Ortografia: «à socapa»

Sob, sob, sob

      «Ia começar assim esta crónica: “Como muita gente desorganizada, mando mails a mim próprio do meu iPhone... iPhone soa sempre mal. O próprio iPhone acrescenta pirosamente, à sucapa, a cada mail que manda: Sent from my iPhone. Para assinalar que é um mail digno de tratamento especial: não vem de um telemóvel qualquer» («O auto-spam», Miguel Esteves Cardoso, Público, 5.04.2010, p. 39).
      Miguel, Miguel, que desgosto... então agora escreve assim, «à sucapa»? Então não é à socapa? Vem de sob + capa. E sob capa de é locução, agora caída em desuso, que significa «pretexto». Lede os Diálogos de Frei Amador Arrais.


[Post 4656]


Invencionice lexical

Não precisamos!

      Como temos andado por aqui a comentar escritas herméticas de académicos e palavras inventadas (e algumas desnecessárias), fica bem citar um excerto da crónica de hoje de Vital Moreira no Público: «Por isso, só uma assumida norma de equilíbrio, contenção e self-restraint é que pode resguardar o Presidente da República de suscetivismos reativos ou de excessos emocionais nos seus juízos políticos. Por definição, o “poder moderador” tem de primar pela moderação. O mote da “magistratura ativa” que Cavaco Silva escolheu para este seu segundo mandato não pode subverter o perfil presidencial que a letra da Constituição e a prática constitucional de décadas consolidaram. Cavaco Silva devia escolher outros meios para se destacar na nossa história constitucional» («O poder moderador», Vital Moreira, Público, 5.04.2010, p. 37).
      «Susceptivismos»! (Esqueçam o AO90.) «Susceptibilidade» é demasiado vulgar, corriqueiro. Basta ver que alguns estudantes a usam.

[Post 4655]

«Ser necessário»: concordância

Estilos e manias

      É outro estilo, em que só interessa o erro, não o infractor. Estilos. «Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio: Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível» (in Língua à Portuguesa, 31.03.2011).
      A frase exacta foi esta, tão boa de analisar como a reformulada: «Há uma série de medidas importantes que serão necessárias adoptar o mais depressa possível.» Foi proferida pelo director do Diário de Notícias, João Marcelino, na RTP1 no dia 23 de Março passado, dia em que o primeiro-ministro se demitiu.
      Já aqui vimos esta questão gramatical. É necessário apenas ver se o sujeito é uma oração, infinita ou finita, ou se é um nome, e como é este representado. No primeiro caso, o verbo fica no singular; no segundo, é feita a concordância. Voltaremos a esta questão.

[Post 4654]



Verbo «colocar»

Duas na ferradura

      «A expressão tem uma explicação bastante simples e prende-se com o trabalho de ferragem dos cavalos, sendo que aos pregos com que se ferram os cavalos, ou seja, com que se coloca a ferradura no cavalo, se chamam cravos e que, ao ferrar o cavalo, os ferradores martelavam o cravo, ou seja, o prego, e a ferradura num movimento alternado, que terá dado de forma irónica origem à expressão dar uma no cravo, outra na ferradura» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.04.2011).
      Sabe que está sob escrutínio, mas escreve assim: «sendo que aos pregos […] se chamam cravos». E lá está uma das maleitas da actualidade: o verbo «pôr» escorraçado. «Colocar ferraduras»! Não era mister tal autoridade («Infalíveis neste baixo mundo, só o Papa e a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, mas aquele é mais contestado», comentou aqui certa vez Montexto), mas aqui vai: «Ferrador, s. m. Indivíduo que tem o ofício de pôr ferraduras nos animais […].» O ferrador (ou, em linguagem fina, o siderotécnico) não aplica, nem mete, nem coloca, nem implementa ferraduras — põe-nas!

[Post 4653]


«Estrato socioprofissional»

Já vimos isto

      Olá, o que é que aqui temos?! Um professor universitário a escrever «extractos socioprofissionais»?! Como podem estas luminárias fumegantes ensinar os alunos se não sabem para si próprios? Mas não venho aqui apenas por isto. Uma pergunta: será que os tradutores pensam que não se pode verter esta construção de outra forma? «One used to be a stoner...» «Um costumava ser pedreiro…»


[Post 4652]

Variedades de azeitona

Só conhecem a galega

      Alguém (espero que inglês) escreveu isto num motor de busca: «Variedades de maçans portuguesas». E lá veio ter ao Assim Mesmo. E hoje perguntaram-me se as variedades de azeitona se grafam com maiúscula inicial. «O azeite x é produzido com azeitonas Galega, Cobrançosa e Picual […].» Bem, se pudermos comparar (podemos?) com as castas de uvas, então grafar-se-ão com maiúscula inicial. Quanto ao título: os dicionários só registam o termo «galega» nesta acepção. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «nome comum a algumas variedades de plantas (ou os seus frutos) cultivadas em Portugal, como a oliveira, a couve, a videira, etc.».

[Post 4651]

Linguagem

Qualidade de

      Não podemos esperar que os dicionários registem todas as palavras, mesmo que a sua frequência de uso e boa formação o justifiquem e o recomendem mesmo. Contudo, destas quatro palavras — atlanticidade, edificabilidade, maritimidade, perificidade — que os dicionários não acolhem, somente a ausência de «edificabilidade» me causa estranheza (e não sou arquitecto). Se não podemos comparar, por exemplo, «atlanticidade» com «casualidade», podemos pô-la a par de «ocidentalidade» — e esta figura nos dicionários.


[Post 4650]

Tradução: «escort girl»

Acompanhe-me

      Podemos traduzir escort girl por «acompanhante», não é assim? E em que dicionário é que a acepção do vocábulo está registada? Para os nossos dicionários, acompanhante é só a pessoa que acompanha ou auxilia outra. (É o caso, senhores dicionaristas, mas explicitem-no.) Os Brasileiros souberam forjar uma expressão deliciosa: garota de programa. Senhores dicionaristas, vamos lá registar a acepção — até para os nossos escribas não pensarem que a não podem usar.

[Post 4649]

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