Acordo Ortográfico

Tempos negros

      Do fundo da redacção, um editor-chefe perguntou se, com o novo acordo ortográfico, se passava a escrever «connosco» só com um n. Esta gente nunca irá ler o texto. Lembrei-me deste episódio agora quando vi que alguém pesquisou «conosco ou connosco português correcto 2011» e veio ter a este blogue. O texto do Acordo Ortográfico de 1990 nem sequer fala especificamente de pronomes pessoais. Em Portugal, escreve-se e continuará a escrever-se «connosco», com dois nn. No Brasil, escrevia-se e continua a escrever-se «conosco» com um n.
      Lembram-se do meu «laboratório»? Pois agora uma professora, e uma das mais espevitadas, afirma (e não só falou, senão que escreveu, o que é pior) que terá de aceitar as grafias dos alunos que estejam em consonância com a norma, e exemplifica: «fenômeno, fato». Ah, se isto fosse só um filme e pudesse mudar-se de canal...


[Post 4436]

«Palavra de ordem»

Podem ser murmuradas

      Maria de São José, num dos noticiários da Antena 1 esta tarde, falou em «gritos de ordem», disparate que ando a ouvir há muito. Lá por serem gritadas não deixam de ser palavras de ordem, ou seja, palavras, locuções ou pequenas frases, não raro rimadas, para serem repetidas, gritadas, cantadas ou reproduzidas por escrito, e que expressam uma reivindicação, um incitamento à luta, um apelo à mobilização, etc. (conforme definição do Dicionário Houaiss).

[Post 4435]

Regência de «procurar»

Procure-se

      «A arqueóloga marinha Kelly Gleason liderou a expedição que durante dois anos procurou por vestígios de baleeiros numa zona marítima protegida» («Descoberto baleeiro do capitão de ‘Moby Dick’», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 14.02.2011, p. 32).
      No Ciberdúvidas, Edite Prada escreve a propósito do verbo procurar assim preposicionado: «O verbo procurar é um verbo transitivo, construindo-se predominantemente sem qualquer preposição. Pode, no entanto, ocorrer com a preposição por, quando o obje(c)to procurado, muitas vezes uma pessoa, tem um valor afe(c)tivo para o sujeito: “Procurei por ti o dia inteiro”; “Procurou por ela o dia inteiro”.» Não é só isto. Francisco Fernandes explica-o melhor: «Procurar por — perguntar por, pedir notícias de, indagar do estado de saúde de: “Não se particularize por nenhuma: fale, e procure por todas.” (F. M. de Melo, C. de guia, 139). “Procurei por ele.” (Constâncio)» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, p. 478).
      Em suma: a jornalista errou e a consultora quase acertou.

[Post 4434]

Sobre «telespectador»

Agora é tarde

      Excelente, o documentário Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um Geógrafo, que ontem passou na RTP2 (e que podem ver aqui). A certo momento, vê-se o geógrafo a ser entrevistado para a RTP a propósito da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957. «Infelizmente não é possível oferecer — como é que se chamam as pessoas que escutam isto?... os telespectadores, são os telespectadores — os ruídos do vulcão, de modo que para os substituir, muito tristemente, aliás, vamos dizer alguma coisa sobre a erupção.» O repórter informou-o de que as pessoas que escutavam (e viam) aquilo se chamavam «telespectadores». Orlando Ribeiro profere duas vezes a palavra, como que a saboreá-la, a experimentá-la, articulou o c. Era então palavra nova — e desnecessária, como por essa altura Vasco Botelho de Amaral demonstrou.

[Post 4433]

«Gama social»?

Lapsos do fado

      No programa Vozes da Lusofonia, de Edgar Canelas, na Antena 1, Carlos do Carmo disse que uma banda tinha tocado num «pelourinho». Edgar Canelas não o corrigiu. Queria dizer, mas a palavra deve estar-lhe empoeirada num escaninho da memória e talvez longe da experiência, «coreto». Mais misterioso foi ter falado, a propósito da nova geração de fadistas, de «gama social». Já tenho ouvido, sim senhor, mas não me convence. O sentido figurado do vocábulo «gama» talvez não seja, afinal, tão elástico.

[Post 4432]

Gentílicos

Há lá camelos

      Espanha, de novo. A Fundéu veio relembrar, recentemente, que em espanhol o nome da capital dos Emirados Árabes Unidos se escreve Abu Dabi, sem h. E quanto ao gentílico? Abudabí (e, no plural, abudabíes). O gentílico dos EAU é emiratí (e, no plural, emiratíes). Entre nós, ninguém diz nem manda dizer nada. Agora, que o primeiro-ministro foi aos Emirados Árabes Unidos vender dívida pública, ainda interessam mais estas coisas. Talvez possamos dispensar o gentílico dos habitantes ou naturais da capital, mas quanto ao gentílico dos habitantes ou naturais dos EAU, não podemos deixar de usar afoitamente (que remédio, não vejo outro) emiradense.

[Post 4431]

Interjeições

Ih, ih, ih

      «Rui Pedro Soares, militante do PS, ex-administrador da PT e arguido (sob suspeita de corrupção passiva) no caso Taguspark/Figo, ilibou ontem José Sócrates das suspeitas de que saberia do negócio PT/TVI antes de ele ter sido tornado público, em 23 de Junho de 2009, numa notícia do jornal i» («Ontem ficou em silêncio», J. P. H., Diário de Notícias, 23.04.2010, p. 3).
      A notícia tem quase um ano, mas é irrelevante para o que pretendo dizer. Já repararam no facto de nunca (ou, vá lá, quase nunca) se fazer desacompanhar o nome «i» da palavra «jornal»? É uma coisinha tão minúscula, e para ali inclinada, e ainda por cima desprovida de semântica, que toda a gente acha que é inadequado escrever meramente «numa notícia do i».
      Eu próprio me sinto na obrigação de escrever mais qualquer coisa. Ah, já sei. A propósito da interjeição «ih», eis que me vem à memória outra (ou «uma outra», como debitariam penas mais redundantes) que encontrei n’As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain (tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 206). «— Não queria, nem o quero fazer, Huck; ¿mas que diriam os outros? Sim, ¿que diriam os outros? “Pfe, o bando do Tom Sawyer! É só gente de baixa categoria!” E quando dissessem isto, referiam-se a ti, Huck. Tu não havias de gostar, e eu também não.» Ora, eu nunca tinha visto esta interjeição escrita, e não a vejo nos dicionários. E com certeza que a profiro. E não julguem que é o mesmo que puf, pois esta é interjeição de enfado ou cansaço. Digam o que pensam, não se acanhem.

[Post 4430]

Ortografias

Não se pode escolher

       «No fim do segundo dia, todos falaram no depoïmento do índio Joe; era evidente e claro, e não havia a menor dúvida àcêrca do que seria a decisão do júri» (As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain (tradução de Berta Mendes. Lisboa: Editorial Inquérito, 1944, p. 206). Ainda no dia 8 foquei aqui esta questão da grafia antiga da locução prepositiva «acerca de». Esta tradução foi publicada nas vésperas da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, ainda na vigência da ortografia saída dos trabalhos de Gonçalves Viana, e considerada a mais coerente e profunda reforma ortográfica, aproximando a ortografia daquela que temos hoje, e que representou, pelo menos em parte, um regresso à ortografia fonética da Idade Média. De fora ficou o Brasil, entrincheirado na vetusta ortografia pseudo-etimológica que alguns em Portugal ainda hoje queriam.
       Mais alguns excertos da mesma obra, em que abundam os acentos diferenciais: «— Tomás Sawyer, ¿onde estava no dia 7 de Junho, cêrca da meia-noite?» (idem, ibidem, p. 209). E eis os pontos de interrogação invertidos, de que já aqui falei: «— ¿Então porque não dás? ¿Porque dizes que dás e não dás? Tens mêdo!» (idem, ibidem, p. 20). O emprego da forma verbal «quere» (que só com o Acordo Ortográfico de 1945 acabou, pois este veio estatuir: «Emprego exclusivo das formas quer e requer na escrita corrente, em vez das formas quere e requere, que, entretanto, serão legítimas, quando se ligarem ao pronome complemento o ou a qualquer das suas flexões: quere-o, quere-a, requere-os, requere-as.») «— Esse é o nome de quando eles me batem; mas, quando me porto bem, sou Tom. Chame-me Tom, quere?» (idem, ibidem, p. 73). E a supressão do h de «húmido» e termos da mesma família: «— Fomos à bomba e molhámos a cabeça. Vê? A minha ainda está úmida» (idem, ibidem, p. 16). «Os olhos umedeceram-se um pouco, pôs as mãos na cabeça de Tom e disse-lhe com simpatia» (idem, ibidem, p. 119).

[Post 4429]

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