Uso do gerúndio

Maior vernaculidade


      Tratava-se de traduzir a seguinte frase em francês: «Le chrétien croit à un Dieu possédant toutes les perfections.» Respondeu Augusto Moreno na obra Lições de Linguagem, vol. 1 (Porto: Editora Educação Nacional, 1937, pp. 94-95): «É que o nosso gerúndio não traduz bem, em regra, o particípio presente francês. O nosso gerúndio nunca deve ser meramente qualificativo: tem sempre alguma coisa de circunstancial. O possédant devia traduzi-lo por uma oração relativa. Assim: “Crê o cristão num só Deus, que possue todas as perfeições.” Repare também em que o verbo antes do sujeito, ao contrário do estilo francês, é característico da melhor vernaculidade. Quando a clareza e harmonia se não oponham à inversão, é claro.»

[Post 4369]

Léxico: «bearnês»

Esqueceram-se


      Aqui a nossa personagem quer contratar uma preceptora para a filha. Numa agência, falou com uma bearnesa mal-humorada. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bernesas. Para o Dicionário Houaiss, bearnês é o indivíduo natural ou habitante do Béarn, em França. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também ignora o vocábulo.

[Post 4368]

«Chamar à colação»

Mal colado


      O caso do dia: fecho das escolas de ensino particular e cooperativo (mas sustentadas em parte, soube-se agora, com muito dinheiro do erário público). No noticiário da 1 da tarde na Antena 1, passou um excerto do programa Antena Aberta. Perguntou António Jorge ao secretário de Estado da Educação, João Trocado da Mata: «Pondera a possibilidade de abrir inquéritos e de tentar perceber de que forma é que elas [as escolas] podem ser penalizadas, chamadas à colação pelo facto de não estarem a cumprir os objectivos e estarem a cumprir o contrato que têm com o Estado?»
      O que é que o jornalista julgará que significa tal expressão? Bem, há duas expressões semelhantes, só varia o verbo: trazer à colação e vir à colação. A primeira significa citar, referir a propósito; a segunda significa vir a propósito. Usou-a, pois, a despropósito. «Chama-se propriedade», lembrou Vasco Botelho de Amaral nas Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa (Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 26), «aquela virtude que nos leva a escolher a melhor palavra capaz de traduzir com exactidão algum conceito.»

[Post 4367]

Léxico: «aquaplano»

A todos os neógamos


      A palavra do dia da Priberam é neógamo! Que ou quem casou recentemente=recém-casado. Gamos, estão a ver?, aqueles mamíferos simpáticos com galhos achatados nas pontas... Presta-se a piadas infames. Não vim aqui para isso, mas para isto: na obra dos rapazes que transportam as clavas, uma jovem esbelta está a praticar esqui aquático. Antes, porém, «ela lançou-se para a água e nadou até ao aquaplano». É impressão minha ou os dicionaristas modernos também se esqueceram deste vocábulo? E ele anda por aí.

[Post 4366]

Léxico: «clava»

A sério?


      Ao anglicismo «caddies», leio aqui esta nota de rodapé numa obra que não posso identificar: «No golfe, os rapazes que transportam as clavas.» Os meus leitores conheciam esta acepção do termo «clava»? O omnipresente Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o que todos registarão: pau curto terminado em pêra; moca; maça. Na Botânica, é o órgão intumescido na extremidade livre. (Ainda ninguém se lembrou de pôr os cádis, jovens ou velhos, a fazer este trabalho.)

[Post 4365]

Léxico: «ciganidade»

Essa é boa!


      «Os ciganos não têm individualmente uma marca genética ou biológica distintiva, concluiu um estudo português publicado numa revista científica internacional, que descobriu que as populações ciganas europeias têm origem no Noroeste do subcontinente indiano. […] “Não há nenhum gene de ciganidade. As comunidades ciganas, como a portuguesa, não são compostas por indivíduos que tenham uma ‘marca’ genética ou biológica distintiva”, explicou à agência Lusa António Amorim, coordenador do estudo do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (IPATIMUP)» («Ciganos não têm marca genética distintiva», Diário de Notícias, 26.01.2011, p. 27).
      Não percebo: para quê o itálico? (Sim, é verdade, teria sido melhor as aspas.) Se escrevem «portugalidade» sem aspas, qual a lógica? Até essa invencionice da «lusofonia» anda por aí à solta sem o açaimo das aspas. Sempre discriminados...

[Post 4364]

Léxico: «medina»

Desalinhado


      «Leila Trabelsi, antiga cabeleireira, filha de um vendedor de fruta e legumes, tinha crescido num dos mais pobres bairros da medina de Tunes» («Mulher do ex-Presidente liderava “cleptofamília”», Maria João Guimarães, Público, 20.01.2011, p. 9).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha lá continua a ignorar que a palavra «medina» existe.

[Post 4363]

«Herbário»: outra acepção

Ah!


      «Pela secretária — enorme — e por muitos dos bancos do anfiteatro estavam espalhadas 68 folhas de cartão. Presos em cada uma delas — como se fossem folhas secas, num herbário — estavam outros tantos perfis de peixes verdadeiros, quase todos em bom estado de conservação, animados à custa de verniz e de olho brilhante e vivo em folha de ouro. […] Certo é que as colecções de herbários de peixes — designa-se mesmo assim, o resultado daquela técnica de conservação — são raras, na Europa. E que ainda o são mais as que resultaram da longa e frutuosa expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. D. João VI terá levado para o Brasil muitas peças que ainda não foram identificadas; outras desapareceram com o incêndio no Museu de Bocage (Museu Nacional de História Natural, Lisboa), em 1978. Em Portugal, restava uma pequena colecção de 18 exemplares, idênticos aos descobertos em Coimbra» («O segundo achamento dos peixes da Amazónia», Graça Barbosa Ribeiro, «P2»/Público, 20.01.2011, p. 9).
      O que me parece é que os dicionaristas ignoram isto. Querem ver que ao Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa nem esta escapou?! Tem a palavra o leitor Paulo Araujo.

[Post 4362]

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