Léxico: «idadismo»

Discriminação


      Racismo, sexismo, idadismo... Sim, sim, mais um neologismo. Em inglês, ageism, surgiu em 1969, cunhado pelo psicólogo americano Robert Butler. Eis a definição do Merriam-Webster: «prejudice or discrimination against a particular age-group and especially the elderly». Como seria mais que previsível, já por aí corre também com o nome de «ageísmo».

[Post 4377]

Acordo Ortográfico

Bem-aventurados


      D’Silvas Filho, no texto «Novos argumentos a favor do Acordo Ortográfico», afirmou: «Diz-se que o acordo de 1990 apresenta os mesmos defeitos científicos que o projecto de 1986. Ora o argumento não é válido na comparação, pois um motivo (além do horror ao cágado sem acento, como lembro sempre) por que o projecto de 1986 foi abandonado era justamente ter soluções inaceitáveis nos poucos casos em que a procura da simplicidade foi imponderada (ex.: *bemaventurado, com possibilidade de retorno da grafia sobre a fonia). Isto não se verifica no acordo de 1990.» Lembrei-me agora desta afirmação quando li esta frase na Nova Floresta, do padre Bernardes: «Determinado tinha S. Agostinho consultar a seu amigo S. Jeronymo sobre o que sentia da gloria dos bemaventurados.» Cito uma edição do século XIX, mas, para o fim em vista, é indiferente. Alguém acredita que tenha havido retorno da grafia sobre a fonia ou perigo de tal ter acontecido? Bem sei: outros tempos, havia menos leitores e mais ouvintes. Ainda assim, é preferível termos o acordo de 1990.

[Post 4376]

«Si próprio/si mesmo»

Pois bem


      Há dias, um leitor habitual do blogue perguntou-me se «si próprio» e «si mesmo» eram ambas locuções correctas ou uma era mais correcta. Tanto quanto sei, ambas estão correctas, mas creio que pode haver confusão com o uso do pronome pessoal connosco, que normalmente não se emprega com pronomes demonstrativos (mesmo, próprio, etc.) nem com numerais. Em alternativa, empregar-se-á o pronome nós precedido da preposição com: com nós mesmos; com nós três. Porquê? Napoleão Mendes de Almeida, por exemplo, só refere razões de eufonia: «Nota — Manda, entretanto, a eufonia que se diga com nós mesmos (ou mesmas) e com nós próprios (ou próprias) em vez de conosco mesmos e conosco próprios. A mesma regra se deve observar quanto às formas com vós mesmos (ou mesmas) e com vós próprios (ou próprias)» (Gramática Metódica da Língua Portuguesa. São Paulo: Edições Saraiva, 1979, p. 175). Na Nova Floresta, de Manuel Bernardes, contudo, leio «connosco mesmos».

[Post 4375]

«Ficar sem pinga de sangue»

Imutáveis, fixas


      «Por momentos, a médica Joana Seabra, grávida de dois meses, e o farmacêutico José Malta ficaram sem pingo de sangue» («Anatomia de um crime», Miguel Carvalho, Rosa Ruela, Teresa Campos e Sara Rodrigues, Visão, 13.01.2011, p. 88).
      Ainda há — graças a Deus! — coisas imutáveis, e entre elas estão os idiomatismos. Não se diz «ficar sem pingo de sangue» — mas sim «ficar sem pinga de sangue».

[Post 4374]

Pontuação

Ora, ora


      «Por isso, quando o seu carro me apareceu à frente, ainda antes do Cais do Sodré, foi-me fácil alimentar o crescimento de uma irritação no espírito. Desacelerar atrás de si, fez-me prestar atenção súbita à realidade concreta daquele fim de tarde: o trânsito, as apitadelas, o céu escuro, a quase noite» («Carta à senhora que ultrapassei pela direita na semana passada, na zona de Santa Apolónia», José Luís Peixoto, Visão, 13.01.2011, p. 12).
      Não pode haver, julgo, duas interpretações sobre isto: «Desacelerar atrás de si», que, em si, é uma oração, é o sujeito de «fez-me» — e nunca se separa o sujeito do verbo e este dos seus objectos com uma vírgula, quando a oração se apresentar na ordem directa. Um escritor até pode distrair-se ou julgar ter uma licença especial para desrespeitar a gramática, mas os revisores não podem ter essas veleidades nem distrair-se muito.

[Post 4373]

O prefixo «re-» no AOLP

Ah, estou a perceber


      «Foi já no Governo que Maria João Seixas o re-encontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente» («O mais civil dos militares de Abril», Paulo Chitas, Visão, 13.01.2011, p. 43).
      Como já aqui escrevi uma vez, salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. Parece que confiaram tudo ao corrector ortográfico Flip 7, da Priberam, que interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»). Concretamente, a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno
      Os redactores do acordo foram imprudentes ao não referirem as excepções. «Um caso», comentou aqui o leitor Franco e Silva, «é aquele que muito bem comenta, o do prefixo re- quando se segue palavra iniciada com e, em que o bom senso e a antiquíssima e estabilizada tradição vocabular justifica a fusão dos elementos (como em reeditar e reeleger, etc.). Outro caso é o do prefixo sub- quando se segue um elemento vocabular iniciado por r ou b (sub-reptício, sub-roda, sub-base, sub-bibliotecário, etc.) em que o bom senso, a cimentada tradição vocabular e até a orientação de pronunciação justificam a sua manutenção. Causa estranheza que conceituados linguistas aceitem a segunda excepção, mas não a primeira, a contrario do VOLP (ALB), que na nossa opinião muito bem, pontificaram como distracções as lamentáveis omissões da comissão luso-brasileira do A.O. e hifenizaram tais palavras.»
      E agora uma experiência: pego na frase da Visão e analiso-a no conversor ortográfico da Porto Editora, gratuito. Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Muito bem, então agora modifico a frase: «Foi já no Governo que Maria João Seixas o reencontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente.» Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Poderá haver análises mais científicas, com recurso a algoritmos e não sei que mais, mas eu estou satisfeito.

[Post 4372]

«Maltrato»?

Que dizem?


      Leio aqui: «São várias as teorias que procuram explicar o maltrato e o abuso.» Como sucede com outros vocábulos, a dúvida avoluma-se-nos na mente: castelhanismo ou derivado regressivo? Acción y efecto de maltratar. O Aulete Digital (verbete novo...) regista que é derivado de maltratar. Não é muito usado entre nós.

[Post 4371]

Tradução

Inglesamentos evolutivos


      Outra personagem aguardou os amigos defronte do «Hollywood Teatro» — Hollywood Theatre no original inglês. Vasco Botelho de Amaral iria persignar-se. Ouçamo-lo: «Mas fiquemos nisto: bar, como aportuguesamento do inglês bar, explica-se por evolução. Pergunto agora: “Victória Bar”, “Cristal Bar”, “Concha Bar”, e maravilhas assim explicam-se também por evolução? Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não responder. Considero suficiente a comparação destas denominações com a construção que algum maníaco se lembrasse de aplicar, generalizando o inglesamento. Passaríamos a ter um Recreios Coliseu, uma Geral Abastecimentos Intendência, um Nacional S. Carlos Teatro, uma Municipal Lisboa Câmara, um Gil Vicente Liceu, e, por fim, evolutivamente, um Rilhafoles Hospital» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4370]

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