«Descrição/discrição»

Regresso ao básico

      «A confirmar-se, optaram por deixar cair o apelido Bardem, optando pelo segundo apelido do actor, cujo nome completo é Javier Ángel Encinas Bardem. Mantiveram, contudo, a tradição espanhola, de o último apelido ser o da mãe. […] A escolha da clínica [Cedars-Sinai] não foi feita ao acaso, já que é conhecida pela sua descrição, evitando que as informações mais íntimas cheguem às mãos da comunicação social» («Leo é o nome do filho de Penélope Cruz e Bardem», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 53).
      «Optaram optando»? Hum... E quando é que entra na cabeça dos jornalistas que têm de recorrer aos dicionários, já que, pelo visto, não atinam com a diferença entre «descrição» e «discrição»? E a pontuação também precisa de ser revista.

[Post 4420]


Como se escreve nos jornais

Decida-se

      «A equipa, que foi coordenada por Alexandra Houssaye, do Museu de História Natural de Paris, contou também com a colaboração de investigadores do sincrotrão europeu, o European Sychrotron Radiation Facility, instalado em Grenoble, onde as imagens de raios X foram realizadas, e do Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha, onde as imagens foram estudadas» («Cobras primitivas tinham pernas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 31).
      Antecipei-me em meses, peço desculpa: eu já tinha dito à minha filha que dantes as cobras tinham pernas. (Espero que não me escorracem da comunidade científica.) Agora aquela equipa veio demonstrá-lo. Bem, mas isso agora não interessa. Parece-me que a jornalista se enganou: Alexandra Houssaye é do National Museum of Natural History. Ah, não é essa a regra, escrever tudo em inglês? Não? Sendo assim, melhor se diria que a outra instituição era o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe. Ou, então, tudo nas respectivas línguas: Muséum National dHistoire Naturelle e Karlsruher Institut für Technologie.

[Post 4419]

Léxico: «aquafone»

Será que quis dizer

      «Um concerto é um concerto, mas ter um(a) notável compositor(a) em palco faz dele um acontecimento. Agora, o compositor ir tocar... aquafone?? Mas é mesmo assim: Gubaidulina interessou-se pelo invento (1969) do americano A. Waters (um apelido bem a propósito...). De aço inoxidável e bronze, é um instrumento acústico em que o som é produzido por fricção de um arco. A base circular tem um conjunto de ressoadores com água no interior e dela sai, a toda a volta, um conjunto de varetas verticais de comprimentos diferentes afinadas segundo uma combinação diatónica e microtonal em duas escalas» («Um instrumento no mínimo bizarro», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 47).
      Todos os dicionários que consultei ignoram o vocábulo. O mais próximo que registam é «aquaforte». Não serve.
      (No programa Império dos Sentidos, da Antena 2, Paulo Alves Guerra disse repetidamente, contaram-me hoje, «Gubáidulina». Anteproparoxítona, hem? Temendo isso, Sofia Gubaidulina explicou no Centro Cultural de Belém que se pronuncia «Gubaidúlina».)

[Post 4418]

Sobre o crioulo «katóta»

Ficamos assim

      Todos os dias chegam ao blogue leitores que querem saber alguma coisa sobre a katóta cabo-verdiana. Estou farto. Mas vamos lá, talvez não saibam exactamente, coitados, a que me refiro quando digo que é sinónimo de órgão sexual feminino. Eis os sinónimos mais poéticos: amêndoa, bainha, flor do corpo, folhos, lalinha, marmota, narsa, países baixos (boa tarde, Fernando Venâncio!), pérola, rabeca, romã, rubi, salão de festas... E pode ler-se no Dicionário do Crioulo da Ilha de Santiago (Cabo Verde), dir. Jürgen Lang (Tübingen: Gunter Narr Verlag, 2002, p. 351): «kotóta [ko’tɔtɐ] s. (vulg.), var. katóta, dt. Geschlechtsorgan der Frau, pg. órgão sexual da mulher, sin. pitáda, kapiton, krika. Expr. idiom.: ~!, dt. Verdammt!, pg. Chiça!: # ~! Dja bu kába modja-m kamiza! (RS) (do portug. catota?)».
      P. S.: E quem é que anda afanosamente a pesquisar «“antónio guerreiro” + revolta»?


[Post 4417]

Pôr/colocar/meter

Também eles mereciam

      Em Northampton, Inglaterra, uma senhora idosa impediu que uma joalharia fosse assaltada, pois atacou os ladrões. Mas ouçamos a jornalista Teresa Nicolau, no Telejornal de ontem: «Sem medos, e apenas com a carteira de mão, atacou, e até se pode dizer, violentamente, os seis assaltantes, que se meteram logo em fuga.» Para evitar estes disparates, ainda não há cursos na RTP. No rodapé, lia-se: «Super-avó». Baralham-se com pouco: metem, põem e colocam onde menos se espera.

[Post 4416]

Ortografia: «pau de sebo»

Dicionário para o dia-a-dia

      «Isso aconteceu após a morte de Hérmias. Embora houvesse sido um bom tirano, tivera de subir pelo pau-de-sebo para atingir a sua posição, e havia quem dissesse que o fizera assassinando um rival» (iPlatão, Filosofia para o dia-a-dia, Mark Vernon. Tradução de Artur Lopes Cardoso e revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Clube do Autor, 2011, p. 72).
      Pesquisei aqui no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora para 2011 (agora os dicionários desta editora são assim, seguem tendências de moda). Nada: não encontro «pau-de-sebo». E porquê? Ora, precisamente pela mesma razão que não encontro, por exemplo, «corda-de-roupa».

[Post 4415]

Regência de «desagradar»

Cada cabeça

      «O novo Acordo Ortográfico deverá chegar às televisões privadas até ao final deste ano. Situação que desagrada o director de Informação da TVI, Júlio Magalhães» («“Isto também é serviço público”, diz director de Informação da RTP», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 8.02.2011, p. 50).
      Desagradar (como agradar), no sentido de causar reacção desfavorável, é habitualmente transitivo indirecto, construído com a preposição a: desagradar a. Há mesmo autores que afirmam que é a única regência admissível para este verbo.

[Post 4414]

Acordo Ortográfico

Ousada, temerária, etc.

      A 1 de Janeiro, a RTP adoptou as novas regras ortográficas. «Não tenho a mínima dúvida de que isto também é serviço público. Ao antecipar-se, a RTP demonstra só que é ousada e que não tem medo de mudar», declarou José Alberto Carvalho ao Diário de Notícias. Houve formação, pois claro, que durou «algumas semanas». «“Não tinha um carácter obrigatório, mas julgo que passaram por lá cerca de 80% a 90% da totalidade dos jornalistas da empresa. Além disso, disponibilizámos um conjunto de ferramentas na Intranet da empresa”, explicou ao DN José Alberto Carvalho» («“Isto também é serviço público”, diz director de Informação da RTP», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 8.02.2011, p. 50).
      Que grande ousadia, caro José Alberto Carvalho. «Intranet» com maiúscula inicial, cara Márcia Gurgel? Hum... (Este termo ainda não ficou na rede de Mário Azevedo.)


[Post 4413]

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