Topónimos

Aqui não


      Na boa senda, mas não neste caso: «A maior parte dos refugiados reinstalados em 2010 são mulheres sós ou acompanhadas de filhos menores e agregados familiares, alguns deles com necessidades médicas especiais. São pessoas que fugiram dos países de origem, por razões políticas ou devido a conflitos armados, para a Ucrânia, Síria, Líbia, Bielorússia e Moçambique. As autoridades destas nações não estavam em condições de garantir “aos refugiados uma protecção adequada e duradoura”, diz um comunicado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)» («33 refugiados é recorde no programa de reinstalação», Céu Neves, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 16).
      A grafia correcta é Bielorrússia. Segue, pois claro, as regras comuns da ortografia portuguesa. É erro muito encontradiço, vá-se lá saber porquê.

[Post 4277]

Topónimos

Na boa senda

      É por onde segue o Diário de Notícias no que respeita a topónimos: «Tinham passado apenas cinco meses desde que chegara ao poder ao vencer umas eleições provocadas pela cassação do mandato de Gray Davis. Este democrata, que governava o estado da Califórnia desde Janeiro de 1999, foi alvo daquilo a que nos EUA se chama uma recall election — procedimento através do qual os eleitores chamam de volta para reavaliação um político que elegeram e podem removê-lo do poder pela via do voto directo. Isto depois de terem sido conseguidas as assinaturas suficientes para desencadear este processo. Davis foi o primeiro governador a ser alvo deste procedimento na Califórnia e o segundo na história dos EUA (o primeiro foi Lynn Frazier no estado do Dacota do Norte em 1921)» («À política ou ao cinema, Schwarzenegger voltará», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 25).

[Post 4276]

Tradução

Muito bem


      «O patriarca copta ortodoxo Chenouda III já garantiu que celebrará a missa de Natal como todos os anos. […] Ontem, talvez em consequência do reforço da segurança, concretizada num aumento dos controlos policiais junto às igrejas e a um aumento da vigilância em portos e aeroportos, a calma parecia começar a afirmar-se no Cairo e em Alexandria, embora nesta cidade um grupo de 30 cristãos tenha impedido que a equipa de renovação entrasse na igreja» («Egipto reforça segurança a igrejas em vésperas de Natal ortodoxo», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 26).
      Não seriam poucos os jornalistas que em vez de Chenouda III escreveriam Shenouda III, e em vez de controlos policiais optariam por checkpoints, que não poucos tradutores usam para «enriquecer» o texto. Pois.

[Post 4275]

Linguagem

Queriam


      Vai fazer dois anos, lembram-se?, os líderes parlamentares acordaram que deveriam evitar o uso dos vocábulos «autismo» e «autista» no hemiciclo. Presumo que lá de vez em quando escapará algum deles da boca de um deputado. Os jornalistas é que não foram em cantigas (ou continuam a ser umas perfeitas bestas, segundo o ponto de vista): «A CEDEAO, antes de a sua delegação chegar a Abdijan, tinha alertado Gbagbo que este era “o último recurso” para solucionar de forma pacífica a crise que se arrasta desde que foram conhecidos os resultados das presidenciais. Sublinhando que se ele persistisse em manter-se no poder, a opção seria uma intervenção militar. Mas Gbagbo parece autista perante os alertas e ameaças internacionais e mesmo das forças nacionais que estão ao lado do seu rival» («EUA aceitam receber Gabgbo pela paz na Costa do Marfim», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 28).

[Post 4274]

Gentílicos

Pelo menos isso


      Será incongruente escrever «junta militar birmanesa» quando no título escrevemos, por exemplo, «A resistente de Myanmar»? Tanto como continuarmos a usar o gentílico «cingalês» referido ao Sri Lanka. O gentílico Myanmense ainda não pegou (graças a Deus!) por cá.

[Post 4273]

«Far West/Faroeste»

Não sei quantos % português


      «“Isto parece o Far West, é um assalto à mão armada. Na prática, é mais um imposto, sem que a lei o permita e com efeitos retroactivos”, afirmou Marques Mendes, no seu comentário semanal a Paulo Magalhães» («Horas extraordinárias em atraso de 2010 vão sofrer os cortes salariais previstos para 2011», Público, Leonete Botelho, 24.12.2010).
     Será que Luís Marques Mendes disse mesmo «Far West»? (Ou terá sido «Firewest»? Estou a brincar.) Hum... Se disse, não o devia ter feito, porque temos o aportuguesamento Faroeste, usado há muito tempo. «Em Os Tigres de Mompracem, o malaio amava e era amado por uma loura de olhos azuis — é bom ler estas obviedades quando se é garoto. Salgari passou a vida a mentir, dizendo que conhecia o mundo que contava — as suas aventuras passearam-se pelos mares do Bornéu, Caraíbas e Faroeste americano, quando, se ele mareou, foi só em barcos de cabotagem pelo Adriático» («Os riscos de ler Sandokan», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 60).

[Post 4272]

Abreviaturas

Onde fica o ponto


      «Não é um rapaz do meu tempo mas é do meu tempo de rapaz: Emilio Salgari, o pai de Sandokan. Neste 2011 vai voltar a falar-se de Salgari, a sua morte faz cem anos. Eu li-o nas velhas edições da João Romano Torres & Cª., as capas desenhadas com o pirata malaio» («Os riscos de ler Sandokan», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 60).
      Pode não ser o caso, mas muitos falantes não sabem que, nas abreviaturas, o ponto de abreviação fica antes da letra (ou letras) superescrita: Ant.º, art.º, at.º, C.ª, n.º, sr.ª, Rev.º, etc. Nem é raro ver obras revistas em que este aspecto foi completamente descurado.

[Post 4271]

Formas verbais

Fonemas epentéticos

      Fiz uma pequena sondagem sobre o presente do conjuntivo dos verbos «crer» e «ler». Se se lembram, um leitor, Montexto, lançou aqui a provocação: «Guiai-vos também por conjugadores de verbos internéticos: todos os que encontrei juram a pés juntos e mui contestes que a 1.ª pessoa do plural do presente do conjuntivo de verbos ler e crer é leiamos e creiamos. Lindo serviço! Podem assoar-se à parede.» Fui o único a responder desafiando-o a dizer que obras recentes acolhiam as formas verbais «leamos» e «creamos». Não é muito assisado, a meu ver, atribuirmos tudo à ignorância: quer queiramos quer não (e, renitentes, muitas vezes não queremos), a língua evolui. A sondagem, pois. O revisor antibrasileiro foi o único a puxar da gramática de José Maria Relvas (anda sempre com ela na pasta, como um electricista andará sempre munido de um busca-pólos) e a mostrar-me, ufano: «leamos». Uma excepção. Esta gramática é das que não acolhem, como as que foram publicadas mais tarde, as alternâncias das formas de imperativo da 2.ª pessoa do singular diz/dize, faz/faze, traz/traz, etc., mas apenas dize, faze, traze, etc. As mais recentes só registam as formas diz, faz, traz. Tudo ignorância?
      A intercalação de fonemas não etimológicos no interior de vocábulos, por acomodação articulatória, eufonia, analogia ou por outras razões, não é nada de novo, nem na nossa língua nem noutras.

[Post 4270]

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