Sobre «stresse»

Não é para mim

      «A defesa tentou explorar um desmaio sofrido por Diego em Fevereiro de 2005 em plena escola, justificando os pais que o rapaz estaria em stresse por ter falsificado a assinatura num teste a que teve nota negativa» («Pais de escuteiro dizem que ele entrou em delírio antes de morrer», Roberto Dores, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
      Ninguém me apanhará a usar este aportuguesamento manhoso. Antes a forma como os Brasileiros aportuguesaram, estresse, por ser mais conforme à nossa língua. De qualquer modo, não se esqueçam os tradutores e os revisores que, e já o disse uma vez, a palavra «tensão» diz o mesmo.
[Texto 76]

 

Sobre «golpear»

Ainda bem que é usada

      «E se poderão “fazer harakiri”, ritual dos samurais no Japão, que consistia em golpear o ventre para, por exemplo, recuperar a honra ou evitar ser sequestrado» («Comunistas apelam contra o voto suicida dos jovens», Carla Soares, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 6). «Segundo fontes policiais, esta suspeita ainda não foi confirmada. Apenas que terá sido o animal a golpear, no mesmo dia, uma sobrinha da vítima mortal, perto do local onde o corpo foi encontrado» («Autoridades já têm carneiro suspeito», Paulo Julião, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
     Reparem como o verbo «golpear» foi usado acima em dois sentidos diferentes. Actualmente, a segunda acepção — dar pancadas, como se lê no dicionário de Bluteau — anda arredada da linguagem do dia-a-dia e dos dicionários, pelo menos de forma tão explícita.
[Texto 75]

Ortografia: «anti-social»

Demasiado previsível

      «“Não estava doente. Era reclusa”, disse o jornalista Bill Deedman, da MSNBC, que fez uma reportagem de investigação sobre a vida da filha daquele que foi, no seu tempo, um dos homens mais ricos dos EUA, e a quem o The New York Times chamou “a socialite antissocial”» («A multimilionária que viveu e morreu longe do mundo», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 43).
      Será assim de acordo com as novas regras ortográficas, mas, como o Diário de Notícias ainda segue a ortografia do AOLP45, está incorrecto. O jornalista deveria ter escrito «anti-social». Quando o jornal adoptar a nova ortografia, alguns jornalistas estarão anos seguidos a escrever em conformidade com as regras do AOLP45. Tudo demasiado previsível.
[Texto 74]

 

Léxico: «enteremorrágico»

Bastava pensar

      Ora vejam este caso: «A causa da propagação da bactéria Escherichia coli enterohemorrágica está ligada ao consumo de legumes crus, como pepino, tomate e salada, refere o Ministério da Agricultura alemão» («Bactéria em alimentos crus leva à morte», Ana Maia, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 20).
      Está-se mesmo a ver, senhora jornalista, um h interior sem ser num dígrafo. Estabelece o Acordo Ortográfico de 1945: «Se um h inicial passa a interior, por via de composição, e o elemento em que figura se aglutina ao precedente, suprime-se: anarmónico, biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver, transumar.» Assim, escrever-se-á enteremorrágico. Não foi apenas a informação que veio da Alemanha, mas também, e dispensávamos, o termo: enterohämorrhagische.
[Texto 73]

Prefixo «sub-»

O domínio do mundo

      «Um homem de 47 anos apontou, ontem de manhã, uma arma à cabeça do comandante da Esquadra da PSP de Benfica e clicou no gatilho. A arma encravou e o sub-comissário da PSP ainda levou uma coronhada na cabeça e vários murros antes de conseguir deter o agressor» («Arma apontada à cabeça encravou», Luís Fontes, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 26).
      «Clicou no gatilho»! A informática domina agora completamente o mundo. Já quase a escrevermos segundo as novas normas ortográficas, e alguns jornalistas ainda não dominam as regras do Acordo Ortográfico de 1945. O prefixo sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. Logo, subcomissário.
      «Turvado agora pelo medo, o Jerónimo mediu o adversário bem de frente e premiu o gatilho» (Os Homens e as Sombras, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 53).
[Texto 72] 

Cultura clássica

Ler não faz mal

      Quando se trata de cultura clássica, a tendência de muitos tradutores é deixarem nomes como os encontraram no original. Já vimos casos lamentáveis. No caso que hoje aqui trago, o tradutor escreveu que determinada personagem «representava o papel de Orestilla, a mulher de Catilina». Bem, também Barreto Feio grafou dessa maneira, mas era um tempo em que se escrevia «aquillo», «elle», «opposto»... Mas acrescenta o tradutor: «de quem Salusto disse que nunca um marido a tinha louvado». É o Salústio dos Espanhóis...
      «Catilina, perdido de amores por Aurélia Orestila, quis desposá-la e, como o filho desta se opusesse, corria que Catilina o envenenara, “acendendo na pira do filho o facho do himeneu com a mãe”, assim o conta Valério Máximo que também diz como em 651 Valério Valentino fora acusado por um poema pornográfico em que eram cantados o estupro de uma virgem e o desfloramento de um rapaz, com uma lubricidade genuinamente realista» (História da República Romana, Vol. III, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1952, p. 90).
[Texto 71]

«Prédio de gaveto»

Mal explicado

      No texto fala-se de prédios, quartos e lojas de esquina, o que me levou a pensar que actualmente a expressão «de gaveto» também se ouve menos. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, prédio de gaveto é «a casa de esquina que forma um ângulo arredondado». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a expressão «de gaveto»: «diz-se do prédio com frente redonda, no ângulo de duas ruas». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é mais parco: «prédio de gaveto: prédio de esquina». Ora, todos os prédios de esquina serão prédios de gaveto? Por outro lado, afirmar que é o prédio com frente redonda é subestimar a fertilíssima imaginação dos arquitectos: há prédios de gaveto sem formas arredondadas.
      Creio que o conceito é desconhecido no Brasil.
[Texto 70]

 

Léxico: «boletineiro»

RIP

      «“Dois telegramas para David Coates”, informou o distribuidor de telegramas.» Pronto, menos uma palavra a circular por aí. Apesar de tanta tecnologia ao nosso dispor, ainda se enviam telegramas — mas os tradutores, como os falantes comuns, já não conhecem o vocábulo «boletineiro». Veja-se o perfil de funções num documento do IEFP: «Entrega telegramas aos destinatários, deslocando-se, normalmente, em motorizada: recebe os telegramas e verifica as moradas indicadas a fim de determinar o percurso a efectuar; desloca-se ao local e entrega o telegrama, registando a respectiva data e hora e solicitando a assinatura do destinatário no documento comprovativo.» De motorizada actualmente, pois dantes, mesmo em grandes cidades, como Lisboa e Porto, era de bicicleta que os boletineiros, que trabalhavam muitas vezes até à meia-noite, se deslocavam. Só se podia ser boletineiro até aos 21 anos. Servia, muitas vezes, de tirocínio para carteiro.
[Texto 69]

 

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