Tradução

Um achado, acho

      Encontrar a correspondência adequada de frases feitas, provérbios e idiomatismos entre duas línguas nem sempre é fácil ou possível. Acabo agora de ler esta frase numa obra em inglês: «They’ll put two and two together and get five.» O tradutor, que ainda não sei quem é, e logo que saiba prestar-lhe-ei aqui a devida homenagem, verteu assim: «São capazes de dizer que Deus não é Deus...»
[Texto 284]

Ortografia: «maldisposto»

Nem a copiar, caramba

      «O dicionário de Inglês-Português reza assim: “Taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal-disposto, sorumbático.” Enfim, mal-humorado. Diz também que é um adjectivo. A expressão inglesa “to be moody” vem descodificada como “ter caprichos de comportamento. Por exemplo, apetecer a alguém atirar com tudo para o lixo. Se falarmos no nome próprio Moody’s (bastante adequado ao desempenho), percebe-se imediatamente a má disposição generalizada dos portugueses por estes dias. Alguns até padeceram de problema de estômago. Para “mal-humorado”, o dicionário de Português-Português regista as seguintes explicações: “Que tem humores mórbidos”, “agressivo”, “intratável”. Os “mal-dispostos” de que aqui se fala já em Abril tinham atirado para o “lixo” (grau de investimento equivalente a junk bonds) a Parpública, a Refer, a RTP e a CP» («Palavras. Moody», Rita Pimenta, Pública, 10.07.2011, p. 11).
      Que bons dicionários que a jornalista anda a consultar e que bem que ela conhece a ortografia da língua portuguesa.
      A propósito de maldispor e de dislates. Ainda na sexta-feira passada li uma convocatória redigida por uma professora de Português e um derivado de «pôr» tinha o infinitivo com acento circunflexo. Uma professora de Português! Quando é que aprendem de uma vez por todas, professores, jornalistas, tradutores, revisores, toda a agente, que, no infinitivo, o verbo pôr é acentuado, porque se convencionou distingui-lo da preposição por, mas os derivados de pôr já não são marcados com acento? Antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, maldispor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.
[Texto 283]

Sobre «verve»

Não brinque

      Foi na obra de Eça que aprendi, tenho a certeza, a palavra «verve». O vocábulo, que também veio de paquete do Havre, é polissémico: verve é entusiasmo e inspiração na criação artística; verve é a graça e a vivacidade características de uma pessoa; verve é sentimento de vida. Tudo isso é verve. O próprio Eça, o escritor, era animado de verve. Qual o meu espanto ao ler no Público, a propósito de Fernando Nobre, isto: «Lembram-se dos discursos cheios de verve contra os partidos, da apologia dos valores e do apelo à participação dos cidadãos na vida democrática?» Tirando aqueles deputados, muitíssimos, que chegam ao Parlamento guindados pelo caciquismo, tão vivaz agora como no século XIX, nulidades a quem, graças a Deus, jamais ouvimos uma frase, nunca mas nunca apareceu na vida política portuguesa alguém tão pouco fadado para falar em público como Fernando Nobre. Não vejo que qualquer das acepções do vocábulo tenha sido empregada com propriedade pelo autor do texto — mas disso já o ex-deputado médico não tem a culpa, antes o jornalista, que usa mal as palavras, que não lhes toma o peso.
[Texto 282]

Sobre «tambor»

Curioso

      «She was a Doane, and Grandfather Doane had been a drummer boy in the Mexican War and had a Congressional Medal of Honor from the Civil War» (Appointment in Samarra, John O’Hara. Londres: Vintage Books, 2008, p. 5). Não é curioso que ao indivíduo que toca determinado instrumento se dê o nome do instrumento? Em português também: «Foi tambor no exército do general Hoche, durante a campanha do Palatinado» (Razões de Coração, Álvaro Guerra. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p. 18). Haverá outros casos assim?
[Texto 281]

«(In)legitimidade»?

Outra querela — se quiserem

      Na secção «Cartas à Directora» do Público, José Mário Costa responde hoje ao jornalista Luís Miguel Queirós. Logo no início, escreve: «Não me insurgia aí [na carta «Sobre o “presidento” e a “presidenta”»], obviamente, contra a sua opinião pessoal sobre a (in)legitimidade do uso da palavra “presidenta”, mas contra a forma como, nesse primeiro texto, enquanto jornalista, lhe cabia tratar, de forma distanciada, uma questão linguística que divide especialistas, em Portugal como no Brasil.» Desde quando é que, para indicar o antónimo de «legitimidade», se pode escrever o prefixo in-, que nem sequer fez parte, na língua portuguesa, da formação do vocábulo, que recebemos já do latim? Que grande equívoco.
[Texto 280]

Sobre o Indostão

Que algum repúblico

      «Os irmãos paquistaneses Achiq (o cabecilha do grupo), Kashif e Atif são acusados de recrutar portuguesas para casar com homens indostânicos (paquistaneses e indianos)» («Juiz adia decisão», C. N., Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 23).
      É impressão minha ou a definição de Indostão (ou Hindustão) anda por aí mal redigida? Quase a propósito: como se grafa o nome da república de Coimbra: Prà-Ki-stão, Prakistão, Pra-ki-estão, Pra-ki-stão?... Que algum repúblico (Quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista a acepção?!) me esclareça.
[Texto 279]

Ortografia: «bejeca»

Com os copos

      No Verão, escreve o nosso autor, a venda de «bujecas» dispara. Mas não: é bejeca que se diz e escreve. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista que é alteração de «[cer]vejeca, diminutivo de “cerveja”», e que é vocábulo «informal». É calão, lê-se no «Temanet», no sítio do Instituto Camões. O seriíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se mete nestas coisas.
[Texto 200]

Léxico: «sinobloco»


Assim percebemos


 


 

      Vou comprar um BMW ActiveHybrid X6. (Branco, é mais barato.) Não tenham inveja, não é para já. Primeiro tenho de gastar o Škoda. Na oficina disseram-me que tenho de mudar os sinoblocos. «Repita lá, por favor.» Repetiu. «Essa não está no dicionário.» «Desculpe?» Não está mesmo registado em nenhum dicionário que eu tenha. (E amanhã não vai para o Priberam, porque é feriado, Corpus Christi.) Os sinoblocos são peças de borracha que servem para absorver as vibrações da suspensão. Em inglês, silent block, «bloco silenciador». Ora, era demasiado complicado para a maioria dos mecânicos portugueses. Ficou «sinobloco».

[Texto 199]

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