10.4.11
Livre, solto
«Entretanto, o político mais “desagarrado” do poder (desculpem a palavra) ia a Matosinhos tratar da sua periclitante situação. “O PS está todo comigo?”, perguntou ele. O PS estava fervorosamente, absurdamente, histericamente com ele. Este jornal classificou a coisa como “um extraordinário momento de propaganda”; e com razão. Não me lembro de ouvir nenhum primeiro-ministro pedir com tanto descaro num congresso a confiança pessoal, que Sócrates pediu» («Uma crise de nervos», Vasco Pulido Valente, Público, 10.04.2011, p. 36).
Homessa, pedir desculpa porquê?! Desagarrado é portuguesíssimo. Camilo usou-o a flux. Vá um exemplo colhido nas Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado: «Se eu não fosse tão desagarrado do alheio, há muito que a nossa filha estava casada com ele; mas tu embirraste com o rapaz, e fizeste aquele despautério quando íamos para Santa Ana de Oliveira... Valha-te Deus, valha-te Deus!...» Eu teria tido mais pruridos em usar «descaro». Sim, parece derivado regressivo de «descarar», mas vejo-o muito mais em obras espanholas que portuguesas. Ou será uma questão de sobrevivência: em espanhol persiste, é ainda agora usado, ao passo que em português quase o deixou de ser.
[Post 4673]
➤
2 comentários: