Género: «criança»

O Público errou


      «Crianças que sonham ser campeões», escrevem os detractores-mores do Acordo Ortográfico. Mas todos os dicionários da língua portuguesa — e se isto mudou, avisem-me, que eu peço outra nacionalidade — registam que o vocábulo «criança» é do género feminino. Não sucede o mesmo com «cônjuge», pois parece que já há para aí dicionários, e eu nem quero saber quais, que admitem ambos os géneros. Ainda pensei na possibilidade de estarmos perante um tipo especial de concordância, mas não. É erro, e erro crassíssimo. Emende-se: «Crianças que sonham ser campeãs». Vamos ver se amanhã aparece na secção «O Público errou».
[Texto 182]

Pronúncia: «euro»

Mais um

      Está agora a ser emitido, na Antena 1, o programa Visão Global, que tem como comentador permanente o ex-embaixador José Cutileiro. A moeda da União Europeia foi já referida mais de uma vez. Ora, José Cutileiro pronuncia a vogal da sílaba átona de «euro» como u. Eu tinha escrito, há uns tempos, que a jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, devia ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com o a soar, dada a posição de átona final, como u (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...).

[Texto 181]

Eurojust: género

Eurojust e IKEA

      É maioritária, e não somente na comunicação social, a atribuição do género masculino ao acrónimo Eurojust. No sítio desta instituição, designa-se a si mesma «a Eurojust», decerto por ter em conta o género do hiperónimo (Unidade Europeia de Cooperação Judiciária). Contudo, nem no âmbito das instituições da União Europeia a questão é consensual. Num texto da Comissão Europeia (aqui), Eurojust aparece treze vezes com o género masculino. Já vimos a mesma hesitação a propósito do nome IKEA.
[Texto 180]

Acordo Ortográfico

O acento diferencial

      Francisco Miguel Valada responde hoje no Público ao que José Mário Costa escreveu no mesmo jornal no dia 7 do corrente. Mas isso é o menos importante do texto. A argumentação acerca do erro que é suprimir o acento na forma verbal «pára» merece mais atenção, e os leitores decerto se lembrarão de que já várias vezes me referi, com exemplos, a esta alteração, que está a par de outras. Temos, porém, de convir que as consequências de suprimir o acento em «pólo» não serão as mesmas de o suprimir em «pára».
      «Há alguns meses, após ter apresentado uma comunicação no Instituto Franco-Português, em Lisboa, em seminário organizado pela União Latina, fui publicamente confrontado pelo senhor embaixador Lauro Moreira, defensor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO 90) e então embaixador do Brasil junto da CPLP, com o facto de insistentemente me referir à supressão do acento da flexão verbal “pára”. Tratava-se de reacção ao exemplo de que me munira: um título do PÚBLICO de 13/4/2009 (“Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio”). Após supressão do acento agudo, tal como prescrito pelo AO 90 na sua base IX, 9.º, qualquer leitor poderia ser induzido em erro, pois “para” tanto poderia ser preposição, como flexão verbal, com óbvias consequências sintácticas e semânticas de tal “simplificação” na frase em apreço.
      Nesse longínquo mês de Novembro de 2009, recorri a uma ficção para ilustrar as consequências nefastas noutros planos, para além do grafofonémico. Infelizmente, com a adopção acrítica, obediente e arbitrária do AO 90 por parte de alguns meios de comunicação social, a comedida simulação deu lugar a uma perceptível realidade. Um exemplo recente da RTP põe em causa valores fundamentais do elementar bom senso. Aparentemente, os comboios adquiriram o direito à greve.
      Com “greve na CP para comboios em todo o país”, como se pode ler em notícia da RTP, estamos perante a descarrilada hipótese de os comboios poderem fazer greve. Admite-se, desta forma, que a greve se aplique aos comboios e não a quem é responsável pela sua circulação, independentemente da forma verbal elíptica (neste caso, “convocada”). Assim, considerando que “para” funciona na perfeição como preposição, a frase “convocada greve na CP para comboios em todo o país” é perfeitamente plausível. Poderia ser gralha, mas não é. É determinação do AO 90.
      […]
     Quando S. Tomás de Aquino, no De ente et essentia, remetia para o Acerca do Céu de Aristóteles, manifestava uma das grandes preocupações de todos aqueles que reflectem sobre os actos e as acções: o pequeno erro inicial resultará, no final, num enorme erro. Uma supressão perfeitamente arbitrária de um acento numa flexão verbal, tornando-a homógrafa de uma preposição, é esse pequeno erro inicial. Se a esta supressão juntarmos todas as supressões arbitrárias, temos o AO 90 como um conjunto de pequenos erros iniciais, que resultarão num erro final ainda maior do que o próprio: a sua adopção» («O acordo ortográfico e o direito dos comboios à greve», Francisco Miguel Valada, Público, 19.06.2011, p. 33).

[Texto 179]

Verbo «haver»

Deslizes latinos

      Lapsus linguæ, «erro da língua», não tem que se lhe diga. Já quanto a lapsus calami, «erro da pena», Júlio Moreira sentiu-se na necessidade de explicar que «é apenas uma forma de dizer, para minorar a culpa de quem escreve». Neste caso não houve lapsus linguæ mas mero solecismo bem enraizado já na escrita e na oralidade: «Recuperar câmaras nas autárquicas, dentro de dois anos, é um dos objectivos. O Porto surge como exemplo no topo da lista, onde têm de haver coligações de esquerda, PS, CDU e Bloco juntos» (Noticiário das 10 da noite, Alexandra Madeira, Antena 1, 18.06.2011). Talvez seja um lapsus memoriæ: a repórter esqueceu-se da regra.
      Ainda recentemente o escrevi: é aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam toda a comunicação social, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto a mim mesmo o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Mesmo nos tempos compostos. Mas a democracia é isto: qualquer dia, que não virá longe, as gramáticas vão acolher, como «variante», este erro.
[Texto 178]

Prefixo «anti-»

Tudo de uma vez

      Há anos que ando a avisar que o prefixo anti- é seguido de hífen somente se o elemento seguinte começar por h, i, r ou s. Salvo em relação a nomes próprios, um caso que também já tratei, não há excepções. Só é de espantar quando o erro aparece em livros revistos (mal, claro). Nos jornais, só vai sendo de admirar quando acertam. No exemplo, triplamente: «Newt Gingrich: “A Administração Obama é antiemprego, antiempresas, antienergia americana”» («Barack Obama foi o alvo e Portugal entrou no debate dos candidatos republicanos», Kathleen Gomes, Público, 15.06.2011, p. 14).

[Texto 177]

Sobre «irradiar»

Lançar raios de luz

      Acabei agora mesmo de ler três vezes o verbete, e por isso posso garantir: o Dicionário Houaiss não regista a acepção «afastar» do verbo «irradiar». E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também não. José Pedro Machado também desconhecia a nupérrima acepção, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolheu-a no seu seio despreconceituoso.
[Texto 176]

«Apelar para»

Não me convencem

      Correspondendo ao apelo da leitora Cristina e aproveitando ter-me passado agora mesmo pelos olhos uma frase com a regência errada («Muitos apelam à extin­ção da RTP.»), eis mais uma vez: a regência do verbo «apelar», na acepção que a frase acima exigia, é apelar para. A mim, basta-me esta notinha de Francisco Fernandes na página 83 do seu magnífico Dicionário de Verbos e Regimes: «APELAR A ALGUÉM ou A ALGUMA COISA é regência condenada pelos mestres.» Bem podem os novíssimos linguistas de pacotilha dizer o contrário.
      Eis um mestre: «Ao final, todos, mesmo os paulistas, apelaram para a ação do Governo, seja com a abertura de crédito barato, seja mediante legislação favorável à imigração, seja por medidas que possibilitassem o emprego do trabalhador nacional» (Emancipação dos Escravos: Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. VII).
[Texto 175]

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