Léxico: «garibalde»

Trabalho de sapa

      «A verdade é que o resgate foi executado de uma forma rápida, segura e eficaz. Mesmo assim os Sapadores de Braga lamentam o facto de não terem o material adequado para este tipo de socorro. “Não há uma Garibalde (estrutura com capacidade para acolher uma pessoa de forma a ser içada) na corporação, por isso tivemos que improvisar com umas escadas de modo a fazer um ponto de segurança para descer uma corda e içar o senhor”, explicou fonte dos Bombeiros Sapadores de Braga» («Criança de dois anos salva avô caído e mina», Nuno Cerqueira, Jornal de Notícias, 24.12.2010, p. 7).
      Será uma marca, mas, entretanto, converteu-se em nome comum: garibalde. E alguma coisa me diz que a explicação parentética («estrutura com capacidade para acolher uma pessoa de forma a ser içada») é de Nuno Cerqueira e não da fonte, logo, graficamente esse facto tinha de ser claro para o leitor.

[Post 4243]

Recursos

Mais uma oportunidade

      Foi o meu primeiro texto de hoje, sobre a inépcia jornalística e a insensibilidade de paginadores que não grafam correctamente CO2. Para acabar o dia ainda sob o mesmo signo, devo referir que 2011 será o Ano Internacional da Química. A partir de Junho, a Sociedade Portuguesa de Química (SPQ) vai disponibilizar no seu sítio todas as revistas científicas editadas desde 1905 através dos Periódicos de Química Portugueses, num total de 24 mil páginas. Com a cultura científica pelas ruas da amargura, decerto que não são apenas os jornalistas que devem conhecer mais em todas as áreas do saber científico, mas todos nós. Eles, contudo, deviam estar na vanguarda.
[Post 4242]

Anglicismo

Será que os meus pais, etc.

      «O espírito natalício do Boxing Day parece ter servido de inspiração para as equipas de Manchester, que ontem averbaram preciosos triunfos, isolando-se nos dois lugares cimeiros da tabela da Liga inglesa. Na tradicional jornada disputada no dia a seguir ao Natal, os red devils receberam o Sunderland com uma vitória por 2-0» («Rivais de Manchester celebram Boxing Day com triunfos», P. P., Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 36).
      P. P., como a Quercus, também nos julga Ingleses. Recomenda-se o exame Vieira: «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?»
[Post 4241]

Léxico: «borne de carregamento»

Proponham

      «Um cartão pré-pago é tudo quanto vai ser necessário para carregar os veículos eléctricos na cidade de Viseu, que já começou a receber, para espanto dos mais distraídos, os postes de carregamento. No próximo trimestre, depois de decidido o valor das tarifas, o sistema estará pronto a carregar veículos eléctricos. O borne, colocado mesmo no Rossio, deixou estupefacto Manuel Leitão, que questionou a “utilidade de mais um semáforo”. Afinal, explicou depois de se ter inteirado da utilidade do novo equipamento urbano, “serve para carregar carros eléctricos”. A instalação dos bornes de carregamentos de carros eléctricos começou na semana de Natal e “no próximo trimestre entram em funcionamento”, explicou o vice-presidente da autarquia. “Estão prontos, mas falta definir o tarifário”, adiantou Américo Nunes» («Viseu já instalou pontos de carregamento para eléctricos», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 32).
      Tem de ter nome — mas será este o melhor? Está lançado o concurso de ideias.

[Post 4240]

Ortografia: «beneficência»

Previsível


      Quando ontem ouvi a notícia na Antena 1 (e, nesta, ora diziam ter sido num prédio, ora numa moradia), palpitou-me logo que os jornais de hoje não escapariam ao erro. Ei-lo: «Um incêndio destruiu, ontem de manhã, o telhado de uma residência na rua da Beneficiência, na zona do Rego, em Lisboa, e provocou seis desalojados. “O fogo começou na chaminé do segundo andar. Ainda tentámos apagá-lo com extintores, mas já estava demasiado grande”, explicou ao CM o proprietário, Duarte Ferreira» («Fogo desaloja seis», Helder Almeida, Correio da Manhã, 27.12.2010, p. 11).
      Não é gralha, pois ocorre duas vezes. É barbarismo mais originado pela ignorância do que pela distracção. Amantes da ciência, acham que é só juntar benefi a ciência. Pois não é. É, isso sim, imperdoável que os revisores o deixem passar.

[Post 4239]

Organização e género

A mesma conclusão


      O Wikileaks? A Wikileaks? Já tinha pensado nisto. Leiam o que Fernanda Câncio escreveu sobre a questão no Diário de Notícias: «A semana passada mencionei a palavra Wikileaks. Usei o feminino — pensava numa organização, numa fonte — mas quem reviu o texto alterou o género para masculino, presumo que para denominar o site. Ora o sucedido não só demonstra como se formata o discurso (e portanto a percepção) sem se admitir que, como é o caso, não sabemos bem do que estamos a falar, como está longe de ser um detalhe. Quando consideramos que Wikileaks é um site, assumimos que se trata de uma espécie de plataforma de recepção de conteúdos, um lugar sem, digamos, espessura; falar de Wikileaks como organização é designar uma estrutura, um conjunto de pessoas com história, hierarquia, perspectiva, propósitos e financiamento — que importa identificar e escrutinar. Do nosso entendimento do que é isso de Wikileaks depende pois, em português, o “sexo” que lhe conferimos» («O sexo dos wikileaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24.12.2010, p. 7).

[Post 4238]

Léxico: «empolgação»

Bem-vindo


      «Uma fã de Usher atingiu o cantor com um sapato, quando subiu ao palco, durante um concerto que este deu em Nova Iorque. A empolgação foi tanta que a rapariga quis passar a perna pela cabeça do cantor e acabou por lhe acertar na cara» («Fã dá pontapé na cara de Usher», Jornal de Notícias, 17.12.2010, p. 37).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo, acolhe apenas empolgamento e empolgadura. Outros, mais antigos, registam somente este último. É bom haver variedade. Empolgação não vê muitas vezes a luz do dia.

[Post 4237]

«Despoletar/espoletar»

Evitar mal


      Sinal de inteligência é, creio, saber evitar questões polémicas e estéreis. Uma delas, que tem feito perder muito tempo, é sobre se se deve dizer despoletar ou espoletar. Ora vejam um excerto do editorial do Público da edição de sexta-feira: «A descida do rating da República foi a espoleta que desencadeou os três programas de estabilidade e crescimento e esteve na origem do orçamento mais austero e exigente das últimas décadas em Portugal» («Um círculo vicioso difícil de quebrar», 24.12.2010, p. 36). Salvo melhor opinião — aqui não me eximo a entrar na polémica —, esta é uma formulação com o seu quê de estulta. A «espoleta que desencadeou»!

[Post 4236]

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