Como se escreve nos jornais

Parabéns

      Luciana Abreu e Yannick Djaló pensaram, pensaram, pensaram, pensaram... e o nome do bebé saiu, escorreito e portuguesíssimo: Lyonce Viiktórya. Apesar de toda a incompetência e ignorância que já vi em conservatórias do registo civil, palpita-me que o nome não vai ser admitido. Ah, mas não era disto que eu queria falar. Disto, sim: «Muitas vezes obrigando a correrias loucas em direcção a todos os pontos cardeais e colaterais, especialmente por a máquina de campanha ser um somatório de boas vontades e de amadorismo, a campanha que hoje termina foi diferente. Ou tentaram fazer que o fosse. Pela postura, pelo rótulo de “candidatura da cidadania”, pelo ênfase dado às propostas, em detrimento dos ataques e contra-ataques entre candidaturas, que tornam o debate político essencialmente pobre», Pedro Olavo Simões, Diário de Notícias, 21.01.2011, p. 10).
      Um dia, os jornalistas ainda saberão que o vocábulo «ênfase» é do género feminino. Entretanto, nem tudo é de rejeitar. Vejam esta frase, por exemplo: «Ou tentaram fazer que o fosse.» Em cada mil jornalistas, 999 escreveriam assim: «Ou tentaram fazer com que o fosse.»

[Post 4345]

Como se escreve nos jornais

Lendário


      «“Enquanto houver um ponto de conecção e entendimento, acho que é possível fazermos coisas juntos”, constata, referindo-se aos dois DJs. “Todas as pessoas que vêm aqui são pessoas com as quais tenho algo em comum e com quem fico contente só por poder juntar estas pessoas”» («‘Homem-Tigre e seus amigos nos Coliseus», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 53).
      O Homem-Tigre é que falou — mas os erros são todos do jornalista. (Claro que a segunda frase não saiu nada escorreita.) Ou serão de algum revisor? Ele há erros e erros, aquele, «conecção», é de cair para o lado.

[Post 4344]

Linguagem

Mas agora morreu


      Morreu o escritor francês Jean Dutourd. A edição de ontem do Diário de Notícias lembrou o homem (grande homem) no seu obituário e, entre o que quero realçar, está isto: «As controversas opiniões a favor dos sérvios da Bósnia, durante o conflito na ex-Jugoslávia, e contra a feminização dos nomes nos anos 90, valeram-lhe muitas críticas» («Um escritor inconformado e homem de causas», Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 49). É isso que se pode ler aqui e ali, «farouchement opposé à la féminisation des noms de métiers». Dar-se-ia bem com a nossa «presidenta»…

[Post 4343]

«Entre o senhor e mim»

Delírios


      Fernando Nobre já desafia Cavaco: «A partir de agora, é entre o senhor e eu» («Providencialismo e tragédia de um Nobre exaltado», Pedro Olavo Simões, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 20).
      Milhões de portugueses falam da mesma maneira, mesmo sem estarem exaltados. Duarte Nunes de Leão, que conhecia bem a língua, escreveu na Crónica d’el-rei D. Afonso: «Entre o Senhor Rei de Portugal e mi,...» E Filinto também escreveu: «Entre ela e mim vou pôr de encontro imensos mares.» E já que falo nisto, ocorre uma questão paralela. Como se deve dizer: «Eu, se fosse a ti...» ou «Se eu fosse tu...»? Camilo escreveu desta última forma.

[Post 4342]

Sintaxe: «valer a pena»

Na volta do correio


      «O mundo dos livros, depois da Amazon (e da maravilhosa Book Depository, que não cobra o correio), passou a ser uma imensidão com muito mais livros, mas muito menos livros (que nunca foram muitos) que valem a pena ler» («O mundo dos livros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.01.2011, p. 41).
      O que é que vale a pena — os livros ou ler? E eu preferia que a maravilhosa Book Depository não cobrasse os portes.

[Post 4342]

«Aquando da», de novo

Esforcem-se um pouco


      Pode ler-se aqui que, «aquando da sua apresentação pessoal à presidência que havia tomado posse», etc. Nem à mão de Deus-Padre devemos escrever assim. Já aqui falámos noutras ocasiões desta malfadada locução prepositiva. Apesar de usada por alguns, poucos, escritores, já aqui o afirmei, e de estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, é de evitar. Epifânio preveniu que há barbarismo tanto na construção «quando da» como em «aquando da», mas que era requintado nesta última. Para ser correcta, a frase em cima havia de construir-se assim: «Quando foi a sua apresentação pessoal à presidência que havia tomado posse», etc. Augusto Moreno vê influência e má adaptação do francês lors de. Depois de se ter começado a admitir o uso de quando foi da, que se abreviou em quando da, em algum momento infeliz se chegou à construção abstrusa aquando da. Que caiu no goto de muita gente, incluindo revisores.

[Post 4341]

Léxico: «desligamento»

Eu não disse?


      Já aqui referi uma vez a hesitação dos falantes no momento de usarem um substantivo em –mento. Na série de entrevistas e debates relacionados com as presidenciais conduzidos por Maria Flor Pedroso na Antena 1, hoje estavam em estúdio Nilton, Jacinto Lucas Pires e Miguel Tiago. Sobre a indiferença dos jovens em relação a estas eleições, Jacinto Lucas Pires, que é escritor, disse: «Eu acho que há uma... um desl... uma... Ia inventar uma palavra, um “desligamento” [risos], mas que é um pouco permanente, e que tem a ver com as pessoas não se sentirem parte da política.» Não inventaria nada, já existe. Afoitamente: desligamento.

[Post 4340]

«Se» apassivante

Das que são vistas


      «Dois reclusos não o eram tanto como se pensava. Estavam numa carrinha celular à porta do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, ambos com algemas. Estas pareciam — duas argolas, aço — das que se vê nos filmes, um tipo preso às barras da cama, ela aproveitando-se para se ir embora com a carteira dele, ele desesperado e impotente, sem poder desprender-se das tais algemas. As dos dois citados reclusos pareciam destas mas não eram.» («Entretanto, no dia-a-dia», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 64).
      Prefiro a construção em que o se é partícula apassivante, levando o verbo para o plural, a concordar com o sujeito: «das que se vêem nos filmes»/«das que são vistas nos filmes».

[Post 4339]

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