Ortografia: «lengalenga»

Não conheço, não


      «Devem recordar-se de uma antiga lenga-lenga a que as crianças ainda acham graça e apreciam cantar e que reza assim: “Há fogo, há fogo, nas cuecas do Diogo” («A tia louca da família», João Bonifácio, Público, 12.12.2010, p. 14).
      Podia ser, sim senhor, mas não é assim, antes lengalenga. É habitual este erro, e já aqui o abordámos mais profundamente.

[Post 4195]

Títulos jornalísticos

Os adolescentes sabem


      «“Fazer um título é complicado na medida em que é difícil encontrar uma fórmula que intrigue o leitor, que seja chamativa, não seja especulativo e que informe”, disse Bárbara Almeida, de 14 anos, aluna da Escola Básica Paulo da Gama, na Amora» («Alunos aprendem a fazer títulos e a vencer dificuldades», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 67). Estão a ver como uma adolescente, em visita ao Media Lab do Diário de Notícias, sabe como fazer um título jornalístico? Na última crónica do provedor do Público, esta questão foi abordada. Em causa estava um título abstruso: «Só ameaça de demissão de Assis travou revolta na Bounty socialista». Recomenda no fim o provedor, José Queirós: «“Revolta”, embora aparentemente pífia, ainda vá. Agora “na Bounty”, a que propósito? Se a isto juntarmos que em nenhuma parte do destaque se explica o que foi essa “revolta na Bounty”, podemos concluir que a escolha de um título algo críptico, e por isso menos eficaz, deveria ter sido evitada» («Títulos para descodificar», Público, 12.12.2010, p. 39).

[Post 4194]

Sobre «descontinuar»

Nem eles sabem

      «Em causa, ao que apurou o DN, estará o escoamento dos stocks de computadores que as operadoras das redes móveis ainda tinham disponíveis para estes escalões e a relutância das mesmas em avançar com novos portáteis antes de verem garantido o financiamento dos mesmos. A Vodafone confirmou mesmo ter descontinuado o e.escolas, mas para todos os alunos» («Operadoras deixam de dar portáteis para o e.escolas», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 19).
      São sobretudo burocratas e certos empresários que usam o verbo descontinuar, claramente português, e de boa cepa. Contudo, vindo de quem vem, parece que deve mais à influência do inglês to discontinue, com as mesmas acepções. O que interessa é o resultado?

Actualização no mesmo dia

Vejam no portal do programa e.escolas o vídeo de apresentação. «Eu também acho», afirma José Sócrates, num tom grandiloquente, «que a sorte vem sempre quer da audácia, quer do esforço, mas quero desejar a todos aqueles que estão envolvidos e profundamente envolvidos neste programa a maior sorte do mundo. Porque os resultados deste programa são também convidativos a que hajam novos programas.» Para não haver dúvidas, está também transcrito.

[Post 4193]

Bordões da fala

E picareta

      O Prof. João Sentieiro, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), foi o convidado da emissão de 11 do corrente do programa Os Dias do Futuro, na Antena 1. O motivo eram os dez anos da participação portuguesa na Agência Espacial Europeia (ESA). Arrimou-se sempre a um bordão um pouco antiquado: pá. A meio ou no fim de várias frases, lá vinha um «pá». Contei, mas pode ter-me escapado algum, 46. É obra. Deselegante, pelo menos.
[Post 4192]

Redundância

Tenho ouvido

      «Nós tínhamos conseguido», disse o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, à Antena 1, «dentro do âmbito do orçamento do próprio ministério, uma quantia de 5 milhões de euros, que foi disponibilizada por um despacho das Finanças, de finais de Setembro, para adquirir material.» Sim, é verdade, é na oralidade, é um improviso, mas, mesmo assim, serve para mostrar como actualmente se abusa do advérbio dentro. Neste caso, avulta a redundância, mas nem sempre é esse o problema. Não é raro ouvir-se, na mesmíssima Antena 1, jornalistas dizerem algo como «dentro da União Europeia». Já não chegam as preposições.
[Post 4191]

Acordo Ortográfico

Assim não vale

      O jornal Público tem uma estranha forma de tratar os textos dos cronistas a quem permite que escrevam segundo as normas do novo acordo ortográfico. Pendente como uma bula, no fim da crónica («Privilégios regionais», Vital Moreira, Público, 7.12.2010, p. 37) de Vital Moreira pode ler-se: «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Afirmação, decerto, com reserva mental, pois não dizem de que acordo ortográfico se trata. Ficamos logo esclarecidos quando lemos estes vocábulos no texto daquele eurodeputado: actual, efectuada, objecção, excepção, objectivamente, objectiva...
[Post 4190]

Toponímia oliventina

Imagem tirada daqui
Bom exemplo

      Tanto me surpreendem as ausências, de que já aqui dei dezenas de exemplos, de vocábulos dos dicionários como a sobrevivência de outros. É o caso. Os dicionários mais vulgares da língua portuguesa continuam a acolher o vocábulo esnoga. Já conheciam? Talvez soe familiar a quem leu uma notícia no Verão que dava conta de as autoridades espanholas terem permitido que 73 ruas de Olivença voltassem a ostentar os nomes originais. (Mas coincidiu com o Mundial da África no Sul, e andava tudo aluado...) Ora bem, um desses arruamentos é a Rua da Esnoga, justamente porque nela se situava a sinagoga, a judiaria quinhentista de Olivença. Esnoga é, a par de outras, uma variante de «sinagoga». Lia-se no Diário de Notícias: «A toponímia original das ruas, que nalguns casos remonta à Idade Média, é inspirada nos antigos grémios de artesãos (como as ruas dos Oleiros e dos Saboeiros), em pessoas notáveis da vila (becos de Rui Lobo e João da Gama, faceira de Afonso Mouro, rua de Maria da Cruz) ou em santos de devoção popular (entre os quais São Bartolomeu, São Bento e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal) («Ruas de Olivença voltam a ter nomes portugueses», Luís Maneta, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). Atentem em faceira de Afonso Mouro. Poucos dicionários registam o termo «faceira». Faceira designa a terra de lavoura, fértil, perto de povoação.
[Post 4189]

«Exames extras»

Na senda

      E o Diário de Notícias continua a fazer o que mais de uma vez já aqui elogiei: «Os peritos do Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa precisam de mais elementos para perceber se o chamado “violador de Telheiras” deve ser declarado imputável. Henrique Sotero terminou na quarta-feira o quarto exame em psiquiatria forense que lhe tinha sido marcado no IML, mas, ao contrário do que foi noticiado ontem por um jornal diário, este não será o seu último teste. “Foram agendados mais exames extras para este mês. Só não sei ao certo as datas porque não tenho de acompanhar o meu cliente nestas diligências”, afirmou ao DN o advogado de Henrique Sotero, Pereira da Silva» («Sotero vai fazer perícias extras», Rute Coelho, Diário de Notícias, 11.12.2010, p. 29).
[Post 4188]

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