Linguagem

Sôbolos rios que vão...

      «Em 2010, pois, um decréscimo brutal de quatro milhões de habitantes sobre os 10,7 milhões que somos hoje» («Mapa da mina abandonada», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.05.2011, p. 56).
      Parece-me impróprio o uso da preposição «sobre» neste contexto. Aliás, esta preposição é das mais mal utilizadas na nossa língua — e não estou a aludir às confusões, pela semelhança fonética e pelo parentesco, entre as preposições «sob» e «sobre».
[Texto 84]

Linguagem

«Declaro-vos marido e... marido e...»

      O manequim Luís Borges venceu um Globo de Ouro. No discurso, lê-se no Diário de Notícias, dedicou «o prémio ao marido, o hairstylist Eduardo Beauté» («‘Glamour’ e polémica marcam gala», Carla Bernardino e Raquel Costa, Diário de Notícias, 31.05.2011, p. 57). E Eduardo Beauté terá gostado da dedicatória da «mulher»? Ou será também «marido»? Isto foi congeminado pelos jornalistas ou os casais do mesmo sexo referem-se aos cônjuges desta forma? (Senhores revisores da D. Quixote: «cônjuge» é do género masculino!)
[Texto 83]

Léxico: «tribeira»

De fachada

      «Para ser considerado rico e digno de respeito na São Luís dos séculos 18 e 19, você precisava morar em uma casa com seis janelas na fachada. Tal característica arquitetônica era mais importante até que o dinheiro. Tanto que quem perdia tudo, se conseguisse manter o casarão (chamado de morada e meia), preservava seu status de nobre.
      Curiosidades como essa tornam saborosa uma visita ao centro histórico da capital maranhense. Entre os mais de 5 mil imóveis coloniais, nem todos preservados, há ainda exemplares com quatro janelas na fachada (moradia inteira), três janelas (terço de morada), duas (meia morada) e as mais simplesinhas, chamadas de porta e janela.
      Até ditados populares surgiram dessa classificação. “Viver de fachada”, por exemplo. Ou dizer que alguém está “sem eira nem beira”: as melhores casas da São Luís colonial tinham três linhas de telhas de barro sobrepostas, chamadas eira, beira e tribeira. Quanto mais pobre a casa, menor o número de telhas» («Status social estampado na fachada», Leandro Costa, Estadão, 31.05.2011, p. V10).
      O Dicionário Houaiss não regista o termo «tribeira», que nunca ouvi, e há-de ser brasileirismo. Em relação à expressão «sem eira nem beira», lê-se na obra A Sabedoria dos Ditados Populares, de J. J. Costa (São Paulo: Butterfly Editora, 2009, p. 9): «Essa frase faz referência a pessoas sem bens, sem posses. Dizem que antigamente as casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo: a eira, a beira e a tribeira (como era chamada a parte mais alta). As pessoas mais pobres não tinham condições de fazer o telhado triplo e construíam somente a tribeira, ficando, assim, “sem eira nem beira”.»
[Texto 82]

«Piripiri/piripíri»

Já repararam?

      «Salpique com parmesão e misture bem. Tempere com sal e pimenta e um pouco mais de piripíri, se gostar de coisas picantes como eu» («Salsichas e massa com couve-repolho», Jamie Oliver, tradução de Aida Macedo. «Única»/Expresso, 19.03.2011, p. 112).
      Não foi com o Dicionário Houaiss, esse tesouro, que se começou, em Portugal, a grafar «piripíri», que já se via registado em alguns dicionários, mas ajudou a difundir esta grafia. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista «piripiri», mas com três entradas: para a malagueta, para a erva vivaz brasileira (Cyperus giganteus) e para uma planta aquática. O Dicionário Houaiss distingue, grafando o condimento com acento agudo, «piripíri».
      Tenho quase a certeza que, quando li a palavra pela primeira vez, estava escrito «piri-piri» — como ainda se lê vezes sem conta.
      «Com tomate, sal (munho) e piri-piri fazem um molho excessivamente picante, onde temperam a massa depois de comprimida. A farinha de milho tem igual aproveitamento» (África Oriental, Joaquim Renato Baptista. Lisboa: Imprensa Nacional, 1892, p. 22).
[Texto 81]

Sobre «espectro»

Ainda é cedo

      Vital Moreira lá continua, quando não desiste ou se esquece, a escrever segundo as novas normas ortográficas: «Ao ultrapassar o CDS pela direita, o qual adotou posições menos aventureiras e mais prudentes em qualquer dos referidos domínios, o PSD não questiona somente a dimensão social e o liberalismo moderado da sua herança política e doutrinária, por mais indefinida que esta fosse. Reposiciona-se também no nosso espectro político-partidário, baralhando as tradicionais fidelidades ideológicas e sociológicas. Decididamente, o nosso sistema político não precisava de mais este fator de imprevisibilidade e de instabilidade…» («Troca de posições», Vital Moreira, Público, 31.05.2011, p. 37).
      O Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional, refere apenas que «espectro» e «espetro» são variantes, mas, tanto quanto me lembro, nunca ouvi um português articular o c. Já vi foi uma professora de Português corrigir um aluno que o fez. Contudo, como não é vocábulo muito comum, não anda na boca de toda a gente, haverá provavelmente sempre hesitações. Aguardemos para ver.

[Texto 80]

Sobre «presidenta»

Nem os Brasileiros acatam

      «Depois de assistir aos vídeos, a Presidenta decidiu travar a divulgação do kit preparado por uma ONG, por o considerar “inadequado” e “impróprio para [o] seu objectivo”» («‘Kit’ anti-homofobia vetado no Brasil», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 34).
      Dona Dilma Rousseff quer — e os jornalistas portugueses fazem-lhe a vontade. «Presidenta». São estes jornalistas que fazem andar a língua para a frente e a gramática para trás.
[Texto 79]

Sobre «sinalizar»

Não nos aborreçam

      «Dos 1808 alunos sinalizados (quase 10% do total) no ano passado — por faltas às aulas, mau aproveitamento escolar, violência física e verbal ou comportamentos agressivos —, 782 casos foram raparigas adolescentes e pré-adolescentes» («Escolas de risco com 43% de raparigas problemáticas», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 18).
      É vocábulo da gíria dos técnicos de serviço social, que caiu no goto dos jornalistas, que há meia dúzia de anos gostavam mais do verbo «referenciar». Só um conselho: diversifiquem (conselho que, no âmbito dos investimentos, também lhes dariam George Soros e Warren Buffett), usem outras palavras, outras construções.
[Texto 78]

Sobre «gorjeta»

É para beber

      «Na primeira noite, esses repórteres ficaram a saber que a família jantou bifes e saladas do restaurante Landmarc. A conta foi de cerca de 170 euros, tendo a filha dado uma gorjeta de 17,6 euros ao homem das entregas» («Uma ‘prisão’ de luxo para Strauss-Kahn», Susana Salvador, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 33).
      Foi do francês gorge que fizemos gorja (garganta, goela, ainda em uso, como pude comprovar recentemente na Beira Alta) e todos os derivados, entre eles «gorjeta» ou «mata-bicho» para molhar a garganta, que era a gratificação por qualquer trabalho que se fizesse. «Tome, é para beber qualquer coisa», ouve-se ainda. Em francês, é mais claro: pourboire, «gorjeta», é «para beber». De caminho, deve dizer-se que «gorjeta» é com j e não com g, como por vezes se lê, e é assim porque deriva de um vocábulo com j.
      Curioso também aquele «homem das entregas», que mal esconde o inglês deliveryman da fonte da notícia.
[Texto 77]

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