«Biofilme», de novo

Nada muda

      «Essas pinturas vivas acabam por ser uma enorme surpresa. Como escrevem os autores no seu artigo, os “biofilmes [estas camadas de microorganismos] são conhecidos por contribuir para a deterioração de outras pinturas em rochas, na Austrália, como acontece nos petroglifos da península de Burrup, na região ocidental”. Mas, sublinha ainda a equipa, o que se passa aqui “é exactamente o contrário”. Ou seja, são esses microorganismos que protegem e, nalguns casos, constituem a própria essência da cor» («Pinturas milenares estão ‘vivas’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.12.2010, p. 32).
      Já aqui vimos que seria melhor adoptar o vocábulo biopelícula. «Petroglifo» nunca antes tinha visto, mas sim petróglifo. Sim, é verdade que, em contrapartida, tanto se escreve hieróglifo como hieroglifo.

[Post 4251]

Cacofonia

Ouçam-se

      Os revisores também têm de estar atentos às cacofonias. (Mesmo os revisores de publicações periódicas, apesar de hoje em dia isso ter menos importância, pois os jornais já não são lidos em voz alta, como há um século. «Por volta de 1900, por exemplo», escreve David S. Landes na obra A Riqueza e a Pobreza das Nações [Lisboa: Gradiva, 2001], «apenas três por cento da população da Grã-Bretanha era analfabeta, o número para a Itália era 48 por cento, para Espanha 56 por cento, e para Portugal 78 por cento.» Segundo o Censo de 2001, na viragem do século ainda havia 10 % de analfabetos em Portugal.) Têm de se ouvir a ler. Ninguém, neste aspecto, supera o revisor antibrasileiro, atentíssimo. Nenhum «que agora», acredito, alguma vez lhe escapou. «Uma biblioteca inteira de livros a arder caía violentamente ao longo do deserto de cem metros que agora separava o abrigo da escola.» Eu sou mais sensível aos ecos e à prolixidade. É só cortar!
[Post 4250]

Tradução: «fuel bladder»

Imagem tirada daqui
Não nos poupem


      Veja-se este caso: há um avião que desde que descolou tem problemas com a bomba de um dos depósitos de reserva. Vão ali 600 galões como peso morto. Mais tarde, «despite the fact that he was finally able to coax the faulty pump into drawing small amounts of fuel from the dead bladder, only 300 gallons remained accessible to the engines». Traduzimos «dead bladder» por «contentor inanimado»? Mas bladder é bexiga; vesícula; empola. Também é, admito, câmara-de-ar, mas apenas por extensão de sentido, pois bladder é tudo o que se assemelhe à bexiga — como a bolsa de borracha no interior de uma bola de futebol. As aeronaves (e os navios) podem ter diversos tipos de depósitos (ou tanques, como alguns querem), e a um deles, que é o da imagem acima, chama-se bladder.

[Post 4249]

Estrangeirismos

Glück muss man haben!

      «É preciso sorte, também, recorda ainda Anselmo Borges. Por isso mesmo, há palavras cujo étimo assume as duas ideias em conjunto, felicidade e sorte. O glück alemão remete para ambas, a raiz da hapiness inglesa é happ, que quer dizer acaso ou fortuna, tal como acontece com o grego eudaimonia ou o francês bonheur» («A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?», António Marujo, «P2»/Público, 24.12.2010, p. 14).
      O uso da metalinguagem é um mistério insondável para alguns jornalistas... Adiante. Então não é Glück que se escreve em alemão? Já aqui referi o mesmo erro em relação a outra palavra alemã, «Kaiser». Ultimamente, porém, já vai aparecendo bem grafada: «Na idílica Taunus, na Alemanha, o hotel-castelo Kronberg apresenta mobílias exclusivas e uma colecção de antiguidades e pinturas da propriedade privada da mãe do último Kaiser, que lhe conferem um ambiente de tempos imperiais antigos. Por 119 euros, é possível dormir num dos mais impressionantes castelos alemães» («Vida de nobre por uma noite dormindo num castelo», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 10.06.2010, p. 63).
[Post 4248]

Tradução: «tamper»

Mais uma trapalhada

      «The latest uranium bomb casing and tamper fared no better», dizia o original. O tradutor verteu assim: «O mais recente revestimento da bomba e a calçadeira não tiveram melhor sorte.» Ora vamos lá tentar perceber o que terá acontecido. Como substantivo, alguns dicionários bilingues inglês-português só dão como correspondente «calcadeira». Deste para «calçadeira», foi só um passo, fácil de entender. Contudo, na Wikipédia lê-se que a «uma camada opcional feita de material denso e que rodeia o material físsil dá-se o nome de calçadeira (do inglês tamper)». E, numa nota, pode ler-se que a tradução para português foi fornecida pelo United States Army Combined Arms Center, através do English-Portuguese Dictionary of Military Terminology, que já aqui citei uma vez. Intrigados, consultamos então este dicionário e vemos que a tamper faz corresponder... calcadeira! Ao certo, sabe-se que se trata de um invólucro, de uma camada protectora das bombas nucleares. Calcadeira? Calçadeira?

[Post 4247]

Uso do apóstrofo

Quase igual

      Não me lembro de alguma ter visto numa tradução a grafia queda-d’água. E, no entanto, é assim que está registado nos dicionários, como também estão os vocábulos borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, galinha-d’água, mãe-d’água, olho-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo e tromba-d’água, entre outros. É o que acontece, por exemplo, com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Alguns foram infamemente esquecidos pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No Acordo Ortográfico de 1990, pouco mudou em relação às anteriores normas, excepto (por esquecimento?) esta: «Sempre que, no interior de uma palavra composta, se dá invariavelmente, tanto em Portugal como no Brasil, a elisão do e da preposição de, emprega-se o apóstrofo: cobra-d’água, copo-d’água (planta, etc.), galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco. Dando-se, porém, o caso de essa elisão ser estranha à pronúncia brasileira e só se verificar na portuguesa, o apóstrofo é dispensado, escrevendo-se a preposição em forma íntegra: alfinete-de-ama, maçã-de-adão, mão-de-obra, pé-de-alferes
      Gosto, confesso, deste sinal gráfico designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra. Infelizmente, é muitas vezes mal grafado, pois é substituído por uma plica. Em termos de conceito, é confundido, como já aqui vimos várias vezes, com «apóstrofe».
[Post 4246]

Tradução jurídica

Seria uma excepção

      «Um dos pontos da tese do autor [tenente-coronel Francisco Leandro, do Exército, defendida no dia 22 na Universidade Católica], que estava em Srebenica (Bósnia) como observador da ONU quando ali ocorreu o massacre de milhares de bósnios (1995), centrou-se precisamente nas traduções erradas de vários termos jurídicos constantes do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional» («Jorge Miranda defende curso para tradutores jurídicos», M. C. F., Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 10). Jorge Miranda, que fazia parte do júri que arguiu a tese, propôs ao reitor da Universidade Católica (UCP) a criação de um curso de pós-graduação ou mestrado sobre tradução jurídica. «Seria “um contributo inovador” criar-se algo com aquele objectivo, pois “tenho encontrado [textos] internacionais com traduções horrorosas”, declarou Jorge Miranda» (idem, ibidem). E será que o texto do estatuto teve revisão? Talvez não.
[Post 4245]

Ortografia: «aeroterrestre»

É só pensar

      «Enquanto helicópteros e aviões largavam bombas num local a cerca de 30 quilómetros da fronteira entre as duas Coreias, a artilharia e os tanques disparavam continuamente para repelir o invasor naquelas que foram, este ano, as manobras aero-terrestres mais importantes das Forças Armadas da Coreia do Sul» («Seul exibe poder militar na fronteira com o Norte», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 24).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo (mas está no Dicionário Houaiss), e não era necessário para se saber que a grafia é aeroterrestre. Como aerotransportado.

[Post 4244]

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