Sobre «calaça»

Vem do porco

      «“Calaceiro” vem de “calaça” e a palavra, de origem grega, designava muito especificamente as partes da carne do porco que não eram aproveitadas para o consumo. Como se imagina, deviam ser muito poucas, pois que do porco, como bem se sabe, tudo se aproveita, até os pezinhos. De qualquer forma, calaça eram pois estes restos do porco e terá assumido o significado de “preguiça”, “mandriice”, porque os mendigos, ao baterem à porta das casas, pediam por calaça, ou seja, pediam as sobras, os restos quer de carne quer de outros alimentos. E da parte pelo todo, surgiu o termo “calaceiro” como aquele que pede calaça, sinónimo de mandrião, preguiçoso, que não trabalha e vive da mendicidade, à custa dos outros» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 6.05.2011).
      Lá terá as suas fontes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribui para a elucidação da questão. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista a acepção antiga «foro que consistia numa porção de carne», mas trata-se de óbvia má interpretação do que diz Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário. Para o honesto Morais, calaça era a «costela de porco, ou banda». Quanto a «calaceiro», dá-o como derivado, provavelmente, do espanhol calabacero. «Parece ser a costa, ou banda de um porco» registou Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.

[Post 4761]

Como se escreve nos jornais

A desorbitada

      «O arraso que os vários discursos presidenciais fizeram aos “políticos” e aos “partidos” pareceu-me também muito desadequado: todos eles foram e são políticos (sim, Eanes e Cavaco também).
      Além disso, não conheço democracias sem partidos. E, acima de tudo, penso que estas figuras de referência têm a obrigação de incentivar as novas gerações para a generosidade da política» («25 de Abril», Inês Pedrosa, Sol, 29.04.2011, p. 12).
      «Arraso» só pode ser linguagem de telenovela brasileira. A escritora não encontrou nada mais português. Sobre «desadequado», já aqui disse alguma coisa. E a regência do verbo incentivar é outra: incentivar a.

[Post 4760]

Como se escreve nos jornais

O orbícola

      «A filha de D. João VI, nascida em 1638, casou com Carlos II de Inglaterra em 1662. O matrimónio consolidou a aliança anglo-portuguesa, especialmente importante nas décadas subsequentes à Restauração. […] A estátua foi encomendada à escultora Audrey Flack, que concebeu uma enorme Catarina em bronze, com jóias, uma orbe nas mãos e uma tiara na cabeça» («Catarina e a estátua», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 30.04.2011, p. 3).
      Todos erramos, eu sei — mas nem todos temos um revisor a corrigir-nos. D. Catarina de Bragança era filha de D. João IV, o Restaurador (1604-1656). D. João VI, o Clemente, nasceu mais de século e meio depois (1767-1826). São ambos reis muito marcantes para serem confundidos, de qualquer modo. Consultei doze dicionários da língua portuguesa, e em todos «orbe» é registado como pertencendo ao género masculino.
[Post 4759]

Catacrese

São só favas

      «Para quem ficou com água na boca, Hélio Loureiro revela os melhores truques para realçar o sabor das favas, como retirar-lhes a ‘camisa’, para ficarem mais macias. “A gordura e um toque de açúcar são também importantes”, lembra» («Malditas favas», Joana Ludovice de Andrade, Sol, 29.04.2011, p. 40).
      Quanto à gordura e ao açúcar, confirmo, a minha mãe ensinou-me o truque. Em relação à «camisa», parece-me catacrese escusada, pois sempre ouvi que as favas têm casca e pele. Porque, se a pele é a camisa, a casca é o casaco.
      A fava, sabiam?, é rica em iodo, e quem fala em iodo lembra-se de Marinho e Pinto e da recomendação que fez ao cronista Manuel António Pina (que aqui nos asseguram «que por acaso é um dos maiores portugueses vivos» — como é por acaso, custa menos a acreditar): «Senhor Manuel António Pina, não se atormente mais. O seu mal cura-se com uma dose apropriada de iodo. Trate-se! Vá para uma boa praia e... Ioda-se!»
[Post 4758]

Léxico: «filo»

Uma pela outra

      Gostei muito do esventolada — era impossível ser mais expressiva. Para a troca, deixo-lhe outra (nestes tempos mais ou menos pacíficos — mas os Americanos lá assassinaram Bin Laden — menos útil, mais ainda assim) também expressiva: suspêndio, outro nome para a forca.
      E agora, como no circo, algo completamente diferente. «O artifício fraudulento, salvo diferenças de pormenor, obedecia ao seguinte esquema: açudado e de aflição estampada no rosto, o burlão aproximava-se da vítima a lamentar ter em seu poder um vigésimo premiado com cem contos, que infelizmente já não podia rebater por terem acabado de encerrar os estancos da lotaria» («O vigésimo premiado e o aeroporto de Beja», José Marques Vidal, Sol, 29.04.2011, pp. 30-31).
      Senhor magistrado jubilado, está errado: açudar e açodar são parónimos. Com u são todas as que dizem respeito à represa de água, açude. Com o, que era o que deveria ter escrito, é apressado em demasia. Não vou ser severo, pois o ex-magistrado até me revelou uma palavra que eu desconhecia: «Se o patarata engolia o logro, logo ali ficava sem os vinte contos que acabara de retirar do banco. Se mostrasse desconfiança, intervinha o filo, o auxiliar do burlão, que se aproximava a evidenciar interesse pelo negócio, munido de uma lista dos prémios da lotaria onde, escarrapachado, ao número do vigésimo exibido correspondia a batelada de cem contos sem sombra de dúvida» (idem, ibidem). Agora acode-nos Afonso Praça: «Filo (cri.) — Aquele que tem por missão preparar o otário no conto do vigário» (Novo Dicionário de Calão. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 109).

[Post 4757]

Gentílicos e maiúscula

Rigor germânico

      «Os Gregos abordaram de forma inútil o movimento dos corpos e confundiram o mundo durante 2 mil anos: o seu estilo de formular questões sentados em poltronas era mais apropriado à matemática e à ética do que à física» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 112).
      Só serve para exemplificar, porque está correcto. A última moda, ao que vejo, é grafar com maiúscula inicial apenas os gentílicos antigos! Celtas, Maias, Astecas... Acreditem. Tudo sancionado por revisores, imagino. Só gente como eu e Harri Meier († 1990), um simples romanista conceituadíssimo, propugnam o contrário (e as gramáticas, claro): «Nos etnónimos, exige-se a maiúscula quando se trata das populações em conjunto, seja que a coletividade se exprima no plural ou no singular (os Portugueses, “o Português gosta de bacalhau” = “os Portugueses”), ao passo que precisamente as individualizações requerem a minúscula (muitos americanos, quaisquer americanos, o brasileiro)» (Ensaios de Filologia Românica, Vol. 1, Harri Meier. Rio de Janeiro: Grifo, 1974, p. 199). Só não faço assim quando o «livro de estilo» das editoras manda fazer o contrário.
[Post 4756]

Prefixo «co-» e hífen

Caos

      «A co-evolução do parasita e do hospedeiro, cada um dos quais fornece um ambiente em rápida mudança para a evolução do outro, requer um tipo de resposta especial e rápida, que o sexo pode proporcionar» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 51).
      Coevolução ou co-evolução? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não quer comprometer-se, e por isso, se regista «coeducação», não regista «coevolução». Depois do novo acordo ortográfico será mais simples. Antes, ou seja, agora e até 2016 (Maio ou Setembro, Fernando?), se o prefixo significa «a par», «juntamente», exige hífen — co-eleitor, co-esposa, co-eterno —, como se lê no sítio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde se previne: «A regra, no entanto, não se aplica facilmente e de forma coerente, razão por que, em caso de dúvida, é sempre melhor consultar um dicionário.» Consultemos então a edição portuguesa do Dicionário Houaiss, porque regista ambos os vocábulos. Lá está: «co-educação» mas «coevolução». Pergunto: não significa o prefixo, em ambos, «a par», «juntamente»?

(Já aqui tínhamos visto cogeração/co-geração.)
[Post 4755]

Concordância verbal

Oiçam esta

      Depois de ter dito que «malabarismo» veio de Malabar, a região na costa ocidental da Índia e dos seus habitantes, Mafalda Lopes da Costa entrou na substância do conceito: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).
      Numa locução verbal formada por um verbo modal (poder, neste caso), a concordância verbal é feita obrigatoriamente entre o verbo modal, o único que deve concordar em número e pessoa, e o sujeito. E qual é, na frase, o sujeito? Querem ver que é o sujeito da oração anterior, da subordinante?
      E quem escreveu no sítio do programa «Fazer Malabarismos e os Conturcionistas»? Em contorções, nas vascas da agonia, fica a língua com estes desmazelos. Todos os problemas ortográficos, comparados com este erro, são nada.

[Post 4754]


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