Léxico: «recência»

Coisa de académicos

      Só recentemente a Antena 1 passou a disponibilizar os ficheiros áudio do programa Jogo da Língua. Por sorte, corta a primeira e penosa parte do diálogo entre a locutora e o concorrente. Ou seja, a parte lúdica é aspada. De maneira geral, o concorrente é tão experimentado nestas questões da língua, que nem se atreve a repetir a hipótese que considera certa, optando por dizer que é a primeira ou a última — o que serviria para aprender o que são os efeitos de primazia (recordar-se melhor das primeiras palavras) ou de recência (recordar-se das últimas palavras), bem estudados no respeitante às sondagens (polls, em inglês) ou inquéritos amostrais (surveys, em inglês). Pois claro, os dicionários não registam o neologismo «recência». O mais próximo que registam é «decência». São decentes.
[Post 4697]


Tradução: «unbundling»

Desnecessário

      «A REN está interessada em ficar com o transporte e o armazenamento de combustíveis em Portugal, caso o Estado português decida fazer o unbundling e retirar essa parte ao controlo da Galp.» O anglicismo anda por aí em quase todos os jornais — e nem sempre explicado nem marcado como estrangeirismo, como agora é moda. Fazer o unbundling é fazer a separação, separar, neste caso as redes de transporte de energia e as empresas de energia (as «energéticas», como certos comentadores dizem e escrevem).


[Post 4696]



Sobre «lusofonia»

É connosco?


      «Queremos contar com o contributo de Portugal, de todas as ex-colónias africanas e do Brasil para podermos transformar este património de Cabo Verde, da lusofonia, em património da Humanidade. Nada melhor do que os próprios protagonistas do 25 de Abril poderem contribuir desta forma para a vivificação do espírito de Abril», afirmou o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, depois de ter («à margem», escrevem os periodiqueiros) participado ontem numa palestra na Associação 25 de Abril. Faltará uma acepção ao termo «lusofonia» registado nos dicionários? É que, de conjunto político-cultural dos falantes de português (na definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa), passou a designar os países em que se fala a língua portuguesa. É mais uma invencionice ou faz falta?



[Post 4695]

Léxico: «eurovinheta»

Não é connosco

      Com a Directiva 2006/38/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Maio de 2006, relativa à aplicação de imposições aos veículos pesados de mercadorias pela utilização de certas infra-estruturas europeias, foi criada a chamada — em francês e em inglês — eurovignette. É ver aí pelos jornais a palavra adaptada: eurovinheta. Como era previsível, por vezes aparece com hífen, «euro-vinheta». Os espanhóis na Comissão Europeia afirmam que «euroviñeta», como se vai lendo na imprensa espanhola, é um decalque incorrecto, já que altera o significado habitual em espanhol (pequena gravura para ornato ou ilustração de um livro e cada um dos rectângulos em que se divide uma banda desenhada), e é desnecessário, pois que em espanhol há outras opções, como adhesivo ou pegatina. O caso análogo que encontram refere-se à inspecção periódica obrigatória (IPO), cujo comprovativo tem o nome de «distintivo». Propõem, por isso, eurodistintivo.
      Não temos o mesmo problema. Para já, e como já referi, na imprensa apenas se usa eurovinheta. Quanto a casos análogos, temos a vinheta dos passes sociais (acepção que o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora esqueceu) e o selo inspecção periódica obrigatória (acepção esquecida de todos os dicionários).

[Post 4694]

Sobre «gongórico»

É vezo entre nós

      «Talvez por esses seguidores não terem as qualidades do poeta original, ou talvez porque a poesia de Luis de Góngora fosse de difícil acesso e decifração para o comum dos mortais, a verdade é que do nome do poeta viria a nascer a expressão pejorativa “ser gongórico” como sinónimo de alguém que usa uma linguagem demasiado rebuscada, ridícula porque excessiva nos floreados» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 14.04.2011).
      Primeiro e principal: desde quando é que existe a expressão «ser gongórico»? Valha-nos Deus. É quase cada sacholada, sua minhoca... Segundo: não é em todos os dicionários que o falante colhe que é vocábulo pejorativo. É ou pode ser. Do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se retira esse sentido. Mas sabemos que sim, é verdade. Ou, repito, pode ser. No Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair J. Aranha (Rio de Janeiro: Ateliê Editorial, 2002, p. 170), lê-se isto: «Dizer que alguém é gongórico indica que ele fala muito e diz pouco, que tem mais enfeite do que conteúdo.» De determinada escrita, afirmou Afrânio Coutinho: «Ela não é má porque é gongórica, como é vezo entre nós julgá-la, mas porque é de mau gongorismo» (Do Barroco. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p. 175).
      Não sei se se interessam por estas miuçalhas da língua, mas algo surpreendente é que logo em 1624 se tenha cunhado no castelhano o termo culterano (registada nos nossos dicionários mas não explicada) para classificar o estilo gongórico, que é um trocadilho com «luterano». Foi nesta altura que Quevedo e outros escreveram que a poesia de Góngora só era clara quando era queimada, em alusão à heresia poética deste e, possivelmente, e de forma ínvia, ao facto de Góngora ser judeu. Vejo que a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira acolhe o verbo agongorar: «Tornar semelhante ao estilo gongórico: para chamar a atenção do público, resolveu agongorar a prosa

[Post 4693]



Léxico: «enxugo»

Alta engenharia

      Nunca tinha visto a palavra «enxugo», e muito menos suspeitava que pudesse substituir — e com vantagem, pois é bem nossa — o vocábulo «drenagem», que vem do francês drainage. O contexto em que a li referia-se às obras que D. Dinis mandou fazer no paul do Ulmar. Recuamos século e meio e encontramos isto: «O enxugo dos pantanos exige de ordinario, para se effectuar, o emprego de custosas obras, de grossos capitaes, e emfim de todos os recursos da alta engenharia agricola, quer para dar sahida ás aguas accumuladas, quer para prevenir o ajuntamento de outras» (O Archivo Rural — Jornal de Agricultura, Artes e Sciencias Correlativas, n.º 1, I ano, Maio, 1858, p. 309). Na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, leio que foi Fr. Martinho, monge de Alcobaça e esmoler-mor de D. Dinis, que, a mando real, realizou esses importantes trabalhos de enxugo no paul do Ulmar. Não deviam os dicionários fazer remissões mútuas nos verbetes «enxugo» e «drenagem»? 

[Post 4692]

Tradução: «fish fingers»

Hum... não temos

      «[…] and takes out a box of fish fingers.» «[…]e tira uma caixa de dedinhos de peixe.» Eu até pensava que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa já registava o vocábulo... Andam desatentos. Não estou a ver ninguém dizer que quer uma caixa de «dedinhos de peixe». Pode ser sugestivo, um achado magnífico, mas cada língua tenta encontrar a sua forma de expressar as coisas. «Douradinhos», pode ser? Obrigado, capitão Iglo.

[Post 4691]



Tradução

Laconismo

      Lembram-se dos fachis? Acudiram-me à memória agora quando vi esta frase: «Then it’s all off to Chopsticks for a Chinese.» Tradução? «Depois vão todos ao Chopsticks comer chinês.» Não sabia que agora se dizia assim... «comer chinês». De elipse em elipse, tudo fica subentendido. Talvez pensem que só escritores descuidados como Tomaz de Figueiredo é que escrevem «comer comida»: «E lá por essa Lisboa, de língua de fora, a abafar de calor, a comer em restaurantes, mal comido e a comer comidas indigestas...» (A Gata Borralheira, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Guimarães Editora, 1961, p. 27).


[Post 4690]


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