Graus Celsius

O calor à noite

      «Anteontem e ontem, por volta da meia-noite em Lisboa, ainda a derrota do Benfica na Luz arrefecia e escurecia mais do que até os mais calorosos e iluminados tinham previsto, estavam duas dezenas de graus centígrados» («O calor de noite», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.04.2010, p. 39).
      Miguel Esteves Cardoso nasceu alguns anos depois da Conferência Geral de Pesos e Medidas de 1948, que aboliu a designação «graus centígrados», pelo que não tem nenhuma desculpa para escrever «graus centígrados» (excepto, naturalmente, não ter tido professores que lho tivessem ensinado). Como não há, nem nunca terá havido, ninguém que tenha escrito tanto e tão bem sobre o tempo (na dupla acepção, distinguida — e nós com inveja (ou não, porque nos damos bem com a ambiguidade) — pelos bifes com os vocábulos time e weather), seria muito bom que contribuísse para a abolição de facto da designação «centígrado».

[Post 4664]

Verbo «aspirar»: regência

Snif, snif

      A propósito da expressão ouro sobre azul: «Dada a importância e a conhecida grandiosidade e fausto da corte francesa, não é de admirar que a bandeira da casa real de França tenha inspirado uma expressão conotada com o que de mais magnífico e sublime se pode aspirar ou ambicionar» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 6.04.2011).
      No sentido de desejar, pretender, almejar, aspirar é transitivo indirecto, e preposicionado. Só no sentido de respirar, sorver é que não leva preposição. Vamos ao velho Morais. Vejamos... Pode ser o verbete «aspirante». Na mística, aspirante, lê-se, é «o que aspira a unir-se a Deus». (Não resisto a transcrever o que se lê neste dicionário acerca dos ortógrafos aspirantes: os que querem se escrevão com h, sinal de aspiração, as vogáes que entre nós não são aspiradas, e só por conservar a etimologia, como homem, humor, honra, &c.») «Toda a gente aspira a cargos importantes (dentro ou fora do país), a “montes” alentejanos, a casas na Lapa ou em Cascais, com vontade de ir a ministro» (Dicionário de Paixões, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, p. 209).
      Há quem — todos os que não aspiram a fazer-se entender cabalmente nem prezam a língua — se exprima dessa forma descuidada. Não devia ser esse o desiderato de uma jornalista.


[Post 4663]

Omissão da preposição

Concisa e desembaraçada

      O leitor A. S. pergunta-me se não se deveria omitir a preposição em na seguinte frase: «Publica-se em todos os dias úteis.» Não: podia apenas. «Publica-se todos os dias úteis.» Leia-se o que escreveu Domingos Cegalla: «Do mesmo modo: uma noite que êle me visitou por numa noite em que êle me visitou; o dia que não a vejo em vez de no dia em que não a vejo; a última vez que viajei em lugar de na última vez em que viajei. A omissão da preposição em, nestas e noutras locuções temporais, torna a linguagem concisa e desembaraçada» (Novíssima Antologia da Língua Portuguêsa. Rio de Janeiro: J. Ozon Edição, 1964, p. 229).

[Post 4662]

Linguagem

Os limites da língua

      Na redacção, quando na televisão alguém disse que o primeiro-ministro adiara a comunicação ao País, ouviram-se vários suspiros de alívio. Vamos para casa mais cedo. Afinal, o jornalista disse logo de seguida que seria adiada... meia hora! É que Sócrates, o Procrastinador, estava a ensaiar o discurso, como se viu na TVI: «Ó Luís! Vê lá como é que fico a olhar para os... Assim fica melhor ou fica melhor assim?» Ao ouvirmos «adiar», pensámos logo, é claro, noutro dia, sem que nos tivesse ocorrido de imediato que adiar é transferir (algo); postergar, protelar, retardar — para daqui a segundos, ou minutos, ou horas, ou dias. Ou sine die, sem fixar uma data futura. São os limites da língua. A+diar existe, mas não (e podia) a+minutar. Com «hora» já não daria.


[Post 4661]

Léxico: «esporão»

Galináceos e canídeos

      Estão a ver aquele dedinho rudimentar nas patas dos cães? Que nome se lhe dá? Pois é, ninguém ou quase ninguém sabe, pela sondagem que acabei de fazer aqui. Há quem lhe dê o nome de esporão, talvez por analogia com a saliência córnea no tarso de alguns machos galináceos, também chamada espora. Quanto a acepções do âmbito da zoologia, esta é mesmo a única que os dicionários registam. Cheguei a esta reflexão porque acabei de encontrar o termo inglês «dewclaw», referido a um cão, traduzido por «esporão».

[Post 4660]

«Fazer questão de»

La belle question!

     «He made a point of saying that.» «Ele fez questão em dizê-lo.» Desconfiei desta preposição, pois sempre li e ouvi fazer questão de, expressão idiomática que pode dever alguma coisa à língua francesa (mas não, pelo menos com o mesmo sentido, através de faire question: «Être sujet à discussion, être douteux.») Quando terá entrado na língua? Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa regista apenas a expressão com a preposição de, assim como outra, despreposicionada (puxem dos canhenhos e anotem) e diferente significado, fazer questão.

[Post 4659]

Tradução

Jamais

      Outra forma irritante de traduzir. «What’s your best guess?» Canja: «Qual a sua melhor aposta?» Só uma pergunta: algum português fala desta maneira enviesada? Tenham mas é juízo.

[Post 4658]


«Salto/tacão»

Sondagem

      Os dois rapazes estavam sentados a «bater com os saltos dos ténis contra a parte de baixo de um banco». Não é, propriamente, um problema de tradução, porque heel («heels of their sneakers») tanto se pode verter por «salto» como por «tacão». Primeira pergunta: «tacão» é mesmo «subtipo» de «salto», como se lê aqui? Segunda: «tacão» é regionalismo? Hum... Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, salto é a «parte do calçado que alteia o calcanhar»; tacão é o «salto do calçado». Sinónimos puros, então. O que me parece é que «salto» é o termo mais usado, mas com alguma preferência (?), que não associo a regionalismo, pelo uso de «tacão» se é referido a calçado de homem. Os meus leitores têm a mesma ideia?
      «Quando o táxi apareceu, a tia Ângela Margarida saiu batendo com os tacões no soalho, nos degraus, na calçada do jardim microclima, e no portão de ferro que gemia» (O Vento Assobiando nas Gruas, Lídia Jorge. Revisão de Filipe Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2006, p. 167).

[Post 4657]

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