Léxico: «feitoria»

No Alentejo

      «Nas suas propriedades foram conservadas talhas de barro, datadas de 1667, utilizadas na feitoria do vinho» («Vinho envelhecido com tradição», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 8.02.2011, p. 48).
      Nunca tinha visto tal. E os dicionários? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que é o «processo de fabricar vinho»; para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a «manipulação, fabrico do vinho, do azeite»; para o Dicionário Houaiss, é o «processo específico para fabricar vinho». Fazia falta uma abonaçãozinha, acho eu.


[Post 4412]

Pronúncia: «acerca de»

A cerca e as ovelhas

      José Sócrates estava hoje no Congresso das Exportações, em Santa Maria da Feira, e disse, fero e primo-ministerialmente patriótico: «Isto não é acerca de partidos, isto não é acerca de poder, isto é acerca do País.» E como pronunciou aquele triplo «acerca»? «A cerca». No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa em 1940, a locução prepositiva ainda aparecia com a grafia àcêrca. O Acordo Ortográfico de 1945, porém, suprimiu os acentos que distinguiam palavras homógrafas heterofónicas e referiu explicitamente aquela. Por isso, o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, também da Academia das Ciências, datado de 1947, regista já, na página 8, «acerca», indicando, porém, a pronúncia: «(à...ê)». E o Acordo Ortográfico de 1990 continuou nesta via, mas deixou algumas excepções que estão a intrigar os professores (pelo menos os que frequentam qualquer curso sobre a nova norma ortográfica da língua portuguesa. E há cursos destes com uma carga horária de... 12 horas!), como por/pôr. Os falantes não se dão bem com acentos, mas a verdade é que a desambiguação de palavras homógrafas por meio dos acentos ajudava e muito. Pode/pôde, demos/dêmos, cantamos/cantámos, pelo/pêlo, pára/para... Entre excepções e usos opcionais, lá se vai a decantada unidade.

[Post 4411]

Como se escreve nos jornais

Então, distraímo-nos?

      «Wlad Godzich, professor de Literatura na Universidade de Genève, falou, num livro intitulado “The Culture of Literacy”, daquilo a que chama “novo vocacionalismo”, isto é, uma conceção utilitária da universidade, que é transformada num sítio de produção visando preferencialmente o contexto económico, o que requer fornecer aos alunos uma “literacia operativa”, com a qual eles devem ficar dotados das ferramentas para se moverem com eficácia no seu estrito campo» («O presente e o futuro das humanidades», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 32).
      Caro António Guerreiro: creio que é Université de Genève que se diz. Ou será Universidade de Genebra?


[Post 4410]

Léxico: «espartaquista»

Menos escravo

      «As palavras ‘revolta’ e ‘revolução’ têm sido usadas indistintamente para descrever o que se está a passar em alguns países árabes. Deve-se a um grande germanista e mitólogo italiano, Furi Jesi, ter definido com precisão, num livro sobre Rosa Luxemburgo e o movimento spartakista, o campo de referência de cada uma dessas palavras» («Sobre a diferença entre revolta e revolução, no momento em que as duas palavras encontram atualização», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 33).
      Se o nome faz alusão a Espártaco, então será o movimento espartaquista, ou não? Tal como ao movimento não chamaremos, armados em Alemães, Spartakusbund, mas Liga Espartaquista. Ou temos aqui outro Archilochos?

[Post 4409]


«Evocar/invocar», de novo

Sem formação?

      «Os tradutores estão sujeitos a normas estabelecidas nos códigos penais, prestam juramento, não podem faltar quando convocados, a não ser que evoquem motivos atendíveis. Isto é: não dominar suficientemente o Português ou não ter condições para o fazer, como, por exemplo, um outro trabalho que os impeça de prestar aquele serviço» («Tradutores e intérpretes sem receber desde Setembro», Clara Vasconcelos, Jornal de Notícias, 7.02.2011, p. 8).
      Cá está a confusão entre evocar e invocar. Os tradutores e intérpretes jurídicos, sei agora, ainda não têm uma associação, mas no próximo mês, com a criação da Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes Jurídicos (APIJUR), isso vai mudar. Acrescenta a jornalista: «Ninguém sabe quantos existem. Eles são nomeados pelos tribunais e recrutados através de empresas que os indicam ou mesmo através de “candidaturas” que enviam para os tribunais. Não precisam de qualquer tipo de formação.»

[Post 4408]

Sobre «profiler», de novo

É triste

      «“O que queres ser?” É daquelas clássicas de conversa com miúdos. Perguntamos mal percebemos que são capazes de entender a pergunta. Sabemos que vai sair qualquer coisa como bombeiro, polícia, cowboy, astronauta, condutor de automóveis ou tratador de animais, cientista ou veterinário, conforme a brincadeira que estiver no auge ou a série na berra (OK: isto se calhar era dantes, agora é mais top model, cantor, estilista, actor de novelas ou profiler)» («Ser o quê», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.02.2011, p. 24).
      Deve ser triste ter uma profissão para a qual só há designação inglesa. Não me conformo com profiler, mas eis que estou agora precisamente com uma obra, e o vocábulo campeia por ali. Perfilista?, pergunto de novo.

[Post 4407]

Sobre «destabilizar»

Não faz falta


      «A frustração de estar rodeado de crianças que não tinham os mesmos interesses, a ouvir matérias que já conhecia, aborrecia-o e levava-o a destabilizar a aula, por estar aborrecido de ali estar» («Há mais de 60 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal», Raquel Tereso, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 18).
      Em rigor, não precisamos de destabilizar nem de desestabilizar, e quem use conscienciosamente a língua decerto que o sabe.

[Post 4406]

Como se escreve nos jornais

É chinês


      A Liga dos Chineses em Portugal (LCP) apoiou, lembram-se de o ter dito aqui?, Cavaco Silva. Pois agora, numa notícia sobre o agiota chinês que sequestrou uma mulher, lia-se isto na edição de ontem do Diário de Notícias: «Mas o presidente da Associação China Única, Y Pong Chow, desmentiu ao DN a existência de máfias chinesas a operar em Portugal» («Chinês já estava referenciado por agiotagem há 15 anos», Joaquim Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 23). Não apenas o nome da associação não está certo, mas, pior ainda, o nome do próprio presidente da associação, e aparece três vezes no artigo. E era facílimo comprovar estes dados. Se isto não é escrever com os pés, o que é?

[Post 4405]

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