Notas de rodapé

Radiotransmissor


      Em 2010, disse-me, orgulhoso, leu mais de duzentos livros policiais. E eu acredito: pelo menos todas as tardes ali está no jardim, ao sol, agora de Inverno, e só levanta a cabeça quando alguma criança dá um gritinho mais agudo. Este ano já está nos livros de guerra e espionagem. Hoje estava a ler Massacre na Normandia, de Matthew Holden, com tradução de Manuel Eduardo dos Santos (Mem Martins: Europa-América, [1984?]). «Veja», disse-me. «O livrinho tem menos de 130 páginas e só uma nota de rodapé, e a menos necessária: à abreviatura RAF, na página 8. Na mesmíssima página em que aparece um misterioso “R/T”. E que raio é isto, “R/T”?» Não terá escolhido o melhor exemplo, mas o reparo nem por isso é injusto: os nossos editores não gostam de notas de rodapé. Nem de muitas nem de poucas. Os leitores não são da mesma opinião.

[Post 4333]

Léxico: «hostel»

Só podemos adivinhar


      «As sete colinas definem os conceitos. Cada um deles é alusivo a um elemento característico de Lisboa: o eléctrico, o candeeiro verde, a Ponte 25 de Abril, a sardinha, o Santo António, a guitarra portuguesa e o beirado das janelas. A partir daí, nascem os graus de separação deste hostel com vista privilegiada sobre o rio; os pisos estão divididos entre os dos Santos Populares, o das comidas tradicionais, o dos bairros típicos e o dos fadistas» («Sete colinas num ‘hostel’ lisboeta», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 18.01.2011, p. 52).
      Apesar de estar no título, o jornalista nunca explicou o conceito de «hostel», como se fosse familiar aos leitores. Etimologicamente, deriva de hospitalis, tal como «hospital», «hostal», «hotel», «hostería»... Aqui explica-se o conceito.

[Post 4332]

Infinitivo

Também podia ser


      Um leitor, A. C. M., acaba de me mandar uma mensagem de correio electrónico em que me diz que no texto anterior, sobre o uso escusado e errado do vocábulo «gay», o verbo «trabalhar» não podia estar flexionado. «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24). Não é assim. Se for regido de preposição (a, na frase citada), o infinitivo pode ser flexionado ou não: ao trabalhar ou ao trabalharem. Ambas as construções estão correctas.

[Post 4331]

Interjeições

Eh, vocês!


      «— He, brochista, estou a falar contigo — disse Beck. Deu uma palmada na maçã e pisou-a quando caiu ao chão» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 117).
       Não é nada de novo neste blogue: desde quando é que a língua portuguesa tem a interjeição de chamamento «he»? Ih, ih, ih! All this seems quite straightforward, but... É tudo falta de reflexão sobre a língua.

[Post 4330]

«Gay/homossexual»

Lamentável


      «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24).
      Não sei o que pode levar um tradutor a deixar no original a palavra «gay». O pouco respeito pela língua, talvez. Então já não se diz «homossexual»? Escrevo este texto, porém, por outro motivo: então e a concordância? Já não se sabe distinguir substantivo de adjectivo?

[Post 4329]

Notas de rodapé

Critérios mais que discutíveis


      «Não foram encontrados danos cerebrais, nem foi detectada nenhuma doença do sistema nervoso central ou alguma anomalia ao nível do estatuto dos cromossomas» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 141).
      Acharam imprescindível uma nota ao nome do poeta «Archilochos» (não, não me parece necessário consultar os Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos para acertar), mas já quanto a «estatuto dos cromossomas», julgam que todos os leitores conhecem. Estão bem enganados.

[Post 4328]

Revisão

Erros e errata e desculpas


      Eu não disse que é bom dar uma olhadela às cartas ao director dos vários jornais? Na edição de hoje do Público, na página 34, pode ler-se esta carta, assinada pela escritora Helena Osório: «A propósito do texto divulgado na rubrica Livros da página Crianças de sábado passado, assinada por Rita Pimenta, em que se dava conta de “erros de pontuação e de ortografia indesculpáveis” no livro Viagens de José pelo Mundo dos Sonhos, a autora e editora da Animedições informa que os livros estão a ser distribuídos com uma errata cujo conteúdo revelamos:
      Os contos de José são escritos noutro tempo, quando ainda não vigorava o novo Acordo Ortográfico (a partir ano lectivo 2011/2012). Em todos os contos há referências a esse tempo em caixa alta. E apenas uma legenda na página 31 o indica, onde se escreve “estória” pela 1.ª e única vez (e não “história”, i.e. pp. 4, 5, 8, 9, 11, 20, 27, 46). Não se trata de erro ou de má acentuação e, sim, de fazer ver a diferença junto dos mais jovens. Como, por exemplo, “pêlo” da lontra (pp. 9-10, 31, 34, 37) em confronto (ou não) com “pelo” mundo dos sonhos de José; ou como “as fôrmas das inúmeras flores em forma de cálice” (p. 52). Considere-se, nesta obra, a pontuação e hifenização o estilo próprio da autora (i.e. semi-encoberto e semi-desfocadas, pp. 25, 31).
      Na página 13, onde se lê “caiem”, deve ler-se “caem”. Na página 15, onde se lê “de certo”, deve ler-se “decerto”. Na página 18, onde se lê “Não viajás-te” e “Matás-te”, deve ler-se “Não viajaste” e “Mataste”. Na página 25, onde se lê “As folhas de Outono”, deve ler-se “As imaginadas folhas de Outono”. Na página 37, onde se lê “se não”, deve ler-se “senão”. Na página 38, onde se lê “dar-te-à”, deve ler-se “dar-te-á”. Na página 40, onde se lê “tornaste”, deve ler-se “tornas-te”. Na página 49, onde se lê “ouvis-te”, deve ler-se “ouviste”. Na página 52, onde se lê “possui-las”, deve ler-se “possuí-las”. Na contracapa, onde se lê “vindo a preocupar”, deve ler-se “vindo a preocupar-se”.»
      Percebe-se: o dinheirinho foi todo para os artistas plásticos, não chegou para contratar os serviços de um obscuro revisor.

[Post 4327]

Tradução

Com tapa-pés


      «Os técnicos de laboratório foram requisitados e, nos seus fatos de tyvek brancos, procederam às buscas mas nada mais foi encontrado» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 139).
      Talvez, com as imagens de filmes recentes ainda presentes, os leitores saibam do que se trata, mas, ainda assim, vejam como é mais claro o que se lia numa reportagem publicada hoje no Diário de Notícias: «Os inspectores detêm 30 jovens para interrogatório. A equipa da LPC [Laboratório de Polícia Científica] fica no terreno para realizar as perícias. Com fatos de protecção descartáveis, tapa-pés e luvas, para impedir contaminações do local e dos vestígios, iniciam a observação no passeio anexo ao muro do Colégio [Pina Manique], recorrendo às técnicas de observação directa (os olhos) e luz rasante, com utilização da lâmpada forense GoldPanther de luz branca. Tiram fotos» («Caso encerrado», Céu Neves, Diário de Notícias, 15.01.2011, p. 6). «Fatos de protecção descartáveis», nem mais. E «tapa-pés» também é um achado de simplicidade.

[Post 4326]

Arquivo do blogue