Sobre «estocástica»

Discordes, por uma vez


      «Aos dez anos aprendeu sozinho estocástica, cálculo integral e geometria analítica de um manual que tinha roubado da biblioteca dos professores» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 61).
      Quando li, de imediato me ocorreu que «cálculo de probabilidades» seria o mais correcto. Mas não tenho a certeza. Estranhamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o substantivo estocástica. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, afiança que «estocástica» é o mesmo que «cálculo das probabilidades». Para o Dicionário Houaiss, a «estocástica» é o «emprego para uso estatístico do cálculo de probabilidade». É esta, ao que me parece, a definição correcta.

[Post 4322]

«À diferença de»?

Também reclamamos


      «Numa 6.ª-feira dia 13, a Ensitel passou três vezes debaixo de escadas, partiu dois espelhos e cruzou-se com um gato preto, pelo que não pode queixar-se de azar por ter tropeçado numa cliente habituada a fazer valer os seus direitos (à diferença da maioria dos portugueses que se queixam muito mas reclamam pouco), e que, ainda por cima, coordena a comunidade de blogues do Sapo e é mais célebre e influente nas redes sociais do que a batata frita» («O misterioso caso do ‘Nokia E71’ às escuras», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 9).
      ¿Qué tenemos aquí? Posso estar enganado, mas em Portugal nunca ouvi a expressão. Em Espanha, sim: a diferencia de. Locução prepositiva para «denotar la discrepancia que hay entre dos cosas semejantes, o comparadas entre sí». Lá por usarmos «à semelhança de» não quer dizer que possamos usar «à diferença de».

[Post 4321]

Calibre das armas

Não disparem mais


      «A arma é uma pistola de alarme transformada numa 6.35 milímetros, que tinha sido adquirida, já adaptada, a um colega por 200 euros. O propósito da aquisição, segundo o próprio, “não estaria relacionado com uma intenção de a poder utilizar, apenas porque gosta de armas”. Ao jovem foram ainda apreendidos dois cadernos, que trazia numa mochila, com desenhos e referências a composições de mistura de substâncias químicas, assim como a informação onde poderiam ser adquiridas, para a fabricação de explosivos» («Bom aluno a Química com arma e manual de bombas», Célia Domingues, Diário de Notícias, 13.01.2011, p. 18).
      Erro muito comum, este de usar o ponto em vez da vírgula a separar a parte inteira da parte decimal de um número. Não, é 6,35 mm que se deve escrever.

[Post 4320]

«Estadio»?

Isso não


      Hoje foi a vez de o candidato Defensor Moura ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso. Nada de especialmente grave, excepto o que a deformação profissional impõe: pronunciou «estadio» em vez de «estádio». De resto, é o candidato com o discurso mais articulado, sem ter, todavia, o estro altissonante de outros.

[Post 4319]

Acordo ortográfico

Além-fronteiras


      Sentem-se, a notícia é tristíssima. Ainda ontem vi uma professora de Português (!) escrever, «segundo o Acordo Ortográfico de 1990», «adatando-nos», «por analogia» com «adoptar» na nova grafia... Claro que também escreveu «interajudar-mo-nos», o que diminui consideravelmente a imputabilidade. E as novas regras ortográficas, recordo, terão de ser aplicadas nas escolas a partir de Setembro. Ainda estamos a tempo de levar os nossos filhos para Badajoz.

[Post 4318]

Redacção

Complicando


      «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83).
      Claro que sempre podemos complicar a frase com mais sinónimos: «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos. As portas, que tinham quatro bisagras, ficariam agora definitivamente desiguais, pois já não se fabricavam borboletas daquelas. A fábrica de charneiras, onde tinha trabalhado um tio, fechara há muito. “Que porra!”, pensou Samir. “Agora vou ter de fazer eu um engonço novo na oficina do meu primo. Se a miúda vê que a chumaceira está partida, estou tramado.” Lembrou-se então que tinha alguns gínglimos na arrecadação, e foi para lá que se dirigiu. Procurou na caixa e não encontrou nenhuma macha-fêmea que se assemelhasse, ainda que vagamente. “No baú!” Encontrou um mancal que não destoava muito. Grato, deu um beijo sonoro no quício.»

[Post 4317]

Confusões

Confusões antigas


      Mandado e mandato: «Os mandatos de prisão foram levantados e ambos foram postos em liberdade» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83). Toga e beca: «Os juízes vestiram as suas togas na sala de deliberações, um dos jurados atrasou-se alguns minutos e o guarda teve de ser substituído, depois de se queixar de dores de dentes» (idem, ibidem, p. 59).

[Post 4316]

Tradução

Por Zeus!


      «Karim pensou na frase do filho de escrava Archilochos, que se tornara para ele um leitmotiv: “Muito entende a raposa; o ouriço, pelo contrário, apenas sabe uma coisa» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 65).
      Não há, creio, duas interpretações: isto é falta de cultura geral. Por pouco, ficava em grego: Ἀρχίλοχος. Francamente. Então não se trata do poeta grego Arquíloco, que renovou a poesia ao introduzir o verso jâmbico (ou iâmbico, se quiserem)? E o nome até mereceu uma nota de rodapé, mas, ainda assim, não se fez luz.

[Post 4315]

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