutor. É outra solução, em vez de cornija ou lintel da lareira. Bem melhor, na verdade, que «prateleira da lareira» ou, abrenúncio!, «escarpa da lareira».
[Texto 376]

Tradução: «tilt-a-whirl»

Maluca é, de certeza

      «The big round cars for the Tilt-a-Whirl…» «As cabines enormes e redondas do Tilt-a-Whirl…» Hã? Este divertimento de feira não tem nome em português? Estou mesmo a ouvir um miudito alentejano a dizer à mãe que quer andar no tilt-a-whirl... No ProZ, sugerem «xícara maluca» (já ouviu, caro Paulo Araujo?) ou, para Portugal, «cadeira maluca».

[Texto 375]

Léxico: «rami»

Afinal, não é chinês

      A minha mulher veio agora mostrar-me uma camisola muito bonita. Pôs-se a ler a etiqueta, o que nela é quase um ritual. Deixo-me sempre rir. «Tem ramie, diz aqui. O que é?» Pois, também não sei. Cá está: é uma fibra natural. «A mais longa, resistente e sedosa das fibras vegetais», lê-se no Dicionário Houaiss. Claro, a etiqueta não está em português. Em português escreve-se «rami» (Boehmeria nivea), o arbusto, a fibra e, por metonímia, o tecido fabricado com essa fibra. A etimologia, segundo aquele dicionário, é malgaxe. Corre mundo, como seria de prever, a forma anglicizada ramie.
[Texto 374]

Dicionários

Dicionários...

      Há dias perguntaram-me se o vocábulo «porcalhice» era regionalismo. Não compreendo porque não está dicionarizado. Vejam, por exemplo, os vocábulos relacionados com «pátria» e «patriota». Num breve périplo pela obra de Eça de Queirós, Rui Barbosa ou Fialho de Almeida, podemos encontrar os derivados «patriotaça», «patriotada», «patriotador», «patriotagem», «patriotarreca», «patriotasno», «patrioteiramente», «patrioteiro», «patriotice», «patriotinheiro», «patriotista»... Quantos destes podemos ver acolhidos nos principais dicionários? E os que não estão deviam estar?
[Texto 373]

«Empregue/empregado»

O horror! O horror!

      «O meu amigo Pedro Ayres vinha a Colares e sugeriu que nos encontrássemos no Café da Várzea, para nos cumprimentarmos. Há décadas que não ouvia este verbo — cumprimentar — bem empregue. Mas foi o que fizemos. Bebemos e comemos cafés e queijadas; falámos disto e daquilo — enfim, cumprimentámo-nos bem cumprimentados» («A chuva dos patos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 3.08.2011, p. 31).
      É, no mínimo, estranho, parece-me, dizer-se «bebemos e comemos cafés e queijadas». E no máximo, pergunta o leitor? Errado. Quanto ao «empregue», já estou a ouvir Montexto exclamar, escamado: «O horror! O horror!» E podia ou não fazer o favor de nos dizer que citava Kurtz. Remataria: «Grassam grossas e grosseiras as formas “foi empregue, foi encarregue”.»
[Texto 372]

Léxico: «reptação»

Coisa de cobras

      «La Traite passe par la porte étroite du bateau négrier, dont le sillage imite la reptation de la caravane dans le désert», lia-se no original. E a tradução: «O Tráfico passa pela porta estreita do barco negreiro, cuja esteira imita a reptação da caravana no deserto.» No caso, o que nos interessa é somente o vocábulo «reptação», que não se lê muito por aí. No contexto, é o acto ou efeito de reptar, de rastejar, como uma cobra faz. Reptação, porém, é polissémico. Também significa, como se lê na Infopédia, «num sentido amplo, é a migração lenta de materiais móveis, em geral detritos de pequena dimensão, numa vertente de fraco declive, em que ocorre um deslize e agrupamento de partículas umas em relação às outras. É também o deslizamento lateral de grãos de areia, cuja causa é o choque repetido de outros grãos de areia arrastados pelo vento. Segundo alguns autores, pode considerar-se reptação o deslizamento linear e individual de detritos de pequeno tamanho no fundo dum talvegue de um rio».

[Texto 371]

Tradução: «usher»

Muito medieval

      «She was being a bridesmaid and he an usher at a wedding there...» «Ela fora dama de honor e ele escudeiro num casamento que se realizara lá...» «Escudeiro» não me soa. «The role of the usher», leio aqui, «was traditionally given to a family member of the groom but in these modern times ushers have also been members of the brides family or close friends. To every 50 guests there should be an usher.» Não será mais adequado traduzir por «mestre-de-cerimónias»? Por outro lado, se dama de honor nos remete de imediato para casamento, também é verdade que começou por ser a dama que assistia, junto da rainha ou princesa, a certas solenidades e recepções da corte.
[Texto 370]

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