Como se escreve nos jornais

Como as garagens


      «Durante a manhã, o jovem realiza vários testes do foro clínico, sendo normalmente o almoço servido pelas 11.45, seguindo-se um período de recolha obrigatório, altura em que regressa à sua cela individual» («Renato Seabra é vigiado 24 horas por dia no hospital», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 3.02.2011, p. 50).
      «Período de recolha obrigatório», julga o repórter, Ricardo Durães, que se diz. Mas não.

[Post 4388]

O prefixo «re-» no AOLP90, de novo

Diz a Priberam

      Acabo de receber de Helena Figueira, do  Departamento de Linguística da Priberam, a segunte comunicação, relacionada com um texto que aqui publiquei.
     
      «No seu blogue, que a Priberam preza e acompanha com regularidade, numa publicação de 29-01-2011 com o título de “O prefixo «re-» no AOLP” [post 4372], afirma que o FLiP 7, da Priberam, “interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»).” Mais refere que “a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.»”.
      Relativamente a este assunto, a Priberam gostaria de manifestar respeito pela sua opinião e partilhar consigo os fundamentos das nossas opções sobre o assunto da sua publicação.
      Segundo o disposto na Base XVI, 1.º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 1990, utiliza-se o hífen “nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento”. É esta regra que justifica, por exemplo, a nova grafia de sobre-endividamento, cujo prefixo surge no exemplário apresentado no ponto 1.º da referida base. O texto do Acordo Ortográfico é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte, pelo que esta regra deveria ser também aplicada ao prefixo re-. Para este ponto, o texto legal estabelece uma única excepção, na nota à alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, referindo-se apenas ao prefixo co-, que deverá ser usado sempre sem hífen. Com o Acordo de 1990, as regras para o uso do hífen nos casos de prefixação passam a ser gerais e contextuais, ao contrário do Acordo de 1945, que aplicava regras específicas a um prefixo ou a um grupo fechado de prefixos.
      Foi este o entendimento inicial da Priberam, uma vez que outra interpretação contraria claramente a letra e o espírito do Acordo Ortográfico, estabelecendo uma excepção não prevista. A Priberam entendeu que seria ilógico tomar a excepção prevista para co- como modelo para re-, uma vez que as excepções devem estar explícitas no texto e não ser obtidas por dedução. Também a "Nota Explicativa" (ponto 6.3) reitera o que é referido na base XVI, 1.º, alínea b): "uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte: (...) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen". Como este não é o caso nas sequências re-e..., o hífen deveria ser usado neste contexto.
      Apesar disto, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras (ABL), no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009) [VOLP], entendeu que deveria instituir uma excepção para o prefixo re-. A única justificação apresentada pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL na "Nota explicativa" (pp. LI a LIII) do referido Vocabulário é que uma das medidas tomadas foi "incluir, por coerência e em atenção à tradição lexicográfica, os prefixos re-, pre- e pro- à excepcionalidade do prefixo co-". Se para os prefixos pre- e pro- parece haver uma justificação, não pela alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, mas pela alínea f), o mesmo não acontece com o prefixo re-. Por outro lado, é invocada a tradição lexicográfica quando se trata de um tópico sobre o qual o Acordo Ortográfico se pronuncia, alterando justamente a tradição lexicográfica e as indicações prescritas pelo Acordo Ortográfico anterior.
      Em Portugal, o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), cujo Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) foi recentemente adoptado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, publicada em 25 de Janeiro de 2011 no Diário da República n.º 17, I Série, pág. 488, seguiu a mesma interpretação da ABL. A Priberam manteve a sua interpretação inicial de grafar re-e... até à data em que o VOP passou a ser indicado nesta resolução como uma obra lexicográfica de referência em Portugal, nomeadamente no ensino, a partir do ano lectivo de 2011/2012. Os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo VOLP da ABL e seguida pelo VOP do ILTEC.
      Sublinhe-se que esta é uma opção que decorre da publicação do VOLP e do VOP e não da aplicação da letra e do espírito do Acordo Ortográfico, cujo texto altera inúmeros outros casos de grafias tradicionalmente estáveis. Como exemplo de grafias em que o AO vai contra a tradição lexicográfica, pode referir-se novamente o prefixo sobre-, que já em obras do século XVIII (como o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau [1728] ou o Diccionario da lingua portugueza, de Antonio de Moraes Silva [1789]) ou do início do século XX (como o Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo [1913]) era sempre grafado sem hífen quando o elemento seguinte se iniciava com a letra e. Em determinados pontos em que o AO é omisso ou não explicita regras gerais (como, por exemplo, no caso de alforge/alforje ou de connosco/conosco), a tradição do registo lexicográfico de certas palavras poderá ser um argumento invocável, uma vez que não há outra maneira de se saber ou inferir qual a ortografia a adoptar. Se a tradição lexicográfica pudesse ser invocada constantemente como argumento para a manutenção de determinadas grafias, os acordos ortográficos deixariam de fazer sentido, uma vez que o objectivo destes é precisamente a alteração ou simplificação de determinadas grafias e regras ortográficas (por vezes divergentes), preconizadas durante décadas por obras lexicográficas.
      O texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria e é lacunar, ambíguo ou incoerente em alguns aspectos, pelo que foi necessário definir linhas gerais explícitas e fornecer ao utilizador a explicação de algumas opções tomadas pela Priberam, que estiveram sempre disponíveis ao público (cf. Critérios), desde o primeiro produto com opção de correcção e consulta segundo a nova grafia.
      A reflexão acima, ainda que longa, pretende apenas apresentar uma posição que entendemos defensável (não podendo ser qualificada de erro), pois as várias versões do FLiP que incluem a ortografia segundo o Acordo Ortográfico de 1990 foram desenvolvidas ao longo de vários anos, com um trabalho contínuo baseado no texto legal, dada a ausência de instrumentos lexicográficos reguladores autorizados, nomeadamente o "vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa", previsto no art.º 2.º do texto do Acordo, que permitam substituir as obras tidas como referência maior na lexicografia portuguesa, de que são exemplo o Tratado de Ortografia e o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.»


[Post 4387]

Ortografia: «esfuziante»

Fuzilados


      Há erros que parecem resistir a tudo. Mas não: talvez só resistam a uma má revisão. Por exemplo, aquele A Caminho de Santiago, de Ana Saldanha. É a 2.ª edição, revista e alterada, e passou mesmo do Campo das Letras para a Editorial Caminho, mas os erros continuam. Vai um: «— Santiago, aqui vamos nós! — grita, esfusiante, e a mãe olha para ele de lado e pergunta» (p. 23). Afinal, não são só os «jovens» que escrevem com erros... Mnemónica: é com z porque vem de «fuzil».

[Post 4386]

Onomatopeias

Escutem


      Perguntaram-me, ontem, como se escreve a onomatopeia do som das ambulâncias e dos carros da polícia. Primeiro, deve dizer-se que as principais onomatopeias deviam estar registadas nos dicionários. Depois, bem, depois vê-se com duas grafias precisamente por não estar dicionarizada. No caderno de exercícios de um manual da Língua Portuguesa, Na Ponta da Língua, da Porto Editora, leio «tinóni», mas não vejo necessidade do acento agudo. «O Helder, que partilhava o quarto com o Luís, estava numa sala ao lado do átrio, a ver sites sobre a cidade e a região, e veio ter comigo quando ouviu os carros da polícia, que não paravam com o seu tinoni, tinoni, tinoni... Não era bem assim, mas estou a traduzir o som das ambulâncias galegas para português» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., pp. 71-72). Em espanhol, mas há-de ser apenas na meseta ibérica, diz-se nino-nino-nino. Talvez Fernando Venâncio saiba como dizem as criancinhas galegas.

[Post 4385]

Como se escreve nos jornais

Está pronunciado


      Já aqui tínhamos visto os bombeiros a confirmarem o óbito de duas vítimas de um acidente. Hoje, temos algo semelhante: «Segundo a acusação, o pessoal de emergência médica pronunciou Carlos Castro como morto às 19.18 e, de acordo com o director do serviço de saúde da cidade, as causas da morte do jornalista foram lesões no pescoço e na cabeça, que resultaram em homicídio, apresentando ainda lesões graves na cara e na parte genital feitas por um saca-rolhas» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50). Já temos sorte não ter sido uma empregada de limpeza mexicana a «pronunciar» o óbito. E reparem como as lesões no pescoço e na cabeça resultaram não apenas na morte do «malogrado cronista», como também se lê no Diário de Notícias, mas no homicídio. Não é feito para qualquer homicida.

[Post 4384]

Como se escreve nos jornais

Tão pobres


      «Foi debaixo de enorme expectativa e perante a presença de muitos meios de comunicação social portugueses e norte-americanos — jornalistas tiveram acesso em número ilimitado, mas só sete fotógrafos puderam entrar e o vídeo não foi permitido — que o acusado entrou no quarto 1313 do terceiro piso do Tribunal Criminal de Nova Iorque, localizado no número 60 da Centre Street, regressando de seguida ao Hospital Bellevue, onde se encontra desde 8 de Janeiro, primeiro sob custódia policial e depois detido, e ali deverá ficar até à próxima audiência no tribunal» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50).
      Em alguns tribunais portugueses, os processos, ainda artesanalmente cosidos, acumulam-se nas casas de banho. Nos Estados Unidos da América, as audiências decorrem em quartos... O jornalista pensava que só havia rooms nos hotéis, mas não...

[Post 4383]

Tradução

Buracos e tradução


      «Near the fiftteenth green», dizia, conciso, sem floreados, o original. O tradutor, porém, fez questão de «aprimorar»: «Em dada altura, devido ao facto de o Sr. Hart ter perdido uma bola num tracto de erva perto do décimo quinto buraco, ocorreu uma coisa bem curiosa.» «Tracto de erva», de qualquer modo, causa-me alguns engulhos. Tracto é pedaço de terreno; extensão; região; jeira. E, depois, e numa acepção mais usada, o tracto urinário, o tracto digestivo..., isto é, conjunto de canais, cordões, vias, feixes ou órgãos que pertencem a um mesmo sistema. Tracto ou tufo, é para arrasar cerce.

[Post 4382]

Verbo «haver»

Até os Cairotas entenderiam


      «Na sequência dos confrontos que começaram a 25 de Janeiro no Egipto e que já causaram mais de 125 mortos e milhares de feridos, o Governo português decidiu enviar um avião para retirar os cidadãos lusos do país e apelou ontem ao contacto destes. O primeiro voo parte hoje às 10h30 do Cairo com destino a Lisboa e irá transportar 70 portugueses. Contudo podem haver mais viagens, disse o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas» («Primeiro voo com cidadãos lusos abandona hoje o Cairo», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 1.02.2011, p. 5).
      É aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam muitos jornais, revistas e mesmo, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez, livros. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto-me o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir.
      Quanto a «lusos» em vez de «portugueses», moda lançada e mantida pelos jornais gratuitos, é simplesmente execrável.

[Post 4381]

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