Tradução: «Ground Zero»

Ou Zona Zero?


      Já aqui defendi mais de uma vez, e expliquei porquê, que não se devia grafar Ground Zero em itálico. A expressão passou a ser usada superabundantemente após os atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque. Cá está: Torres Gémeas. Foi assim que, a determinada altura, se passou a dizer entre nós. (Em contrapartida, nós é que temos as verdadeiras Twin Towers ali para Sete Rios...) Se a temos de usar duas ou três vezes, não pensamos muito no caso. Se, pelo contrário, a temos de usar algumas dezenas de vezes no mesmo texto, já dedicamos ao assunto mais alguma reflexão. A expressão teve origem com o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e em Nagasáqui. Refere-se à área onde todos os edifícios foram quase arrasados e onde a mortalidade atingiu os 85 por cento ou mais das pessoas que se encontravam na rua sem protecção. Em Hiroxima, por exemplo, o raio do Ground Zero ficou acima de 1,6 km. Porque não traduzir sempre por Zona de Impacto, como se vê algumas vezes?

[Post 4227]

Adaptação de estrangeirismos

Imagem tirada daqui

Paratonnerre


      A propósito da adaptação de estrangeirismos, e concretamente do galicismo abat-jour, de que o mesmíssimo Garrett também se ocupou, Vasco Botelho de Amaral mostrou, no seu Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, ter seguido a lição camiliana de aprender no «dicionário inédito do povo». Assim, certa vez, ouviu de um gaiato (palavra, infelizmente, pouco usada hoje em dia) «apara-raios». E eu também já a ouvi da boca de gente simples. «Ora», justifica Vasco Botelho de Amaral, «o gaiato que disse apara-raios desviou-se do falar geral e talvez incurável (que adoptou pára-raios), mas deu-me lição de aportuguesamento analógico admirável. Na verdade, se os pára-raios aparam os raios que atraem, que melhor aportuguesamento haveria do que este de apara-raios, com semelhança fonética e de esplêndida precisão descritiva do aparelho?» (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4226]

Topónimos

Dá mesmo


      Dá ver ler o Diário de Notícias e ver como grafam topónimos estrangeiros com uma feição portuguesa. Podem errar, e de facto erram, e muitos outros aspectos, mas neste são quase exemplares: «Natural de Mineápolis, antes de estudar representação na Universidade do Minesota, Peter Graves esteve no exército americano, em 1944 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial» («O rosto e a lama da série ‘Missão: Impossível’», L. S., Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 49). «O automóvel está exposto no Museu dos Transportes de Lausana, na Suíça, num evento ontem inaugurado e que decorre até amanhã» («Um dos ícones de James Bond está exposto na Suíça», Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). «O proprietário de um stand de automóveis de Nova Jérsia vai manter a sua palavra e oferecer ao pastor protestante Terry Jones, da Florida, um novo carro, depois deste não ter queimado o alcorão» («Pastor ganha carro por não queimar Alcorão», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 41). «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

[Post 4225]

«Sediado/sedeado»

Vinda do Brasil?

      «Desde 1948 que ninguém avistava uma espécie de mosca peluda muito rara, a Mormotomya hirsuta. Mas os entomologistas Robert Copeland e Ashley Kirk-Spriggs do Centro Internacional de Fisiologia de Insectos, sediado no Quénia, anunciaram ontem tê-la reencontrado nas montanhas Uzaki, desse mesmo país, a cerca de 200 quilómetros da capital, Nairobi» («Mosca mais rara do mundo redescoberta», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 30).
      Depois de alguma estranheza inicial, no início da década, é agora seguramente variante maioritária (mas nem por isso mais correcta ou legítima), atestada nos dicionários.

[Post 4224]

De «site» a «sítio»

Estamos quase lá


      Não vejo nenhuma necessidade de usar o anglicismo «site» em vez da tradução portuguesa, «sítio», ultimamente olhado com menos desprezo. Contudo, não deixo também de ver que é raro alguém usar, na escrita ou na oralidade, o vocábulo português sem lhe pospor «da Internet».
      «O brasileiro Leonardo é o novo treinador do Inter de Milão. Leonardo substitui Rafael Benítez um dia depois de este ter rescindido contrato. O campeão europeu e de Itália anunciou hoje o nome no sítio da Internet do clube» (Luís Soares no noticiário das 7 da tarde na Antena 1).

[Post 4223]

Dequeísmo

Só o título


      «PJ suspeitou de que Evaristo fosse traficante» (Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 23).
      Vê-se este erro também nos livros, mas na imprensa, pela ignorância catalisada pela pressa, é muito mais encontradiço. É até erro com nome: dequeísmo. O verbo suspeitar, à semelhança de outros, só se constrói com complemento oblíquo ou preposicionado quando encerra um grupo nominal («suspeito dos seus conhecimentos gramaticais»), mas já não é assim quando ocorre com uma completiva, como no caso acima: PJ suspeitou que Evaristo fosse traficante.

[Post 4222]

«Meia-vida»

Está na hora


      Guardou uma fotografia do marido (†) «along with a vial of constantly half-lifing Urakami dust». «Um frasquinho com pó de Urakami em constante semidesintegração»? Não, não. Já ouviu falar da meia-vida do urânio, por exemplo? E na meia-vida do carbono-14, algo de que a ficção e o cinema se têm servido ultimamente? Meia-vida é o tempo necessário, numa reacção física ou química, para que se reduza à metade da inicial a quantidade de átomos radioactivos idênticos. Vá, agora procure o blogue de um físico nuclear.

[Post 4221]

«Extras», de novo

Refeições extras

      Miguel Soares, no noticiário das 9 da noite na Antena 1, acabou de dizer que a TAP vai deixar de servir refeições nos «voos domésticos»... Bem, mas não era isso que eu pretendia dizer, mas isto: «Voos extras podem salvar consoada de portugueses» (Nuno Miguel Raposo, Jornal de Notícias, 23.12.2010, p. 51).
[Post 4220]

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