Topónimo: «Cardife»

É pena


      «A polícia britânica prendeu ontem 12 homens suspeitos de estarem a preparar um ataque terrorista, numa série de operações policiais ao amanhecer em Inglaterra e no País de Gales. A polícia de West Midlands informou que cinco dos suspeitos foram detidos na cidade galesa de Cardiff, quatro em Stoke-on-Trent e três em Londres» («Polícia prende 12 suspeitos de planear ataque terrorista», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 21.12.2010, p. 13).
      Durante décadas e décadas, na imprensa o que se lia era Cardife. Até Eça de Queirós usava com esta grafia. É ver também as portarias do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo. Agora consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vemos? Isto: «cardife nome masculino designação da hulha proveniente de Cardiff, capital do País de Gales».

[Post 4209]

Acordo Ortográfico

Imagem tirada daqui
Ainda picam


      A revista Visão lá continua com os seus «espetadores»: «Em três semanas de exibição em Portugal o documentário Saramago e Pilar [sic], de Miguel Gonçalves Mendes (na foto) já teve 11 300 espetadores» («SMS», Visão, 16.12.2010, p. 152). Ainda se lembram do que escreveu Vasco Graça Moura? «Quer dizer que tal como “espetadores”, termo alvoroçadamente cunhado pelo Expresso quando anunciou a sua entrada triunfal na mais silly das áreas, a do Acordo Ortográfico, até uma publicação com a responsabilidade cultural do J/L não se coíbe de lançar mão de uma portentosa compendiação de asneiras» («‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).

[Post 4208]

«Provisão», uma acepção

Já que fala nisso

      O serviço postal britânico, o Royal Mail, pode vir a ser adquirido pelo serviço público de correios da Alemanha. Por isso mesmo, a efígie da rainha Isabel II poderá vir a desaparecer — oh! — dos selos britânicos. Lê-se hoje no Diário de Notícias: «Uma fonte do Governo britânico, citada pelo jornal The Mail on Sunday, admitiu existir uma omissão na lei: “Faltou uma provisão na legislação que obrigasse o futuro proprietário da empresa a usar a imagem da Rainha”» («Rainha Isabel II pode desaparecer dos selos britânicos até 2012», Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 23).
      É acepção relativamente rara, esta do vocábulo provisão. Habitualmente, quando surge, é num contexto em que também surgem os vocábulos «cheque» ou «cargo». E porque aparece ele aqui? Simples: foi usado o vocábulo «provision» na notícia do The Mail on Sunday.
[Post 4207]

Verbo «morar»

Uso e desuso

      «O Google Earth permite-me ir espreitar a mangueira que ainda dá sombra àquela rua luandense que deixei de morar há 40 anos, e o Street View mostra-me, como só por mim não imaginaria, o que são os 40 centímetros de neve que a minha filha me disse cobrirem a sua cidade — uma e outra, essas invenções do Google têm gente dentro» («O Google Body e o meu voto», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 52).
      Não quereria Ferreira Fernandes escrever «rua luandense em que deixei de morar»? Claro que não. Apesar de invulgar, esta construção do verbo morar como transitivo pode ler-se, por exemplo, em Herculano: «Doou D. João I, também, as casas que o mestre morava.» Todavia, é uma regência desusada actualmente.
[Post 4206]

Guantánamo e Guantânamo

Uma variante

      Em toda a imprensa portuguesa lemos o topónimo Guantánamo. Até há dias, era assim sem excepção. «A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos recusou na madrugada de ontem o encerramento da prisão de Guantánamo» («Guantánamo. A prisão que Obama prometeu fechar vai continuar aberta», Mariana de Araújo Barbosa, i, 10.12.2010, p. 313). Mas eis que leio na Sábado: «Por fim, é preciso saber ler o “diplomatês”, ou até mesmo o inglês, e ser fiel ao que lá está, para evitar a manipulação descuidada que tem vindo a ser feita dos telegramas já conhecidos sobre os voos de repatriação de Guantânamo, uma política pública e conhecida ao ponto de até haver presos recolocados em Portugal, confundidos com os voos para a prisão em Cuba, de que até agora não há traços nos telegramas» («Mediações», José Pacheco Pereira, Sábado, 16.12.2010, p. 13).
[Post 4205]

Sujeito indeterminado

Emende-se

      Já sei quem é o jornalista: António Torrado. Continua a dizer: «Neste momento, procedem-se a trabalhos de limpeza na via.» Correcto é, e que alguém lhe transmita a informação: «Neste momento, procede-se [ou procedem] a trabalhos de limpeza na via.» O sujeito é indeterminado e só há duas maneiras de o indeterminar: a) com o verbo na 3.ª pessoa do singular mais o pronome se; b) com o verbo na 3.ª pessoa do plural, sem o se.
[Post 4204]

Recursos

Algo se aprende


      De vez em quando, é bom ver o que anda a fazer a Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia. Melhor, a Dirección General de Traducción de la Comisión, pois falo dos espanhóis. Publicados ambos em Agosto, temos o Guía del Departamento de Lengua Española I (Redacción y presentación) e o Guía del Departamento de Lengua Española II (Problemas y dudas de traducción).

[Post 4203]

Plural de «refrão»

Pode continuar igual


      «Se lhe falássemos em Stefani Germanotta, a associação com a loira explosiva de 24 anos que pôs o mundo a cantarolar os seus refrães não seria imediata» («Lady Gaga. De carne e osso para os pequenos monstros», Nelma Viana, i, 10.12.2010, p. 34).
     Refrães. Perfeito. Dantes, era este o único plural de refrão. É o que regista, por exemplo, o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. Ultimamente, como que a pedido, pela possível estranheza causada, alguns dicionários passaram a acolher também o plural refrãos.

[Post 4202]

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