«Reverter uma decisão»!

É bárbaro

      Vejam esta: «O Supremo Tribunal dos Estados Unidos decidiu ontem, por unanimidade, reverter uma decisão de um tribunal de recurso da Califórnia e impedir que as funcionárias da cadeia de distribuição Wal-Mart pudessem apresentar uma acção colectiva por alegada discriminação com base no género contra a empresa» («Supremo recusa queixa por discriminação contra Wal-Mart», Público, 21.06.2011, p. 21).
      Reverter é voltar ao ponto de partida; retroceder; regressar — o que certos jornalistas deviam fazer, regressar às carteiras da escola primária. Então o verbo adequado no contexto não é «anular»? No nosso sistema judicial, o Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, anularia a decisão recorrida e ordenaria a baixa dos autos a um tribunal da Relação. Algum jurista nos confirmará se é assim exactamente.
[Texto 198]

«Si mesmo»

Themselves

      «Qualquer frase pode conter uma falsidade. Mas as palavras em si mesmo não mentem.» Há muito venho reparando que mesmo falantes que deviam ser qualificados, como tradutores e jornalistas, entendem «si mesmo» como sendo invariável. Santo Deus, não é! Si mesmo, si mesma, si mesmos, si mesmas. Na oralidade, é tolerável, mas na escrita, é imperdoável.
      «Porém todas estas coisas, verdadeiramente grandes e espantosas e nunca vistas, ainda que na primeira apreensão parecem muito para temer, bem consideradas em si mesmas, e em seus efeitos e fins, antes são muito para sossegar, e aquietar os ânimos, que para intimidar ou perturbar» (Sermões, tomo III, António Vieira. Lisboa: Editores J. M. C. Seabra & T. Q. Antunes, 1854, p. 339 [Actualização ortográfica minha]).

[Texto 197]

Ortografia: «maria-vai-com-as-outras»

Ora pois

      «Foi o meu grande amigo Rui Zink, corrigivelmente de esquerda, o primeiro a descobrir Pedro Passos Coelho como um agente do nosso futuro. Foi no Algarve, há muito tempo. Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu — que sou uma Maria-vai-com-as-outras, nem que seja por uma questão de educação» («Ora pois», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.06.2011, p. 39).
      A frase fica assim: «Convenceu não só a Maria João, já convencida, como o Manuel Serrão e eu»? No texto todo (citei somente um excerto), também faltam algumas vírgulas. E é maria-vai-com-as-outras que se escreve — temos de impedir que os computadores nos ensinem a escrever. (É pena os revisores continuarem a ter medo do simpático Miguel Esteves Cardoso.)

[Texto 196]

Tradução: «night club»

Os morfinómanos do clube nocturno

      Aqui a nossa protagonista cantava «folksongs in a night club». O tradutor quer que seja numa discoteca. Há trinta anos, teria certamente traduzido por «boîte» (ou «boate», como também se lê por aí, adaptado pelos Brasileiros). Mas no caso, a história passa-se nos anos 30, dir-se-á melhor «clube nocturno», creio. São, decerto, os três locais de recreio onde se pode ouvir música, dançar e tomar bebidas, mas há diferenças quanto aos períodos em que se usaram ou usam.
      «O palco desta mudança era o clube nocturno. Se, até à guerra, “o máximo de desequilíbrio boémio de Portugal era o abuso de licores”, depois “e com o falso e verdadeiro cosmopolitismo […], importamos um carregamento completo de drogas”» (Os Nightclubs de Lisboa nos Anos 20, Júlia Leitão de Barros. Lisboa: Lucifer Edições, 1990, p. 76).

[Texto 195]

Tradução: «mansions»

Porque há quem se esquece

      Muito bem: mansion é, além de casa senhorial, termo que se começou a usar no século XIV, também, no plural, sabe-se lá porquê, prédio de apartamentos. Contudo, na tradução, é preciso ver se não é no singular (e habitualmente é) que se tem de traduzir: «o prédio». Quanto a «block of flats», dir-se-á melhor «prédio de apartamentos».
[Texto 194]

«Brande/brandy; uísque/whisky»

No brandy this time, dear?

      Já sabem, porque eu já contei, que em certas editoras se proíbe o aportuguesamento «uísque». Em relação a «brande», nunca vi nada. Mas agora pensem: na mesma página o tradutor escreveu «uísque» e brandy. «Uísque» será mais usado do que «brande»? É motivo suficiente para se admitir, numa tradução do inglês, o primeiro e rejeitar o segundo? Uma boa questão. Brande, só se for Brande-Hörnerkirchen.

[Texto 193]

Concordância com percentagens

Pior do que Por uma Vida Melhor

      Esqueçam a cruzada contra o Acordo Ortográfico de 1990. Resolvam estes problemas: «Numa sondagem da “Metroscópia”, 81 por cento dos inquiridos considerava que os “indignados” tinham razão, e 84 em cada 100 opinava que as preocupações do movimento correspondiam aos problemas reais dos cidadãos» («Os “indignados” chegaram a uma encruzilhada», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2011, pp. 2-3).
      Quando o sujeito é composto por uma expressão de percentagem no plural (no caso, «81 por cento») seguida de um termo preposicionado (no caso, «dos inquiridos»), o verbo concorda com o termo preposicionado que especifica a referência numérica: se o termo estiver no singular, o verbo vai para a 3.ª pessoa do singular; se estiver no plural, vai para a 3.ª pessoa do plural. Difícil? Em «84 em cada 100 opinava», ainda é mais flagrante a necessidade de haver concordância. Embora nesta oração se omita o especificador, mais óbvio, se assim podemos dizer, se torna a necessidade de o verbo concordar com o número.
      Última nota: uma «sondagem da “Metroscópia”» é equivalente, imagino, a uma «sondagem da “Marktest”»... O nome é Metroscopia, e, sendo um instituto de investigação social e de opinião, não precisa de aspas.
[Texto 192]

Acordo Ortográfico

O denunciante denunciado

      Hoje já ninguém se lembrará, mas ontem não terão sido poucos os leitores do Público que terão pensado como o texto de Nuno Pacheco estava escrito assim-assim mas mal pensado. E, por paradoxal que possa parecer afirmá-lo aqui, teria sido preferível o contrário. Vejamos. O título já prometia vindicta ou denúncia: «O caçador caçado». Começa assim: «Há muitas maneiras de dizer isto. Buscar lã e ser tosquiado, virar-se o feitiço contra o feiticeiro, caçador caçado. O significado é o mesmo, só as palavras mudam. No caso, retrata bem uma polémica que estalou no Brasil há mais de um mês e que ainda se desenrola, com estrondo mas sem desfecho à vista.» Refere depois o tal livro de que já aqui falei e entra então o «caçador caçado»: «Francisco Marins, presidente da Academia Paulista de Letras, escreveu e fez divulgar um texto inflamado onde acusa a “infeliz publicação” de aconselhar a que os alunos brasileiros escrevam, “sem nenhum castigo, mesmo em provas escolares, palavras e expressões de linguagem oral, chula, como estas: os menino pega peixes ou nois vai, nois vem, nois fica”.» Bem, parece-me meritório que alguém chame a atenção para os disparates que se vão fazendo. Nuno Pacheco, neste ponto, não parece divergir desta opinião. Introduz outra personagem secundária e prossegue assim: «O curioso é que tal polémica surja em plena aplicação do Acordo Ortográfico, pretensamente assinado para “facilitar” o ensino (no Brasil, dir-se-ia aprendizado).» Dá depois um exemplo irrelevante, para atingir o número de caracteres que lhe fora atribuído, e eis o parágrafo final: «Ora Francisco Marins, que tanto se indigna com o duvidoso livro, orgulha-se, na mesma missiva, de ter colaborado em Lisboa no Acordo Ortográfico, que mais não é do que, a pretexto da unificação linguística, a caixa de Pandora ideal para todos os erros, tergiversações e analfabetismos. É o caçador caçado. E na armadilha que montou.»
      Querem ver que a colaboração, independentemente de qual tenha sido, de Francisco Marins na redacção do Acordo Ortográfico deslegitima, para todo o sempre, qualquer intervenção sua relacionada com a língua no espaço público? E, vamos lá, não sou defensor do AOLP90, de que já apontei erros e lacunas e não estou sequer a aplicar, e preferia mesmo nunca ter de vir a fazê-lo, mas esta implicação (refiro-me à relação de consequência, não à embirração, que também transparece) não tem pés nem cabeça.
[Texto 191]

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