Redacção

Complicando


      «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83).
      Claro que sempre podemos complicar a frase com mais sinónimos: «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos. As portas, que tinham quatro bisagras, ficariam agora definitivamente desiguais, pois já não se fabricavam borboletas daquelas. A fábrica de charneiras, onde tinha trabalhado um tio, fechara há muito. “Que porra!”, pensou Samir. “Agora vou ter de fazer eu um engonço novo na oficina do meu primo. Se a miúda vê que a chumaceira está partida, estou tramado.” Lembrou-se então que tinha alguns gínglimos na arrecadação, e foi para lá que se dirigiu. Procurou na caixa e não encontrou nenhuma macha-fêmea que se assemelhasse, ainda que vagamente. “No baú!” Encontrou um mancal que não destoava muito. Grato, deu um beijo sonoro no quício.»

[Post 4317]

Confusões

Confusões antigas


      Mandado e mandato: «Os mandatos de prisão foram levantados e ambos foram postos em liberdade» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83). Toga e beca: «Os juízes vestiram as suas togas na sala de deliberações, um dos jurados atrasou-se alguns minutos e o guarda teve de ser substituído, depois de se queixar de dores de dentes» (idem, ibidem, p. 59).

[Post 4316]

Tradução

Por Zeus!


      «Karim pensou na frase do filho de escrava Archilochos, que se tornara para ele um leitmotiv: “Muito entende a raposa; o ouriço, pelo contrário, apenas sabe uma coisa» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 65).
      Não há, creio, duas interpretações: isto é falta de cultura geral. Por pouco, ficava em grego: Ἀρχίλοχος. Francamente. Então não se trata do poeta grego Arquíloco, que renovou a poesia ao introduzir o verso jâmbico (ou iâmbico, se quiserem)? E o nome até mereceu uma nota de rodapé, mas, ainda assim, não se fez luz.

[Post 4315]

Revisão

Vamos longe


      «A suite tinha 35 m2 e estava decorada em tons quentes de castanho» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 85). «A história desse cativeiro que decorreu por 3096 dias foi revelada pela própria em Setembro do ano passado, numas memórias que acabam de ser traduzidas para português, um livro em que conta quase tudo o que viveu para sobreviver à prisão num cubículo de 5 de uma cave e à subnutrição em que era mantida para evitar a sua fuga» («A intimidade dos 3096 dias negros de Natascha Kampusch», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.01.2011, p. 46).
      É deprimente ver (e os 13,95 euros que o livro custou ajudam a catalisar o processo) como até nos jornais, por vezes, se tem mais cuidado com a escrita. Serão estas questões a que actualmente só os leitores da área de ciências são sensíveis?

[Post 4314]

«Evocar/invocar»

Culpem a polícia


      «Por fim, combinámos que eu informava a polícia sobre a recuperação da taça e dos relógios. Naturalmente, Tanata não me perguntou quem tinham sido os autores, assim como eu me abstive de lhe perguntar sobre Pocol e Wagner. Só a polícia colocou questões; eu pude evocar a minha obrigação profissional de guardar segredo para proteger os meus clientes» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 39).
      A polícia às vezes faz grandes estupidezes, e essa de «colocar as questões» é mais uma. Se isto já chegou aos livros revistos, é porque estamos mesmo perdidos. E o narrador, que é advogado, a «evocar a obrigação profissional de guardar segredo», também não é coisa inesperada — só errada. E palavrosa. Invocar, queriam o tradutor e a revisora escrever. E aqui o segredo pode transmutar-se em sigilo.

[Post 4313]

«Fita separadora»?

Imagem tirada daqui

Quem me dera saber


      «O cabeleireiro de Pocol e o passeio foram isolados com fita separadora vermelha e branca, projectores iluminavam o interior» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 36).
      E porque há-de ser «separadora»? Não sei.

[Post 4312]

Doutor e licenciado

Nem na Floresta Negra


      «Claro que Fähner passou os seus exames com distinção, doutorou-se e conseguiu o primeiro emprego no hospital da comarca de Rottweil» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 14).
      Hoje lembrei-me deste excerto desta obra quando ouvi a entrevista de Fernando Nobre na Antena 1. Dizia o candidato presidencial a determinada altura que o pai queria que ele fosse professor de Cirurgia. Nem mais. Ora bem, o nosso Fähner na página 13 ainda era «estudante de medicina em Munique» (a história da vida da personagem, na verdade bem contada, está condensada em meia dúzia de páginas). Não sei o que está no original, reparem, mas algo me diz que o futuro assassino da mulher não se doutorou — licenciou-se. Algum leitor que conheça o original, Verbrechen, por favor, diga-me alguma coisa.
      Depois de tanta confusão, os dicionários tiveram de passar a registar o vocábulo doutor também como tratamento que, nas relações sociais, se dá a um bacharel ou licenciado. Os verdadeiros doutores, isto é, as pessoas habilitadas com o doutoramento, é que não devem apreciar muito. Entre tese e dissertação também há, como já aqui vimos duas vezes, confusões.

[Post 4311]

Região gandaresa

Morreu e agora sabemos


      «Num café daquela cidade gandaresa, José Malta, farmacêutico, de 30 anos, confessa que tem de fazer “um exercício mental” para perceber o drama. Ao reagir à acusação de homicídio, desabafa: “Só se ele estava possuído, uma coisa do outro mundo, paranormal.” O cunhado enfatiza que havia uma “relação de confiança” entre o cronista e o jovem, mas, apenas, do foro profissional» («Suspeito de homicídio de Carlos Castro tinha namorada», Paula Carmo, Diário de Notícias, 11.01.2011, p. 55).
      Nunca tinha lido o vocábulo na imprensa. Pelos dicionários, não vamos longe no conhecimento do que seja gandaresa. Aqui, leio isto: «A região gandaresa estende-se no sentido norte-sul desde as Gafanhas da ria de Aveiro até aos campos do Baixo Mondego; a nascente confina com as terras da Bairrada e a poente com as dunas do litoral.»
      Gandarês é o que é próprio ou relativo à gândara, que é o terreno despovoado mas coberto de plantas agrestes ou o terreno arenoso pouco produtivo ou estéril. É isso mesmo, caro leitor, a gandarinha, a planta espontânea da família das Iridáceas, deve o seu nome ao facto de nascer nas gândaras. Isso mesmo, o topónimo Gandarinha é daqui que vem, do nome da planta, e a planta, como acabámos de ver, do nome do terreno em que cresce. Agora já pode contar aí (ou lá) em casa.

[Post 4310]

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