Omissão da preposição

Concisa e desembaraçada

      O leitor A. S. pergunta-me se não se deveria omitir a preposição em na seguinte frase: «Publica-se em todos os dias úteis.» Não: podia apenas. «Publica-se todos os dias úteis.» Leia-se o que escreveu Domingos Cegalla: «Do mesmo modo: uma noite que êle me visitou por numa noite em que êle me visitou; o dia que não a vejo em vez de no dia em que não a vejo; a última vez que viajei em lugar de na última vez em que viajei. A omissão da preposição em, nestas e noutras locuções temporais, torna a linguagem concisa e desembaraçada» (Novíssima Antologia da Língua Portuguêsa. Rio de Janeiro: J. Ozon Edição, 1964, p. 229).

[Post 4662]

Linguagem

Os limites da língua

      Na redacção, quando na televisão alguém disse que o primeiro-ministro adiara a comunicação ao País, ouviram-se vários suspiros de alívio. Vamos para casa mais cedo. Afinal, o jornalista disse logo de seguida que seria adiada... meia hora! É que Sócrates, o Procrastinador, estava a ensaiar o discurso, como se viu na TVI: «Ó Luís! Vê lá como é que fico a olhar para os... Assim fica melhor ou fica melhor assim?» Ao ouvirmos «adiar», pensámos logo, é claro, noutro dia, sem que nos tivesse ocorrido de imediato que adiar é transferir (algo); postergar, protelar, retardar — para daqui a segundos, ou minutos, ou horas, ou dias. Ou sine die, sem fixar uma data futura. São os limites da língua. A+diar existe, mas não (e podia) a+minutar. Com «hora» já não daria.


[Post 4661]

Léxico: «esporão»

Galináceos e canídeos

      Estão a ver aquele dedinho rudimentar nas patas dos cães? Que nome se lhe dá? Pois é, ninguém ou quase ninguém sabe, pela sondagem que acabei de fazer aqui. Há quem lhe dê o nome de esporão, talvez por analogia com a saliência córnea no tarso de alguns machos galináceos, também chamada espora. Quanto a acepções do âmbito da zoologia, esta é mesmo a única que os dicionários registam. Cheguei a esta reflexão porque acabei de encontrar o termo inglês «dewclaw», referido a um cão, traduzido por «esporão».

[Post 4660]

«Fazer questão de»

La belle question!

     «He made a point of saying that.» «Ele fez questão em dizê-lo.» Desconfiei desta preposição, pois sempre li e ouvi fazer questão de, expressão idiomática que pode dever alguma coisa à língua francesa (mas não, pelo menos com o mesmo sentido, através de faire question: «Être sujet à discussion, être douteux.») Quando terá entrado na língua? Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa regista apenas a expressão com a preposição de, assim como outra, despreposicionada (puxem dos canhenhos e anotem) e diferente significado, fazer questão.

[Post 4659]

Tradução

Jamais

      Outra forma irritante de traduzir. «What’s your best guess?» Canja: «Qual a sua melhor aposta?» Só uma pergunta: algum português fala desta maneira enviesada? Tenham mas é juízo.

[Post 4658]


«Salto/tacão»

Sondagem

      Os dois rapazes estavam sentados a «bater com os saltos dos ténis contra a parte de baixo de um banco». Não é, propriamente, um problema de tradução, porque heel («heels of their sneakers») tanto se pode verter por «salto» como por «tacão». Primeira pergunta: «tacão» é mesmo «subtipo» de «salto», como se lê aqui? Segunda: «tacão» é regionalismo? Hum... Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, salto é a «parte do calçado que alteia o calcanhar»; tacão é o «salto do calçado». Sinónimos puros, então. O que me parece é que «salto» é o termo mais usado, mas com alguma preferência (?), que não associo a regionalismo, pelo uso de «tacão» se é referido a calçado de homem. Os meus leitores têm a mesma ideia?
      «Quando o táxi apareceu, a tia Ângela Margarida saiu batendo com os tacões no soalho, nos degraus, na calçada do jardim microclima, e no portão de ferro que gemia» (O Vento Assobiando nas Gruas, Lídia Jorge. Revisão de Filipe Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2006, p. 167).

[Post 4657]

Ortografia: «à socapa»

Sob, sob, sob

      «Ia começar assim esta crónica: “Como muita gente desorganizada, mando mails a mim próprio do meu iPhone... iPhone soa sempre mal. O próprio iPhone acrescenta pirosamente, à sucapa, a cada mail que manda: Sent from my iPhone. Para assinalar que é um mail digno de tratamento especial: não vem de um telemóvel qualquer» («O auto-spam», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.04.2010, p. 39).
      Miguel, Miguel, que desgosto... então agora escreve assim, «à sucapa»? Então não é à socapa? Vem de sob + capa. E sob capa de é locução, agora caída em desuso, que significa «pretexto». Lede os Diálogos de Frei Amador Arrais.


[Post 4656]


Invencionice lexical

Não precisamos!

      Como temos andado por aqui a comentar escritas herméticas de académicos e palavras inventadas (e algumas desnecessárias), fica bem citar um excerto da crónica de hoje de Vital Moreira no Público: «Por isso, só uma assumida norma de equilíbrio, contenção e self-restraint é que pode resguardar o Presidente da República de suscetivismos reativos ou de excessos emocionais nos seus juízos políticos. Por definição, o “poder moderador” tem de primar pela moderação. O mote da “magistratura ativa” que Cavaco Silva escolheu para este seu segundo mandato não pode subverter o perfil presidencial que a letra da Constituição e a prática constitucional de décadas consolidaram. Cavaco Silva devia escolher outros meios para se destacar na nossa história constitucional» («O poder moderador», Vital Moreira, Público, 5.04.2010, p. 37).
      «Susceptivismos»! (Esqueçam o AO90.) «Susceptibilidade» é demasiado vulgar, corriqueiro. Basta ver que alguns estudantes a usam.

[Post 4655]

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